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MOTELX e FilmTwist levam “Possession” de Żuławski ao Nimas em 4K

Na terceira sessão do Nimas Fora de Horas, o clássico de culto de Andrzej Żuławski regressa ao grande ecrã numa sessão única em 4K restaurado — à meia-noite de 29 de maio, no Cinema Nimas, em Lisboa.

O MOTELX e a FilmTwist regressam ao Cinema Nimas, em Lisboa, com a terceira sessão do ciclo Nimas Fora de Horas: na noite de 29 para 30 de maio de 2026, à meia-noite, o clássico de culto Possession (França, RFA, 1981) de Andrzej Żuławski sobe ao grande ecrã numa sessão única em formato 4K restaurado. O filme, que conta com Isabelle Adjani e Sam Neill nos principais papéis, é considerado pela revista Sight & Sound um dos melhores filmes de todos os tempos — e uma das experiências mais extremas e inclassificáveis da história do cinema de terror europeu. Uma noite para quem não tem medo de ser perturbado.

Um Filme de Culto com uma História Conturbada

Possession teve uma génese tão tumultuosa quanto o próprio filme. Andrzej Żuławski baseia-se em parte na sua experiência pessoal durante o divórcio da atriz Małgorzata Braunek para construir uma narrativa sobre a dissolução de um casamento que rapidamente ultrapassa qualquer realismo psicológico convencional. A escolha de Berlim como cenário não é casual: a cidade, ponto mais próximo da Polónia e dos países do bloco socialista, carrega um forte subtexto político. O Muro de Berlim funciona como metáfora da Cortina de Ferro, enquadrando o horror íntimo numa tensão histórica e geopolítica mais ampla.

Estreado em Cannes em 1981 — onde Isabelle Adjani arrebatou o prémio de Melhor Atriz —, o filme não teve uma receção fácil. No Reino Unido, foi proibido no contexto dos chamados Video Nasties. Nos Estados Unidos, foi distribuído numa versão fortemente mutilada, com cerca de 80 minutos, ignorada pela crítica da época. Essa controvérsia acabou, paradoxalmente, por reforçar a sua aura de mistério e contribuir para o seu estatuto de objeto de fascínio permanente para cinéfilos e críticos de todo o mundo.

Sam Neill, um dos protagonistas, chegou a descrever a rodagem como “a experiência mais extrema” da sua carreira. A sua contrariedade diante das exigências de Żuławski é hoje parte da mitologia que envolve o filme.

Uma Obra que Desafia o Género e o Espectador

O que torna Possession verdadeiramente inclassificável é a sua recusa em permanecer dentro dos limites de qualquer género. O terror está lá — visceral, físico, perturbador —, mas o filme é, antes de mais, um retrato da desintegração de uma relação conjugal que rivaliza, na sua intensidade, com obras como Antichrist de Lars von Trier ou Cenas de um Casamento de Ingmar Bergman.

Michael Brooke, da Sight & Sound, sintetizou bem essa ambiguidade: “Embora seja fácil perceber porque foi catalogado como um filme de terror, a sua primeira metade oferece um dos retratos mais visceralmente intensos da desintegração de uma relação alguma vez levados ao cinema.” Tom Huddleston, da Time Out, foi mais direto: “‘Possession’ poderá ser o único filme que é, ele próprio, louco: imprevisível, horrífico, e cujos momentos de aterradora lucidez apenas servem para acentuar a vertiginosa demência que reside no seu núcleo. Uma experiência extrema, mas essencial.”

O académico Bartłomiej Paszylk considerou-o “um dos filmes de terror mais enigmáticos e intransigentes da história do cinema”. Mais de quatro décadas após a sua estreia, Possession permanece uma obra profundamente provocadora, que desafia o espectador a confrontar os aspectos mais sombrios da mente humana — e talvez os seus próprios.

Isabelle Adjani: Um Ícone do Terror Europeu

A interpretação de Isabelle Adjani em Possession é, por direito próprio, um fenómeno à parte. A atriz entrega uma performance de uma intensidade raramente vista no cinema europeu — física, visceral, completamente entregue a um papel que exigia literalmente tudo. O prémio em Cannes foi apenas a confirmação formal do que qualquer espectador reconhece imediatamente: uma atuação que transcende a interpretação e se aproxima da possessão, no sentido mais literal do termo.

Ironicamente, foi essa performance que, segundo conta a lenda, a consolidou como um ícone do terror europeu — um estatuto que Adjani nunca terá procurado, mas que o filme lhe impôs de forma indelével. A restauração em 4K oferece agora a oportunidade de revisitar essa atuação com uma clareza visual que o filme nunca teve nos seus lançamentos anteriores.

Nimas Fora de Horas: Um Ciclo para os Notívagos Exigentes

A sessão de Possession insere-se no ciclo Nimas Fora de Horas, uma parceria entre o MOTELX e a FilmTwist que tem apostado em sessões a horas irregulares para títulos que merecem um contexto especial de visionamento. A escolha da meia-noite não é apenas uma questão de atmosfera: é uma declaração de intenções sobre o tipo de experiência que se pretende proporcionar ao público.

O MOTELX — o festival internacional de cinema de terror de Lisboa — e a FilmTwist têm construído, com este ciclo, um espaço para o cinema de género mais exigente e menos facilmente classificável, apostando em clássicos restaurados que merecem ser descobertos ou redescobertos no grande ecrã, com a qualidade técnica e o contexto cultural que lhes corresponde.

Os bilhetes e materiais promocionais estão disponíveis através dos canais habituais do MOTELX e do Cinema Nimas. Para mais informações: press@motelx.org.

Uma Noite para Não Esquecer

Quase cinco décadas depois da sua estreia em Cannes, Possession continua a ser um dos filmes que nenhum cinéfilo verdadeiro pode dizer que viu sem ter ficado marcado. A oportunidade de o (re)ver em 4K, no grande ecrã, à meia-noite, numa sala de cinema de Lisboa, é a combinação ideal para uma experiência cinematográfica que vai muito além do entretenimento. Como escreveu Peter Sobczynski no RogerEbert.com: “‘Possession’ continua a ser uma das experiências cinematográficas mais extenuantes, poderosas e avassaladoras que provavelmente terá ao longo da vida.” Uma promessa e um aviso, em partes iguais.



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