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Budda Power Blues

Do trio Budda Power Blues, composto por Budda (guitarra e voz), Nico (bateria e voz) e Tó Barbot (baixo), retém-se aquele aroma particular das exaltações e dissonâncias, tão libertárias como imaginativas, que envolveram o cariz particular ora do blues electrificado do Delta, ora do blues rock psicadélico londrino, com Jimi Hendrix, John Mayall, Cream, entre outros, à cabeça de uma forma de estar sonora transgressora que daria ao blues uma dimensão quase mundial.

Com o blues psicadélico da capital inglesa, que se inspirava nos blues rugosos, tão característicos e mágicos de Chicago e Memphis, sentimos não o hábito dos bluesmen negros norte–americanos em estado bruto, mas uma aproximação, fruto quiçá de estudo atento e dedicado dos ritmos e tempos que lhe deram origem, criando um novo estilo, mais extensível e pop, permitindo, por consequência, a proliferação de bares e de gentes cada vez mais interessadas no género que eternizou Jimi Hendrix ou Ginger Baker. Com Budda Power Blues sentimos alma e um apego natural à sua ressalva referencial que põe Jimi Hendrix Band Of Gypsys no topo da inspiração colectiva. A mesma vontade saturada nas guitarras e uma aproximação ao furor abrasivo da Swinging London captamos ao ouvi-los.

O desempenho instrumental de Budda é conhecido de colectivos com expressões distintas, como Mundo Cão ou Monstro Mau, mas é com Budda Power Blues que, à perspicácia  do guitarrista, lhe detectamos uma outra: a voz – fogosa e envolvente – absorvente, como uma esponja, parece refluir todo um culto na sua expressão.

Foi à conversa com Budda que se percebeu um pouco mais acerca do surgimento, vontades e história deste trio de músicos.

“Budda Power Blues, surgiu da necessidade de tocarmos juntos sem rédeas e sem expectativas. O blues sempre foi a minha vida e precisava de uma banda. Tinha dois companheiros de armas no Monstro Mau que, apesar de não estarem muito por dentro da cena blues, eram excelentes músicos e estavam sequiosos por tocar e experimentar. Para além disso nós os três temos um entendimento que nos transcende. BPB foi uma forma de praticarmos o improviso e de melhorar a química que havia entre nós, que já era fortíssima.

Rapidamente a banda ganhou forma e importância nas nossas vidas e vamos já no terceiro disco”, conta.

Será, este sim, um projecto acima de tudo pessoal? Budda explica. “Todos os meus projectos são pessoais. O que acontece comigo é que tenho gostos muito diversos e ambição de poder tocá-los todos. Tanto consigo ouvir Caetano Veloso sozinho à guitarra e ficar com os pêlos em pé e pensar: tenho que fazer uma cena assim, como ouço Led Zeppellin, ou ZZ Top e entro em delírio. Mas, na verdade, o mesmo acontece com Sherill Crow ou Norah Jones, Miles Davis ou Rage Against the Machine, Son House, Ray Charles, John Coltrane,  John Scofied, Tom Jobim, Sting, Red Hot Chilli Peppers, Nirvana, Derek Trucks, ou Gov’t Mule. É infindável a lista dos estilos e bandas de que gosto.

No entanto, o blues é a minha alma e modo de vida. É a primeira coisa que toco mal pego numa guitarra. O blues é o avô do Rock, do funk, do R&B e é também o pai do Jazz. No fundo, tudo o que toco vai dar ao blues.

Em Budda Power Blues, simplesmente exploro mais essa vertente. Não conseguiria tocar apenas numa das minhas bandas”.

Na conversa reflectimos sobre os aspectos referenciais. Se essas fontes são simplesmente rochedo de inspiração ou uma espécie de homenagem traduzível no prazer que lhe dá tocar essa génese. Para o músico, “comecei a ouvir blues através de Jimi Hendrix e essa sempre foi a minha maior referência como guitarrista. Nunca procurei imitá-lo, pois não sei fazê-lo nem pretendo. Nunca procurei imitar ninguém. Como sempre fui compositor, sempre usei as músicas dos outros como ponto de partida para criar as minhas. Nunca fui aquele tipo de guitarrista que fica horas a tentar tocar o solo do «Hey Joe» igualzinho. Limito-me a capturar a ideia e o conceito base e improvisar, divagar e criar as minhas próprias linhas.

Um dia arranjei um disco de Hendrix que se chama “Blues” (compilação de blues gravados por Hendrix). A capa do disco é a silhueta de Hendrix formada por várias fotos de bluesmen. Aí fui à procura dos que o influenciaram: Muddy Watters, Buddy Guy, BB King, Robert Jonhson, Elmore James, Albert King, Albert Collins, Son House e outros tantos.

Então descobri a complexa simplicidade do blues. Aparentemente básico, mas dificílimo na realidade. Houve quem vendesse a alma ao diabo para poder tocá-lo”, lembra.

A intemporalidade da senda, assim como a integração de Hendrix – nascido em Seattle – na cena psicadélica de Londres, pode justificar a extensão e passagem do género para um universo complementar mas também dicotómico. Também por isso a pergunta: Blues rural, com a carga implícita dos campos de algodão, em tempos idos, com forte segregação social e racial ou blues do Delta, electrificado e abrasivo, cúmplice com a matriz rock´n´roll?

