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VIVE NO BRASIL E VAI A CANNES

O realizador português Miguel de Oliveira desvenda-nos a sua carreira e o seu trabalho.

Numa solarenga tarde de Maio, encontro-me no foyer do Cinema São Jorge com Miguel de Oliveira, realizador e antigo colega da faculdade que surpreendentemente num dos acasos da vida reencontrei no FESTin, festival de cinema itinerante da língua portuguesa.

“Recebi por e-mail a notícia que a curta “Simpatia do Limão” tinha sido seleccionada para o FESTin. Fiquei muito contente porque foi a primeira vez que entrou num festival de cinema em Lisboa. Quando a enviei, pensei que seria uma oportunidade única de entrar num festival de língua portuguesa, fiz tudo para vir aqui desmarquei coisas, como agora moro no Brasil, finalmente conseguimos e foi óptimo”, diz Miguel de Oliveira acerca da sua participação no FESTin.

“Acho muito interessante, porque creio ser extremamente importante haver um festival destes que abrange os países da lusofonia e acho muito bom ser itinerante. O projecto poder ser levado para outros países como Angola, Moçambique, Guiné – Bissau, etc”, diz o realizador acerca do FESTin.

“Traga o homem amado ou a mulher amada em três dias”

“É uma comédia sobre um tema que é muito comum no Rio de Janeiro, as simpatias, por exemplo em qualquer parede lá tem – Traga o homem amado ou a mulher amada em três dias, mas são várias simpatias que eles fazem com galinha preta, com cartas, com búzios. A nossa é do limão e é totalmente diferente porque tem uma surpresa no final, mas basicamente é a nossa própria simpatia. O guião do filme existia em parte, já tinha uma história escrita, não existia ainda a surpresa no final. A história foi escrita pela Júlia Spadachini, são sete autores que publicam online. Cada dia da semana cada um escreve uma história. Eu já os conhecia há muito tempo e tenho até uma longa que foi baseada em histórias que eles escreveram. Queria fazer uma curta e estava à procura de uma história. Falei com a Júlia, que é uma grande amiga e disse “daí quais é que seriam mais interessantes para fazer?”. Sem financiamento e sem nada tentámos adequar um guião que pudéssemos fazer com pouco dinheiro, juntando um apoio dali, um apoio daqui. Tivemos apoio da Quanta, os actores todos aceitaram fazer sem cachet, todos muito profissionais, eu próprio que também sou actor participo, a Mónica Vilela, minha mulher, também participa como actriz”, fala Miguel de Oliveira sobre a curta “Simpatia do Limão”.

“A vida é cheia de partidas, cheia de opções”

“A vida é cheia de partidas, cheia de opções, nós muitas vezes tomamos uma decisão de um caminho mas entretanto surge uma tentação. Neste caso, seria a do homem mais novo, mais elegante, mas que quando ela vai à cartomante percebe que ele é elegante, é bonito para ele e para mais cem… Muitas vezes as distracções, as coisas novas que surgem no nosso trajecto têm de ser ponderadas, mas como é uma comédia, o tema é abordado de uma forma mais leve. Mas não havia um final que tivesse o elemento surpresa que fizesse o espectador rir… Tentámos fazer a mesma coisa, filmámos o final e depois exibimos para a equipa e achamos que não estava a resultar, o que acontece com muitos filmes. Neste caso alterámos o final e resultou muito melhor, conseguimos criar o elemento surpresa que procurávamos”, explica o realizador sobre a trama e concepção do final da curta.

“O realizador tem a visão de todos os actores, eu sei o que se passa na história toda, enquanto actor estou só num personagem”

“Estou a aventurar-me fazer as duas coisas porque gosto de fazer as duas, é um trabalho muito desafiante nesse sentido porque muitas vezes temos de trabalhar uma das vertentes muito antes, ou de preferência as duas. Como actor trabalhar muito antes que é que para quando chegar a hora de filmar já estar pronto. – Não posso chegar lá e preparar-me, já tenho de saber o que é e o que não é. O realizador tem a visão de todos os actores, eu sei o que se passa na história toda, enquanto actor estou só num personagem. Ao realizar tenho de saber a história que vou contar e como a conto, desenhar os planos, fazer um storyboard, tenho de me preparar de uma outra forma e abstrair uma coisa da outra. Quando estava a filmar como actor o director de fotografia assumiu a parte da câmara, então concentrei-me só como actor”, fala-nos sobre ambos os lados, de realizador e actor.

