Do Tejo ao Atlântico: os restaurantes que valem a mesa em Portugal este maio
De Belém a Faro, passando pela Foz do Porto — são seis endereços que a cena gastronómica portuguesa não deixa ignorar.
Maio trouxe consigo um sopro de renovação à gastronomia portuguesa. Lisboa vive um momento de apetite criativo que vai além das modas, o Porto consolida o ano mais rico da sua história Michelin, e o Algarve desperta para uma época de verão onde o produto local e a vista para o mar voltam a ser os ingredientes mais procurados. Há aberturas que chegam com ambição, chefs que colhem o fruto de anos de trabalho e clássicos que se reinventam para não deixar de surpreender. De Norte a Sul, há seis razões para reservar mesa — e nenhuma delas deve ficar para amanhã.

Lisboa — à mesa
Na Doca de Belém, encostado ao rio que já viu partir e chegar gerações de portugueses, o Bonança chega à primavera de 2026 com uma carta renovada que cheira a maresia e a largo. Instalado na Associação Naval de Lisboa — o mais antigo clube náutico da Península Ibérica —, este restaurante sempre soube tirar partido da sua localização privilegiada. Mas com a nova proposta, que celebra a chegada dos dias longos com um menu fresco, clássico nas bases e contemporâneo nos detalhes, o Bonança eleva o patamar. O arroz malandro de carabineiro e limão (30€), um prato que joga com a suculência do marisco e a acidez cítrica de forma quase perfeita, é já um candidato a favorito da estação. A montra de peixe e marisco à entrada diz-nos muito sobre as intenções da casa — e o que ela promete, a cozinha cumpre. Rua de Belém, junto às Docas. Reserva recomendada ao fim de semana.
A poucos quilómetros, na Avenida da Liberdade, o JNcQUOI Fish afirma-se como um dos endereços mais sedutores desta temporada em Lisboa. A proposta é clara: peixe e marisco nacionais trabalhados com técnica e elegância, num espaço onde o design cuida dos olhos enquanto a cozinha trata do resto. O bitoque de atum com ovo a cavalo — uma releitura irreverente de um clássico popular — surpreende pela leveza e pelo rigor do produto. Já o arroz de lavagante nacional com coentros é um daqueles pratos que ficam na memória por toda a janela que abrem para o melhor do mar português. Preço médio: €€€. Reserva pelo site do grupo JNcQUOI.

Porto — novidades e clássicos revisitados
Se há um momento que ficará na história da gastronomia portuense, é o de março de 2026. Em duas noites distintas, dois restaurantes da Invicta — sob o mesmo tecto de cumplicidade familiar — receberam a sua primeira estrela Michelin. O In Diferente, na Foz do Douro, é liderado pela chef Angélica Salvador, natural do Paraná e a primeira brasileira a conquistar uma estrela Michelin na Europa. Aberto em 2018, o In Diferente nunca foi um restaurante fácil de encaixar numa categoria — e é precisamente isso que o torna imprescindível. A cozinha de Angélica dialoga com as técnicas e tradições da gastronomia portuguesa, mas nunca esquece as raízes sul-americanas da chef, num cruzamento que produz pratos de uma complexidade emocional rara. Os menus de degustação “Homenagem” e “In Diferente” são os dois caminhos para entrar neste universo. Espaço intimista, equipa de nove pessoas, reservas com semanas de antecedência. Um destino, não apenas um jantar.

Na mesma noite em que Angélica recebia o galardão, o marido e sócio Tiago Bonito via o seu Éon também ser distinguido com uma estrela. O menu “Lés a Lés” — disponível em nove ou catorze pratos — é uma viagem pelas memórias e sabores típicos de Portugal, construída com uma precisão técnica que não sufoca a emoção dos ingredientes. A história de como dois chefs, dois restaurantes e duas visões distintas do mesmo país chegaram ao topo da gastronomia portuguesa na mesma noite é, em si mesma, um prato a saborear devagar. O Éon é o sítio certo para o fazer. Reservas essenciais; o menu de degustação completo ronda os €€€.

Algarve — a mesa do verão
Em Lagos, a dez minutos da cidade, o resort Palmares Ocean Living & Golf acolhe desde início de maio o Preceito, o novo projecto do chef Alexandre Cabrita — Cozinheiro do Ano 2025 e filho gastronómico do Algarve mais autêntico. O Preceito sucede ao Al Sud, que havia conquistado uma estrela Michelin sob a direcção de Louis Anjos, mas Cabrita não veio para repetir fórmulas: a proposta é mais descontraída, mais convidativa ao regresso, sem abrir mão de uma cozinha de autor centrada no território algarvio e nos seus produtos. As lulas grelhadas com manteiga de cabra e polenta cítrica, o robalo com arroz de forno e camarão da costa, e o tártaro de vitela com enguia fumada são três razões para reservar — e a vista panorâmica para o Atlântico, sentada na esplanada do resort, é mais uma. Para a época alta, reserva com antecedência é praticamente obrigatória.

Em Faro, a cidade sempre viveu à sombra da vizinha Albufeira ou da sofisticação de Tavira e Portimão no que a gastronomia de autor diz respeito. Isso mudou em março de 2026, quando o Alameda do chef Rui Sequeira conquistou a primeira estrela Michelin da história da capital algarvia. A cozinha de Sequeira é um acto de fidelidade ao território: produtos locais, sazonalidade rigorosa e uma identidade gastronómica que bebe nas lendas e na memória da região. A carta concisa — completada por um menu de degustação inspirado nas tradições de Faro e uma opção vegetariana de igual elegância — não deixa espaço para divagações. Cada prato diz exactamente o que tem a dizer. Com o verão a aproximar-se, o Alameda torna-se uma das mesas mais procuradas do Algarve interior: reserve com semanas de antecedência e deixe que Faro o surpreenda. Preço médio: €€€.

A mesa portuguesa está, em 2026, mais rica, mais plural e mais difícil de ignorar do que nunca. De Belém à Foz do Douro, de Lagos a Faro, há chefs a trabalhar com uma ambição que não pede desculpa e uma técnica que não precisa de se afirmar em voz alta. Voltamos na próxima semana com mais endereços, mais histórias e mais razões para não comer em casa. Boas mesas.
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