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Vodafone Paredes de Coura 2019 | Dia 4 (17.08.2019)

Patti Smith era um dos grandes nomes, eventualmente o maior, do cartaz que o Vodafone Paredes de Coura agregou para este ano. Não será, portanto, estranho dizermos que foi, muito provavelmente, o momento mor desta edição, num concerto repleto de emoções fortes e sempre com muitas mensagens para transmitir.

Quando chegou o tempo de iniciarmos a última maratona do Vodafone Paredes de Coura 2019, dirigimo-nos ao palco Vodafone FM para apreciarmos o troço final de Time For T. Após alguns anos a maturar em Inglaterra, o projecto liderado por Tiago Saga tem demonstrado o seu arsenal pelos palcos nacionais nos últimos tempos, e em boa hora o faz. A mistura de folk, rock e blues, confeccionada num jeito bem particular pelo seu compositor é bastante agradável.

O céu acinzentou ao final da tarde, daí que a organização tenho chamado os Ganso para reproduzir musicalmente os tons que uma tarde desta estação deve patentear.  A banda aproveitou para estrear algumas canções do disco a editar no próximo mês, não deixando no esquecimento trunfos dos trabalhos precedentes. Sempre com sabor a Verão e uma toada em ritmo de cruzeiro, para não suarmos com o calor.

Alice Phoebe Lou era uma das artistas que mais expectativa nos tinha criado durante a contagem decrescente para o festival minhoto. Depois de um soundcheck que demorou ligeiramente mais que a conta (provavelmente o único mínimo atraso ao longo dos quatro dias do Vodafone Paredes de Coura), a sul-africana desatou a encantar-nos, como era expectável, ainda que a performance tenha pecado por uma candência demasiado igual. Isto apesar de toda a energia emanada pela simpática Alice, apesar da maleita que lhe atacava a garganta, mas que praticamente não atrapalhou os dotes vocais superiores que possui. Nesta sua segunda aparição em Portugal, Alice deambulou pelo seu bluesy folk, assemelhando-se não poucas vezes a uma diva de cabaret. Pediu desculpa por não interpretar alguns dos temas mais requisitados pela plateia, defendendo que prefere tocar aqueles que mais lhe transmitem no momento. A rever.

Quando estacionámos novamente no anfiteatro natural de fronte ao palco principal, já Mitski andava às voltas com a mobília. A nipo-americana colocou em palco uma mesa e uma cadeira de madeira, com as quais foi interagindo das mais variadas formas ao longo da sua prestação que ultrapassou as duas dezenas de canções. Sempre com um semblante bastante fechado, facto que não sabemos se está ligado à paragem anunciada após esta digressão, Mitski foi cumprindo a missão sem grandes apontamentos, positivos ou negativos, a sublinhar. Pareceu-nos sempre que a sua alma não estava propriamente ali, mas também pode ser algo inerente à personagem que desempenha em palco nesta tour.

Vejam só que bom que é, “Aurora”. Podia muito bem ser a manchete para a performance dos Sensible Soccers, que regressaram ao festival minhoto com a especial missão de expor o seu mais recente trabalho, ainda que tenha havido espaço para aventuras sónicas anteriores. Como o final que ficou reservado para o sensacional «Sofrendo Por Você», com direito à dança inconfundível que já se tornou mítica. A realidade é que, obra após obra, o colectivo vila-condense continua a afirmar-se como uma das bandas mais estimulantes do cenário nacional.

Patti Smith era um dos grandes nomes, eventualmente o maior, do cartaz que o Vodafone Paredes de Coura agregou para este ano. Não será, portanto, estranho dizermos que foi, muito provavelmente, o momento mor desta edição, num concerto repleto de emoções fortes e sempre com muitas mensagens para transmitir. Ou não fosse Patti Smith quem estivesse em palco. Mesmo os temas não originais, meia-dúzia para sermos exactos, foram claramente escolhidos a dedo pelos ideais que pretendem emitir. Desde um «Beds Are Burning», dos Midnight Oil, até ao medley formado por «I’m Free», dos Stones, e «Walk on the Wild Side», de Lou Reed, foram todas lições para quem quisesse ouvir e tentar tornar-se um ser humano melhor e mais interessante. E é delicioso ouvir uma personalidade com a magnitude de Patti Smith tratar os seus temas por “pequenas canções”, como se se tratassem de criações vãs e triviais. Tal como se notou a honestidade cada vez que nos acenou e que se mostrou estupefacta pela grandiosidade e energia da plateia à sua frente, degustando o seu concerto até ao último acorde.

E, antes que Freddie Gibbs venha insultar pela milésima vez a polícia, e sejamos todos presos, vamos terminar este artigo com umas linhas acerca da potente actuação dos Suede. Apesar de se manterem activos, o grupo britânico é regularmente olhado pelo espectro das bandas cujos melhores anos já terão passado, sendo que muitas vezes são meramente as massas que deixam de consumir o seu produto. E dá ideia que Brett Anderson entrou no palco Vodafone com o intuito de arrasar esses mesmo olhados, rubricando uma performance absolutamente imparável, que cedo o viu descer até ao público e, inclusivamente, agarrar uma câmara de filmar e dirigi-la durante um par de minutos. Noutras ocasiões, as fortes emoções dos temas deixavam-no de rastos, rebolando pelo palco, sem falhar as suas deixas. A banda, mais calma a nível de comportamento, foi sempre exibindo uma bitola mais que suficiente para acompanhar o seu líder. Desde as canções seminais, como «Animal Nitrate» ou «So Young», «Trash» ou «Beautiful Ones», às passagens acústicas do concerto (onde couberam «The Wild Ones» e «She’s In Fashion»), os Suede demonstraram em todos os momentos estar num belíssimo momento de forma, estando completamente à altura de encerrar o principal anfiteatro do festival.

Uma nota final para o filme de encerramento, transmitido logo após a passagem dos Suede, muito bem executado pela organização, incutindo automaticamente a vontade em muita gente de adquirir de pronto bilhetes para 2020.

 

Podem encontrar aqui as reportagens do primeiro, segundo e terceiro dia.



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