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Isabel Coixet: «O verdadeiro adeus esconde-se no doméstico»

A realizadora catalã fala sobre a adaptação do último livro de Michela Murgia, a contenção como linguagem e o que só se pode dizer num adeus.

Há uma cena em Três Vezes Adeus em que ninguém diz nada de importante. Antonio cozinha. Marta não come. É tudo. Isabel Coixet — a realizadora catalã que ao longo de trinta anos construiu um cinema em que a morte nunca pede licença para entrar — encontrou no último livro de Michela Murgia, Tre Ciotole, uma matéria que lhe é familiar: o quotidiano como única linguagem à altura das despedidas grandes. O filme, protagonizado por Alba Rohrwacher e Elio Germano, rodado em italiano, é uma das obras mais contidas e mais arrasadoras do seu percurso. Estreou no Festival de Toronto em 2025 e chega a Portugal distribuído pela Risi Film.

Falámos com Isabel Coixet sobre adaptação, traição, câmaras e alhos a queimar.

Em vários dos seus filmes, a morte raramente é tratada como tragédia — é quase sempre uma espécie de clareza. De onde vem essa recusa em dramatizar o fim?

Não é que recuse a tragédia — é que a tragédia me parece, quase sempre, uma pose. Quando alguém que amamos está a morrer, não há música de cordas. Há uma fatura da luz que continua a chegar, há alguém a perguntar se quer chá, há um momento absurdo em que nos rimos. A morte é o mais quotidiano que existe e insistimos em disfarçá-la de acontecimento. A mim interessa-me o que continua a acontecer à volta: o alho que se queima na frigideira enquanto pensamos noutra coisa. É aí que está a verdade, não no plano zenital com violinos.


Murgia era uma voz muito política, muito pública. O livro Tre Ciotole é o oposto: íntimo, quase sussurrado. Como enfrenta a responsabilidade de adaptar a obra mais pessoal de alguém que já não pode dizer se acertou?

Essa pergunta fiz-ma todas as manhãs durante as filmagens. E a resposta honesta é que não se pode enfrentar essa responsabilidade — convive-se com ela. Michela escreveu Tre Ciotole sabendo que seria um dos últimos livros que ia escrever, e isso atravessa cada página. Eu não podia pedir-lhe permissão para nada, por isso tive de confiar em algo mais desconfortável: em tê-la lido bem. Falei muito com pessoas que a amavam. Reli as suas crónicas, as suas entrevistas. Mas no fim há um momento em que tens de aceitar que a vais trair em alguma coisa, porque toda a adaptação é uma traição, e rezar — eu que não rezo — para que essa traição seja das honestas.


Rodou o filme em italiano, numa cidade que não é a sua. Isso gerou uma distância útil — ou foi um desafio que teve de superar?

As duas coisas ao mesmo tempo: distância útil e desafio. Falo e leio italiano há anos, traduzi do italiano, mas dirigir numa língua que não é a sua obriga-me a ouvir de outra maneira. Não posso confiar no ouvido automático, em saber se uma frase soa a verdade ou a teatro. Tens de olhar mais. E isso, paradoxalmente, fez-me realizar melhor — ou pelo menos de forma mais atenta. A cidade — não direi qual é, porque no filme também não se nomeia de todo — deu-me algo que Barcelona ou Madrid nunca me poderiam dar: o privilégio de não reconhecer os recantos, de não ter memórias pessoais em cada esquina. Isso liberta.


É conhecida por ser a própria operadora de câmara nos seus filmes. Em Três Vezes Adeus trabalhou pela primeira vez com Guido Michelotti como diretor de fotografia, em vez do seu colaborador habitual Jean-Claude Larrieu. O que mudou na sua relação com a câmara neste filme?

Com Jean-Claude temos uma taquigrafia tingida de amizade entranhável de trinta anos. Eu olho para ele e ele sabe. Com Guido tive de voltar a falar, a explicar, a procurar palavras para coisas que com Jean-Claude eram um gesto. Isso obriga-te a saber o que estás a fazer, porque tens de o dizer de forma mais explícita. Continuo a operar câmara em todos os planos — é algo de que preciso, a câmara nas minhas mãos é como segurar o rosto a um ator, não posso renunciar a isso —, mas com Guido aprendi a soltar mais. Ele tem uma luz mediterrânica, uma maneira de iluminar os interiores que não é nórdica nem francesa, e isso assentava bem a este filme. Jean-Claude teria feito outra coisa, também bela. Mas esta era esta.

Antonio refugia-se na cozinha e Marta perde o apetite. A comida faz o trabalho que o diálogo não faz. Foi difícil confiar nessa linguagem física, ou o guião já o tinha claro desde o princípio?

O guião tinha-o claro, sim, mas «tê-lo claro no guião» e «confiar nisso nas filmagens» são duas coisas distintas. Há sempre uma tentação, sobretudo quando vês os atores ali, de meter mais uma frase, de explicar. E há que resistir. Antonio cozinha porque não sabe o que dizer. Marta não come porque o seu corpo está a fazer outro trabalho, um trabalho silencioso e enorme. Se acrescento diálogo por cima, estrago tudo. A comida neste filme não é metáfora — é exatamente o que é: alguém a tentar alimentar alguém que se vai. Não há nada mais concreto do que isso, e nada mais difícil de filmar sem cair no sentimentalismo. Comer e não comer é político, é íntimo, é tudo.


Disse que este filme é «a sua paisagem pessoal». O que lhe ensinou Três Vezes Adeus sobre si mesma que os seus outros filmes não conseguiram?

Que continuo a ter medo, e que está bem tê-lo. Tenho muitos filmes e continua-se a começar cada rodagem com a sensação de não saber fazê-lo. Três Vezes Adeus ensinou-me, sobretudo, que a contenção não é frieza. Vim de alguns filmes em que talvez tivesse deixado entrar mais estridência do que queria, por razões de produção ou de cansaço. Aqui não podia. O material não o aguentava. E isso devolveu-me a algo que creio ser o meu verdadeiro território: o pequeno, o lateral, o que acontece quando ninguém está a olhar.


Há algo que só se pode dizer num adeus?

Sim. E curiosamente, quase nunca são as grandes palavras. É alguém que te diz «abriga-te» quando já sabem os dois que não se vão ver mais. É recomendar uma série para ver. É «não te esqueças de pagar o seguro do carro». O verdadeiro adeus esconde-se no doméstico, porque o solene nos intimida. E ainda bem.


Baseado no livro «Tre Ciotole» de Michela Murgia ·  Com Alba Rohrwacher e Elio Germano ·  Seleção Oficial TIFF 2025 ·  Filme de encerramento da 19.ª Festa do Cinema Italiano

Estreia nos cinemas portugueses a 10 de junho de 2026. Mais informações em risifilm.pt.



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