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Philips CD-i

Talvez a pior consola de sempre.

Há uma mistura quase inexplicável de nostalgia, futurismo e magia na tecnologia de ponta dos anos 90. Muitos dos aparelhos que nos eram apresentados então despertam hoje uma sensação semelhante à causada por um filme de ficção científica dos 60s e 70s, onde tudo nos parece tão arrojado, mas ao mesmo tempo rudimentar, ou até mesmo atrasado. Por vezes sabe bem deixar de lado o iPhone e relembrar, por puro gozo, o investimento que certas áreas tiveram na esperança de que “altas cenas” nascessem. O multimédia, grande fad dos 90s, parecia, a par com a Realidade Virtual, a next big thing. E, por essa altura, nada poderia ser mais vanguardista do que ter uma máquina em casa que corresse filmes, música, jogos e enciclopédias de onde se sacavam os trabalhos para a escola, sem que aquele professor antiquado e com medo de computadores reparasse – tudo isto, claro está, a partir de CD. E foi este o gap de mercado que a Philips tentou preencher com o seu CD-i. O lar nunca mais seria o mesmo.

A história do CD-i começa no início dos anos 80, quando a Sony e a Philips produziam os Rainbow Books, um nome engraçado a servir de fachada a um conjunto de especificações dos diversos tipos de CD (de onde se vai buscar a designação Red Book Standard para o formato áudio). Em 1984 eram catalogadas sob a norma Green Book Standard as especificações de um disco compacto interactivo com as faixas que incluíam informações omitidas da lista de conteúdos. Nascia assim o formato CD-i. Entusiasmada com o que tinha nas mãos, a Philips iniciou o desenvolvimento de uma máquina em 1987, esperando-se que esta demorasse apenas um ano até estar concluída. Problemas com o hardware e sistema operativo atrasaram o projecto que só foi lançado no final de 1991. A data de lançamento destruiu o sonho da Philips em ser pioneira no entretenimento multimédia em CD, já que por essa altura já existia no mercado o PC-Engine CD da NEC e muitas outras marcas como a Sega e a Commodore encontravam-se na eminência de largar sistemas que incorporassem leitores de CD.

O equipamento, que se assemelhava a um gigantesco e pesadão videogravador, possuía nas suas entranhas o processador 68000, o mesmo encontrado dentro dos Macintosh originais, comercializados em 1984. Já algo datado em 1987, o processador mostrava-se, em plenos anos 90, demasiado lento e limitado comparativamente com as outras consolas do mercado. Para piorar a situação, o preço de um leitor era cerca de 1000 dólares, bem superior ao das outras máquinas. De início, em termos de software, era possível encontrar vários títulos educacionais, versões de concursos televisivos interactivas e conversões de jogos de tabuleiro. Ao nível de complexidade, estes títulos mostravam-se muito mais simples que os das rivais Mega Drive e Super Nintendo, mas isso não preocupava a Philips, que por esta altura promovia o sistema não como uma consola, mas como um centro de entertenimento familiar capaz de reproduzir software educativo, photo CD e video CD (sendo necesária a aquisição de um CD-i Digital Video Cartridge para possibilitar este ultimo).

Em 1994, a Philips estava preocupada com as vendas baixas do seu equipamento e, ao perceber que o que mais entusiasmava os (poucos) possuidores de um leitor CD-i eram os jogos, lançou uma nova versão, redesenhada e mais barata, com um design a apelar aos  fãs de videojogos. Juntamente com este novo modelo, chegou uma vaga de novo software CD-i, mas era já tarde demais para salvar o sistema da Philips, uma vez que o mercado estava por esta altura inundado de alternativas mais poderosas e baratas ao CD-i, como a Playstation da Sony. Para além disso, muitos dos novos jogos necessitavam do RAM extra incluído no  CD-i Digital Video Cartridge para correr, o que obrigava a um investimento extra.

A Philips acabou por ser derrotada do mundo das consolas e do multimédia depois de perder um bilião de dolares no desenvolvimento, produção e promoção de hardware e software. Assim, o CD-i morreu de uma forma lenta e agonizante, tendo o último título oficial sido lançado em 1998. Olhando para este sistema quase 20 anos após o seu lançamento podemos, num rasgo de nostalgia, perdoar-lhe o seu elevado preço e apreciá-lo pelas qualidades que apresentava. Afinal, o CD-i foi pioneiro nas enciclopédias e títulos educacionais multimédia que proliferaram pelos 90s nos CD-Rom dos PC e MAC (antes da internet ter tomado conta dessas plataformas); possibilitava a visualização de filmes em  Video-CD numa altura em que o advento do DVD se encontrava longe e em que a alternativa mais comum disponivel era o VHS; e apresentava um rudimentar mas audacioso acesso à internet para descarregar conteúdos (asoecti que só foi recuperado em 1999 com a Dreamcast).

Em termos de software, merecem destaque os diversos títulos FMV que tiravam partido das capacidades de reprodução video deste sistema. A experienciação destes títulos assemelhava-se à visualização de um (mau) filme interrompido por dois ou três cliques numas opções – eis os vossos 10 mil escudos. Uma tarde em volta destes jogos poderá hoje soar tão divertida como um engarrafamento na auto-estrada Porto-Lisboa, mas os amantes da sátira e do burlesco (dos quais todos temos um pouco) de certo se deliciarão com títulos como  Voyer, thriller polvilhado de erotismo muito controlado e que incorpora actores cuja capacidade de representação faz do meu cágado candidato a Óscar.

E que retrospectiva de CD-i ficaria completa sem mencionar a principal razão pela qual a chama dos discos compactos intereactivos se encontra bem viva na memória dos internautas? Nenhuma: os jogos da Nintendo publicados no equipamento da Philips! Os quatro jogos produzidos – três titulos com os personagens de Zelda e o infame Hotel Mario – são hoje mundialmente conhecidos já que as suas cut-scenes impulsionaram o  aparecimento dos YouTube poops (alguém falou em relação qualidade-preço?). Estes quatro títulos são hoje vistos como o que de pior existe com o selo da Nintendo, sendo de espantar como a companhia que tanto controle faz sobre a qualidade dos seus produtos, alguma vez autorizou jogos tão anedóticos. O fenómeno Waterworld (sim, o filme que deu a Kevin Costner um bilhete só de ida da O2 Arena para o palco secundário da Queima das Fitas de Ovar) joga aqui a favor da máquina da Philips. Hotel Mario e os seus amigos Zeldas possuem animações tão hediondas que se tornam obrigatórios.

Se um dia, nas vossas incursões às feiras de velharias, se depararem com uma destas relíquias dos tempos em que o CD possíbilitava maravilhas, adoptem-na, dêem lhe um novo lar. O vosso leitor de Blu-ray agradece a companhia e os encontros sociais lá em casa poderão ser abrilhantados com making offs do videoclip do Sting, curiosidades do Titanic narradas pelo  Capitão Pickard e versões do Tetris com cataratas e música new age como background.



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