“Nova Iorque tem uma influência muito grande nas pessoas criativas. Parece que a criatividade está a 1000 à hora”

“Não tínhamos história não tínhamos nada, mas como as pessoas devem saber, Nova Iorque tem uma influência muito grande nas pessoas criativas, parece que a criatividade está a 1000 à hora. Já há muito tempo que eu queria fazer um filme lá e andando pela cidade deixámo-nos influenciar por várias coisas, até que chegámos ao Central Park e vimos um músico de jazz que estava lá a conversar. De imediato pensei «quero fazer um filme com ele». É óbvio que nós podemos ir a qualquer parte do mundo e influenciarmo-nos por várias coisas e isso nunca dar num filme, mas eu não tinha nada, tinha uma ideia de uma coisa que eu queria fazer. Então pus-me a pensar nisso, e eu quando começo a pensar numa coisa fico quase vinte e quatro horas focado em como a posso resolver, até conseguir. Houve então um dia em que decidi ir falar com ele. Fui lá, queria fazer um filme sobre esta personagem, mas na verdade não queria fazer um filme sobre ele, queria fazer um filme com ele. A única condição que ele pôs é que não podia sair daquele sítio onde ele tocava pois senão perderia o lugar, tínhamos que filmar outras coisas ou íamos antes de ele tocar ou quando ele saía do Central Park. Ele morava em Harlem, então nós apanhávamos o metro com ele e filmávamos aquilo que tínhamos planeado. Modifiquei o guião para o poder adaptar à situação e correu bem. Depois das filmagens apercebemo-nos que precisávamos de mais material sobre ele. Na segunda viagem a Nova Iorque, tinha a minha própria câmara, os amigos acabaram por se juntar e acabei por filmar com a câmara de outras pessoas. Acabámos na casa dele a beber café, a conversar sobre a vida, a ver o álbum de família dele e isso é que é a coisa maravilhosa da vida para onde uma ideia nos pode levar. Concordo que as ideias são as coisas mais valiosas do mundo. Enquanto filmávamos, um amigo dele perguntou o que é que estávamos a fazer, aquelas curiosidades dos americanos que vêm e perguntam, nós portugueses somos um pouco mais tímidos. Eu respondi que estamos a fazer um filme com o Ralph (o músico). Ele disse-nos que Ralph era seu amigo e que podia levar o filme porque a sua esposa trabalhava no Tribeca Films, produtora do Robert D’ Niro. O mais espantoso é que ele começa a pôr a mão no bolso a querer dar dinheiro para pagar o DVD. São estas as coisas espantosas que acontecem em Nova Iorque. Neste momento estamos a terminar, é uma curta (Benches).” Comenta sobre a sua experiência na cidade que nunca dorme.

A segunda curta de Miguel de Oliveira, “Simpatia do Limão”, uma produção brasileira, que esteve presente este ano na segunda edição do FESTin além de já ter estado presente em 17 festivais de cinema no Brasil, na altura da entrevista o realizador informou que iria estar também presente no Festival de Cinema de Cannes, na mostra de short film corner. A sua primeira curta-metragem, “Birth Control”, foi filmada em Lisboa numa tarde de Domingo. O “Benches” será o próximo e estão em preparação mais dois que serão filmados ainda este ano, uma longa-metragem “Banho – Maria” que vai ser filmado no Brasil, em Parati com a actriz Marília Pêra e com a Dira Paes, que vai ser um filme muito de actor, o guião foi escrito por Daniel Berlisnki, que é um autor brasileiro que trabalha agora na Tv Globo e o seguinte será ”Red Kiss”, uma curta-metragem escrita pelo realizador, cujas filmagens serão em Nova Iorque.



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