paula_cortes_inside

Slam LX #3

Tinha poemas na alma mas não era bem slam a sua voz. Subiu ao palco e ganhou a 2ª edição do Slam LX. Paula Cortes na entrevista que é também um convite para esta quinta-feira, 22 de Dezembro, no Musicbox.

Acho o conceito de slam promissor e abrangente. Apesar de nem todos os poemas se enquadrarem neste estilo, há um trabalho que pode e deve ser feito por parte daqueles que vão declamar, quer quanto à expressividade, quer no que se refere à teatralidade.

As noites de Poetry Slam no Musicbox vão já na terceira edição. Esta quinta-feira, 22 de Dezembro, às 22 horas, o Slam LX #3 traz como convidados Eduardo Madeira e Leandro Morgado.

Quem é a Paula Cortes, vencedora do Slam LX #2?

Tenho 19 anos, vivo no Barreiro e sou estudante de Psicologia.

Como soubeste do Slam LX no Musicbox e o que te levou a participar?

Tive conhecimento do Slam Lx no Musicbox por entre pesquisas na Internet acerca de eventos associados à poesia. O que me levou lá foi, primeiramente, o enorme fascínio que tenho pelas artes e letras, particularmente pela poesia. Depois, achei este encontro muito interessante. Afinal, todas aquelas pessoas moveram-se pelo mesmo sentimento de partilha.

Inicialmente fiquei um tanto renitente em participar por vários motivos. Primeiro, na minha perspectiva, há uma diferença abismal entre declamar poemas de poetas dos quais nós gostamos e declamar poemas feitos por nós. É estranho estarmos ali a dizer as nossas palavras, é como se com cada palavra que fosse dita fossem caindo as vestes. A determinada altura estamos ali a descoberto… Com vários olhos em cima de nós e todos são capazes de trespassarmo-nos, verem-nos por dentro. Surgimos nus quando vestimos a roupagem da poesia, é um facto.

Um outro motivo era o facto de não enquadrar a minha poesia no conceito de slam. Há poemas que ao repousarmos os olhos sobre eles quase tomam conta da nossa voz e pedem-nos mesmo para serem declamados. Outros, pedem para navegarmos com eles no papel, em silêncio.

Ainda assim, admiro muito o espírito de partilha genuína e essa foi talvez a fossa motriz para que participasse neste evento.

Já conhecias esta nova tendência do Poetry slam que se tem espalhado por Lisboa e não só?

Apercebi-me desta tendência há relativamente pouco tempo, admito. Mas embarco, envolvo-me e assisto ao seu crescer com uma enorme alegria.

Foi a primeira vez que fizeste Slam? És uma slammer? Ou adaptaste para experimentar este género?

A única vez que tinha palavreado em público foi com um poema de Alberto Caeiro e adorei a experiência.

Acho o conceito de slam promissor e abrangente. Apesar de nem todos os poemas se enquadrarem neste estilo, há um trabalho que pode e deve ser feito por parte daqueles que vão declamar, quer quanto à expressividade, quer no que se refere à teatralidade. No fundo, fornecer asas para que o poema possa esvoaçar por todos os ouvintes atentos é um acto sublime e ao mesmo tempo fortemente apelativo.

Como vês o género Poetry Slam?

Gostava que o Slam não fosse confundido como um mero modismo social, nem fosse encarado como um meio de competitividade barata de arte, mas antes como uma oportunidade de revelação no palco da nossa capacidade criativa face às exigências da nossa complexa modernidade social e cultural. O poetry slam é um movimento que vem de manso, quase silencioso, mas que intrinsecamente tem muita força, inclusivamente subversiva face aos cânones estabelecidos, pelo que dele faço apologia e dele quer usar e abusar. É uma forma de contagiar várias formas de pensar, estar e ser, sempre com criatividade.

Amante das palavras como se comprovou e comprova ao ler os teus textos no blog e afins, quais são para ti quais as características da palavra dita?

Para mim, há quase que como um axioma: desassossegar, inquietar e fazer reflectir… Valorizo similarmente a simplicidade e a sensibilidade como critérios. E ainda, a despersonalização do eu – do ego – enquanto Paula. Gosto de tentar olhar as coisas pelos olhos da humanidade para não me perder em visões reducionistas para rasgar o campo de visão.

Paula Cortes

Slammar especialmente no Musicbox como foi, em particular lá em cima no palco? E no geral como foi, viveste a noite de Slam LX?

Estar em cima do palco foi estranho, sobretudo tive de associar o meu rosto aos meus poemas. Ora, eu não quero ser a sua identidade. Os poemas são quase como filhos, a determinada altura ganham uma independência e uma identidade próprias. Uma vez deitados ao mundo, a ele pertencem e deixam, por isso, de serem meus. Quanto muito, serei, apenas e só, a sua parturiente. Não sou apreciadora da ideia de quem fez o quê, de quem é o seu autor e proprietário, porquanto isso não é o primordial. “Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: O valor está ali, nos meus versos.” (Alberto Caeiro).

Foi uma noite bonita, como de resto são todas as noites (de Slam) e uma experiência que pretendo repetir sempre que ocorrer oportunidade para tal.

Aconselho todos aqueles que têm os poemas fechados na gaveta, cerrados em si mesmos, a retirá-los do bolor e a revelá-los, sem pudor, ao mundo cada vez mais carente da arte poética.

Para quem não esteve lá, qual foi a mensagem que levaste àquele palco?

Tentei levar temáticas transversais que envolvessem os ouvintes. De um modo geral, abordei pontos ligados ao existencialismo, ao limiar da normalidade / anormalidade, à liberdade, à dor de pensar, etc. Acho que propus temas de reflexão e deixei questões em aberto, tendo por objectivo contagiar as demais pessoas a pensar(em-se) mais além.

Palavra dita, escrita, poética… como e onde está a palavra na tua vida.

Limito-me a dar continuidade à vida para que ela aconteça e eu nela possa participar de forma cúmplice e criativa.

“É o insatisfeito, como era natural, que junta alguma coisa à realidade; desde que o homem se encontre bem na vida, a força que o levava a criar, seja qual for o domínio, afrouxa e estaca. O homem não nasce para trabalhar, nasce para criar, para ser o tal poeta à solta…” (Agostinho da Silva)

Fotografias por Ana Jerónimo.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This