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Sei Miguel

“Tenho um pacto muito sério com a música”.

O Largo da Trindade foi o local marcado para esta entrevista. À hora combinada, Sei Miguel faz-se acompanhar da trombonista Fala Mariam e pede-me para falarmos antes no seu “escritório”, situado em pleno Jardim do Príncipe Real. Pelo caminho nomeia alguns dos melhores spots de Lisboa, conta como os saudosos anos 70 de Paris o influenciaram na escolha da identidade musical e de São Paulo, onde se comem as melhores pizzas. Com um lugar de destaque na história do jazz em Portugal, o músico refere que o seu processo de criação se distingue pela composição do “verdadeiro jazz” e pela interacção com os músicos. Um caminho feito à parte do negócio da cultura que transformou a sociedade.

Na próxima quinta-feira, dia 18, o Quarteto Sei Miguel (com Fala Mariam, Pedro Gomes e César Burago) vai estrear um novo espectáculo no jardim do Museu do Chiado. O que se pode esperar do concerto?

A peça a apresentar no Museu do Chiado é uma esquisitice, são as fronteiras entre aquilo que pode ser considerado jazz contemporâneo e música contemporânea. É uma peça curiosa, trabalhada muito ao pormenor, cada músico tem imenso trabalho, muito trabalho escrito. Chama-se “Lenta Cruz de Agosto”, tem 45 minutos e brinca com várias partes que se solucionam em cruz e essa cruz existe no espaço físico do jardim. Há uma sobreposição da forma sonora e da forma do museu… é um perfeito disparate falar de forma quando se fala de som… mas enfim!

A par deste projecto tens também em mãos “O Carro de Fogo de Sei Miguel”. É um trabalho que difere muito do registo que tens apresentado ao longo dos anos?

O “Carro de Fogo de Sei Miguel” é uma excepção de todo o percurso que tenho feito. É um projecto que surgiu de um trabalho que fiz durante dois anos para apresentar uma orquestra e que foi deixado em águas de bacalhau. Fiquei frustrado, porque podia orquestrar, compor, dirigir músicos… uma data de coisas que nesta fase sozinho não consigo levar para a frente. O “Carro de Fogo” é uma consequência disso, é muito denso, tem montes de som, mas também há jazz. Não é o melhor trabalho para conhecer aquilo que eu faço.

Em 30 anos de carreira, conhecemos o Sei Miguel compositor, o director musical e o trompetista. Em qual destes registo te sentes mais à vontade?

Sou trompetista, sem dúvida nenhuma, e dirijo músicos há muitos anos. Sou também um estudioso da forma, sirvo-me da forma musical para dirigir músicos individual e colectivamente. Mas não me considero um compositor, nem acredito em composição no jazz. O último compositor foi John Cage, que é o começo da noite da história ocidental da música.

Podemos então dizer que te inspiraste no trabalho de Cage?

Não… ensinou-me imenso, mas não me posso inspirar no Cage. Ele trabalhava com a herança da música erudita ocidental, com gente academicamente treinada… aliás, há uma anedota sobre o Cage que diz muito. Um grande compositor europeu encontra-o e diz-lhe: “Não sei como é que vocês conseguem trabalhar nos Estados Unidos tão longe dos centros da tradição”. E o Cage responde: “E eu não sei como vocês conseguem trabalhar tão dentro da tradição”. Percebes? Não me posso inspirar no Cage.

Então em que te inspiras para produzir os teus trabalhos?

Não sei o que é isso. Os meus trabalhos surgem de outros trabalhos que já fiz. Ando enterrado nisto desde o final dos anos 70, início dos anos 80… se calhar aí fui inspirado, mas depois comecei a trabalhar e um trabalho leva a outro e outro.

Há um trabalho muito detalhado nos projectos que apresentas. Ainda assim há quem refira que o jazz também se faz de improvisação. Concordas?

As pessoas não sabem o que é improvisação, empregam a palavra como lhes apetece. O jazz permite escritas diferentes, mas não se fala disso. O jazz de hoje está numa situação imbecil, é visto como entertainment, um estilo in, tanto a nível nacional como internacional. O bom jazz não é visível, não é audível, há poucos festivais, poucas editoras interessadas… Em jazz há modulações especiais e chamar-lhe improvisação é pôr-lhe um carimbo e despachar a coisa.

Como é que surge o jazz na tua vida, assim como o “pocket trumpet” que te acompanha em todos os espectáculos? Tiveste algum tipo de formação?

A formação em jazz também não existe, e eu não tenho qualquer formação. Mas houve uma pessoa que me ensinou coisas fundamentais sobre música. E depois como trabalho com muitos músicos estou sempre a aprender. O trompete não sei como surge… foi o inferno! Cheguei a tocar várias percussões, saxofone, clarinete, guitarra, sou ex-baixista dos Moeda Noise… mas com o trompete há uma relação diferente.

O crítico Dan Warburton reconhece que és “o segredo mais bem guardado da nova música portuguesa”, no entanto poucos compreendem o teu estilo. Podemos dizer que a tua linguagem é tão personalizada que nem toda a gente a entende?

Já estou habituado a isso, já nem ligo. Há excepções, mas eu não trabalho para as excepções e as excepções não trabalham para mim. Acho que a sociedade está muita confusa, há uma mistura enorme das coisas que já foi boa, mas hoje não é. O negócio da cultura é o meu ódio de estimação. Toda a gente escreve, toda a gente toca… é um lixo imenso. Há coisas que deviam ser actividades íntimas de uma pessoa, deviam ser hobbies. No meu caso a música é um pacto muito sério, uma coisa muito mórbida. Tudo o que faço está ligado a isto, são décadas na música.

Já lançaste onze discos. Sentes-te realizado profissionalmente?

Onze?! Meu deus… Se quiseres ponho-te uma estrelinha naqueles que valem a pena, que são os três últimos, o que é bom sinal! O “Esfíngico Suite for a Jazz Colombo” é um bom trabalho, um disco muito equilibrado, uma data de milagres… Todo o disco é uma construção temática que segue um tempo sucessivo. Também recomendo que ouças os “The Tone Gardens” que são os jardins sonoros. O último disco chama-se “Turbina Anthem” e é com Pedro Gomes, um músico muito impressionante. É outra coisa à parte só com guitarra e trompete.

O que é que ainda te falta fazer no mundo do jazz?

Escapar…escapar disto, escapar a esta realidade, a isto que nos serve.



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