“SETE PALMOS DE TERRA”

A vida a “Sete Palmos de Terra”

Ou como curar uma depressão em cinco temporadas

Maior ironia não haverá do que usar o pretexto da morte para falar sobre a vida: ou, sem mais demoras, falar sobre a vida de uma família que gere uma agência funerária. Alan Ball apresenta-nos a família Fisher numa altura bem complicada, no dia da morte do pai. Ora, isso é lá boa altura para conhecer alguém. Ainda por cima este conjunto de indivíduos: uma mãe ausente, um filho que passa mais tempo com os mortos do que com os vivos, uma rapariga adolescente que conduz um carro funerário verde-limão e um filho primogénito que se escapou dessa vida assim que pôde.

Mas, posto isto, começa a ser complicado perceber sobre o que é “Sete Palmos de Terra”. Em primeira instância, é a medida de profundidade a que se enterra um caixão. É a medição física que separa a vida ou a morte ou outras metáforas que melhor vos sirvam; é, isso sim, um dos pedaços mais bem concebidos desse meio de comunicação que é a televisão (chamar-lhe pequeno ecrã é injusto, no caso que se exemplifica).

Por partes: não há memória de genérico mais adequado. Misterioso, muito misterioso, mas bastante revelador. Depois disso há um morte de um transeunte não raras vezes anónimo. E depois vêm os Fisher, com os seus quotidianos que giram em torno do negócio de família. Os Fisher são a chave do monumento: não são fantoches, não estão ali para significar nada, são pessoas que podiam morar na porta ao lado (caso sejam vizinhos do coveiro). O grande feito de “Sete Palmos de Terra” é precisamente esse: não entra por círculos de significações mitológicas e as personagens não andam ali para servir o propósito de um plot que enche as páginas redigidas pelo argumento. Os Fisher estão vivos e respiram. Quase ao
nosso lado enquanto a série é transmitida.

O que há pelo meio é a vida. A vida que emana num meio eclipsado pela morte. Enquanto Dave anda em combate com os seus demónios pessoais e tenta manter o equilíbrio familiar, Ruth procura fazer o luto à sua maneira contida pelo método da substituição. Enquanto Nate tenta lidar com o regresso a casa, Claire anda nas experiências adolescentes na bagageira da carrinha funerária.

Interessa dizer que o contacto com a morte impulsiona essa repulsa com a vida e que as personagens vão lidando com o sentimento de formas pouco ortodoxas. Mas também a moral não é coisa que tenha espaço nesta série, porque quando se está de luto esse não é assunto que valha. Vale quase o carpe diem, auxiliado de uma banda sonora desconcertante (Radiohead ou Arcade Fire à cabeça).

Posto isto, como é que há material para sessenta e três horas de televisão? Tentaria responder-vos, caso soubesse. Por mim pareceram pouco mais de um par de horas: com material tão sincero, não há como escapar. Talvez pela repulsa de algo tão cru como a natureza humana servida em molho tártaro; mas também aí os eufemismos inconscientes vão dando resposta às necessidades da psique movida a pó-de-estrela.

É um cliché mencionar isso, mas o final é talvez o maior momento televisivo alguma vez posto em marcha. Nunca a voz da Sia tinha parecido tão adequada. E novamente se rodeiam as questões da morte e da vida. Cada um tira as suas conclusões, mas aqueles dez minutos finais são coisa de curar uma depressão; não se acautelem os terapeutas.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This