“Meia-Noite em Pequim” | Paul French

“Meia-Noite em Pequim” | Paul French

A Literatura ao serviço dos desígnios da Justiça

Quando Paul French conheceu a história que rodeava o assassinato de Pamela Werner – através de “Red Star Over China”, uma biografia do jornalista americano Edgar Snow -, perpetrado em 1937, ficou fascinado com a quantidade de factos intrigantes: um pai adoptivo a tender para o excêntrico, crenças de que espíritos-raposa vagueavam à noite junto à velha Muralha Tártara de Pequim, rumores de sexo ilícito, uso e abuso de drogas, murmúrios de escândalo, um submundo de corrupção, a ocultação de factos da parte de diplomatas britânicos e, sobretudo, a terrível injustiça final no caso, que ficou sem resolução.

Incapaz de esquecer a história, Paul começou a investigar em jornais da época, arquivados entre Pequim, Xangai, Hong Kong e Londres, percebendo que a investigação havia sido conduzida numa insólita parceria entre a Polícia de Pequim e um detective britânico a trabalhar na China. Decidiu então começar a escrever a partir daquilo que já havia recolhido, até que o destino o prendou com uma feliz coincidência: enquanto pesquisava nos Arquivos Nacionais Britânicos, em Kew, descobriu uma pasta sem catalogação na zona que continha dezenas de caixas de correspondência aleatória enviada de Pequim entre 1941 e 1945. As cartas que estavam dentro da pasta haviam sido registadas, reconhecidas, arquivadas e, também, esquecidas. Cerca de 150 páginas, escritas à máquina, com anotações feitas nas margens pelo autor. Mais tarde, Paul French percebeu que se tratava da investigação privada levada a cabo por E. T. C. Werner, o pai de Pamela, que delapidou a vida e a imensa fortuna em busca da verdade e da paz de espírito. Cartas, essas, que se revelaram essenciais para a escrita de “Meia-Noite em Pequim”, um livro situado entre o ensaio criminal e o documento histórico, que pretende fazer justiça, ainda que de forma tardia, sobre o assassinato de Pamela Werner.

Para além de recriar todo o processo de investigação, partilhar testemunhos recolhidos e reconstruir a última noite de Pamela a partir das notas do pai, “Meia-Noite em Pequim” oferece uma extraordinária lição de história sobre uma cidade e um país à beira do colapso, com as tropas japonesas a ocuparem a Manchúria, os Senhores da Guerra perdidos em lutas pelo poder e os estrangeiros alienados no Bairro das Legações, um condomínio de luxo que mais tarde se transformou numa gaiola dourada. Tendo a lei fechado os olhos a um crime hediondo, coube à literatura cumprir os desígnios da justiça.



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