“São dois universos incríveis!!” refere o músico, continuando, “o blues rural não conseguiria jamais tocá-lo pois não tenho idade nem acumulei o  sofrimento suficiente. Os homens e mulheres que tocavam esse blues carregavam o mundo às costas e são, a meu ver, seres artísticamente superiores.

Insiro-me obviamente no blues do Delta, eléctrico, alto, poderoso e abrasivo. O poder cru de um power trio sem truques na manga é e sempre foi a minha cena. Acho mais interessante vencer as dificuldades do que contorná-las. E uma banda pequena tem muitas dificuldades no que toca a sonoridade, diversidade e fuga à monotonia. Em trio não é possível entrar o hammond naquela parte, ou o piano noutra, ou a secção de sopros na outra. Tudo depende de voz guitarra baixo e bateria. As nuances dos temas e os próprios arranjos estão à mercê desses instrumentos. E dessa forma voltamos um pouco ao conceito das raízes onde um homem só tocava guitarra e cantava e nada mais era necessário. O Son House tem um tema só com palmas e voz e está tudo lá!

Para além disso, o facto de sermos poucos, permite que o púlico seja parte integrante e essencial do espectáculo. Por um lado deixamos as coisas em aberto para que o público possa imaginar que mais instrumentos poderiam entrar ali, por outro os próprios espectadores e a sala de espectáculo dirigem o concerto, tornando-o único”.

A adesão do público é entendida pelo músico do seguinte modo: “O processo criativo é de certa forma egoísta, à semelhança de todos os meus projectos. Apenas tentamos agradar-nos a nós próprios, tentando elevar sempre a fasquia. Por exemplo, este último disco de Budda Power Blues (“Kind of Gypsys”) foi o disco mais difícil que já fiz até hoje, enquanto músico. Apesar de o processo de gravação ter sido extremamente simples (gravaram tudo ao vivo em estúdio e num dia e meio) a exigência técnica da execusão era elevadíssima e tivemos que nos superar.

Depois de as coisas estarem criadas e compostas passamos ao processo de dar a conhecer e de as mostrar a outros na esperança de haver mais alguns loucos como nós que gostem de música e de coisas fora dos padrões.

BPB começou como um projecto sem qualquer ambição de carreira. Começou por ser um laboratório para podermos experimentar, explorar, improvisar e crescer como músicos, e transformou-se num sonho realizado. Temos público que nos segue para todos os concertos, temos coleccionadores de concertos de Budda Power Blues. Há quem já tenha visto mais de quinze espectáculos da banda e temos locais onde tocamos com regularidade, o caso do Hot Five no Porto e o Glamour em Viana do Castelo, por exemplo.

Aquilo que estamos a planear, neste momento, é a internacionalização. O mercado em Portugal é demasiado restrito e pouco aberto a música. Apenas se pretende aquilo que já se conhece, aquilo que passa na rádio e que sai nos jornais. Temos um público pouco curioso de uma forma geral”.

No entender do músico há um público distinto na cena blues, “o blues move pessoas específicas, que os outros estilos não vão buscar. O nosso público é sobretudo aquele que gosta de música, que compra discos, que colecciona dvd’s de música e que está interessado em mais do que ouvir a letra. É um público atento, crítico e conhecedor. É frequentemente um público com idade superior aos 40 anos. Todos estes factores fazem com que o nosso público seja diferente do da pop, que cada vez se demonstra mais alheio e desinteressado de tudo. Carrega as suas músicas no ipod, ouve desde Marlyn Manson a Deolinda e não compra discos.

O público de Budda Power Blues é muitas das vezes semelhante ao de Monstro Mau, pelas mesmas razões. O de Mundo Cão é um público também específico, mas muito mais genérico. A banda tem outro mediatismo e outra exposição o que o torna muito mais eclético.

Mas naturalmente o blues tem um público específico. Há muitos para quem basta ouvir a palavra blues para se deslocarem ao concerto. Não é por acaso que há alguns festivais, não tantos como gostaria, do estilo. Acaba por ser um pouco como o jazz, a bossa nova, a  clássica e o metal.”

Budda é mais um de alguns dos músicos da sua geração com vontade de ver o panorama da indústria musical diferente, para melhor logicamente, da forma como se encara e/ou está presentemente e é com essa noção, de algum natural desânimo, que terminámos a conversa.

“Acho que o mercado da música está a desmoronar-se e a alterar-se para nunca mais ser o mesmo. Acho importante salientar para aqueles que gostam de música que a compra de um disco é um acto de demonstração de vontade à economia e à indústria. Não comprar discos mostra à indústria que não há pessoas interessadas em comprar discos, logo não faz sentido produzir discos. É simples! É a lei da oferta e da procura. Por outro lado, comprar discos a qualquer preço, mostra à indústria que pode vender ao preço que quiser pois os compradorees estão distraídos. O que sugiro é que não se comprem discos acima de um valor razoável (10€ a 12,50€). Desta forma, obriga-se a indústria a tornar-se mais eficiente, mas não se destrói o processo criativo.

O que está a acontecer é que cada vez mais só as bandas com público fiel e as bandas grandes é que conseguem ter contratos discográficos. Com este tipo de comportamento acabaremos por ter apenas os Tonis Carreiras, as Christinas Aguileras, as Hannah Montanas, e por aí a fora, pois só esses têm um público comprador de discos.

Temos que acordar e abanar as nossas fundações. Esta sociedade está demasiadamente acomodada e nada participativa e reactiva. Estão a fazer de nós o que querem e bem lhes apetece. Como diziam os Rage Aginst the Machine: We gotta take the Power Back”.



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