“Senhor Comandante” | Romain Slocombe

“Senhor Comandante” | Romain Slocombe

O sentido do absurdo do mundo

Em 2006, o documentarista alemão Peter Klemm encontrou, entre os papéis de uma família abandonados numa lixeira pública, uma carta manuscrita. Cinco anos depois, Romain Slocombe, escritor, realizador, tradutor, ilustrador, autor de BD e fotógrafo, decidiu transformá-la em livro, alterando os apelidos do signatário e de certos protagonistas, bem como o título de várias obras citadas. O resultado foi “Senhor Comandante” (Bertrand Editora, 2013), livro que chegou a n.º 1 do top de vendas francês e recebeu uma nomeação para o Prémio Goncourt.

Paul-Jean Husson, o signatário, é um escritor com uma obra que respira um anti-semitismo que crê «patriótico». Numa Paris que vive um clima de pré-guerra, Paul retira-se para uma pequena vila da Normandia para se dedicar à escrita. Em 1932 entra na sua vida Ilse Wolffsohn, a encantadora namorada do filho Oliver. Ilse é uma famosa actriz alemã, que escolheu Elsie Berger como nome artístico. Paul, um oficial na reserva, cedo se apaixona por Ilse, duvidando que o filho possa alguma vez responder às aspirações desta. Assim, quando a guerra rebenta e Oliver é obrigado a partir, Paul toma a seu cargo a nora Ilse e a neta, com quem nunca se envolve verdadeiramente por lhe lembrar demasiado as feições do filho. Porém, movido por uma desconfiança que vai crescendo como um espinho, Paul decide investigar o passado de Ilse, descobrindo que esta é de origem judaica. Entre uma paixão avassaladora e o cumprimento do dever e o respeito pelos valores de uma vida, Paul decide escrever uma carta ao comandante da Kreiskommandatur, salvando a sua honra e colocando nas mãos de outro o destino de Ilse.

O “Senhor Comandante” mergulha num período negro da história mundial, quando a própria França – ou pelo menos muitos dos seus habitantes – via com bons olhos uma aliança com a Alemanha, entregando os judeus sem pensar duas vezes e fazendo de Inglaterra o inimigo a combater. «A França tornara-se a lixeira do mundo», pode ler-se a certa altura. Um livro que se agarra como um bloco de gelo e onde, as emoções humanas, se olham ao espelho com um absoluto ar de desprendimento.



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