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Tens p’rá troca?

São objectos de culto para miúdos e para muitos graúdos. Em mês de Mundial de Futebol recuperamos a magia de uma caderneta totalmente preenchida e a excitação de ir à papelaria comprar aquela carteira que vai trazer o cromo mais difícil da colecção.

Era a frase mais ouvida nos pátios das escolas por alturas dos mundiais ou europeus de futebol – ou seja, exactamente por esta altura do ano – ou quando nós estávamos a fazer outra qualquer caderneta de cromos. E havia tantas, a das notas de Portugal – a do Fernando Pessoa era a de cem ou de quinhentos escudos? É aterrador como esquecemos coisas que fizeram parte do nosso dia-a-dia durante tanto tempo -, as das séries de televisão (lembro-me de uma do “Era Uma Vez no Espaço”, quando ainda se tinha de pôr cola nos cromos), de carros, e ainda havia os cromos do Bollycao, esses sem caderneta, que nos ensinavam a escrever tou e mereciam a reprovação dos adultos.

Contudo, as que ficaram mais na memória foram mesmo as de futebol: México ’86 (todos os jogadores de bigode, os portugueses que fizeram greve em Saltillo e os soviéticos que ainda eram a ameaça) e Itália ’90 (o primeiro de muitos em que a participação de Portugal foi apenas uma miragem). E eu nem gostava assim tanto de futebol, jogava mal (sempre joguei muito mal, eterno defesa raçudo) e não gostava de ver futebol na televisão, como o meu pai, o meu tio e os meus amigos. Isso veio depois, quando entrei pela primeira vez no antigo Estádio da Luz, de boca aberta, espantado pela grandiosidade. Confesso que nenhuma outra catedral (e já vi umas quantas) me cortou assim a respiração, mas isso são contas de outro rosário.

Escrevia sobre os cromos, e quem se esquece do cheiro dos cromos? Da sensação de ir à papelaria comprar mais uma carteirinha de cromos – aproveitava sempre que o meu pai ia comprar o seu SG Lights – e ter a certeza que era daquela que ia sair o cromo que faltava? No entanto, e assim aprendemos o significado da palavra desilusão, saiam-nos o mais das vezes cromos repetidos. E eram sempre os mesmos. E lá íamos nós para o pátio da escola, interpelar os outros miúdos “Tens p’rá troca?”, e puxávamos da nossa folhinha: 4, 8, 15, 16, 23, 42 (não tinha nada a ver com o “Lost”, eram os cromos que procurávamos), e havia sempre aqueles que ninguém tinha, nunca ninguém tinha, só um ou outro felizardo que os havia colado na caderneta, inacessíveis. Eram os cromos mais difíceis da caderneta (é engraçado como essa expressão tomou outro uso, nunca deixando de estar nas nossas vidas).

Ai, a Panini, os gajos eram malandros, as cadernetas eram baratinhas, para nos aliciar, e de certeza que faziam menos de uns cromos e mais de outros, só para nos fazer comprar mais e mais carteirinhas. “Tens p’rá troca?”, mas já conhecíamos os repetidos dos outros de cor e salteado, não havia nada que nos interessasse. Não acabei a do México ’86 (ainda a tenho lá por casa, a capa rasgada) e só consegui acabar a do Itália ’90 (esta já não tem capa), porque o meu pai conseguiu arranjar os cromos junto à Estação do Rossio. Não sei se ainda estão por lá, os homens que viviam de trocar, comprar e vender cromos, mas antigamente era a maneira mais eficaz de completar uma caderneta.

Terei ainda feito as cadernetas do Suécia ’92 e dos EUA ’94? A da Suécia, talvez, a dos EUA não, foi aí que parei, já era demasiado crescido para essas coisas. Anos depois, voltei a fazer uma caderneta, a do Japão e Coreia 2002, e o que em tempos era todo o nosso mundo, era agora apenas uma divagação nostálgica. Mais vale recordar esses momentos do que tentar reencená-los. E esse mundial foi de má memória e lembra demasiado este. Que hipóteses é que temos com esta convocatória (que é, mais jogador menos jogador, a possível) e com este seleccionador, quando até Mourinho – que teima em ter sempre razão – diz que não ganhamos nem com o Ronaldo a 1000 a hora (um jogador não faz uma equipa, assim como uma andorinha não faz a Primavera, de resto, Ronaldo mais rapidamente desfaz a equipa, tal a sofreguidão com que joga na Selecção – como se o peso da nação lhe recaísse sobre os ombros – e com que os outros lhe tentam passar a bola)?

No entanto, a geração que nasceu no fim dos anos ’70 e princípio dos anos ’80, que tem agora trinta anos (para baixo ou para cima) gosta de rebuscar estas memórias de infância, veja-se o vídeo do “São Sete Voltas P’rá Muralha Cair” de Tiago Guillul, que mistura caderneta do México ’86, Subutteo e SunQuick. (e o Joaquim Albergaria, cuja barba é uma vénia aos jogadores do México ’86, que os de agora são todos metro-sexuais – os jogadores de futebol pararam nesta fase e nunca mais de lá saíram), que até originou uma campanha que quer fazer desta música o hino oficial da Selecção neste mundial. Ou o programa de rádio de Nuno Markl, curiosamente intitulado “Caderneta de Cromos”, que se dedica a rememorar as Peta Zetas, o Nestum, as pastilhas Gorila, o “Rocky IV”, “Os Três Moscãoteiros” entre outras relíquias do tempo. Por este andar, ainda vamos ter a revanche das cassetes (para ficarmos pelos francesismos).

Esta nostalgia toda tem um aspecto doentio também, parece que vivemos dentro de uma cápsula do tempo dos anos ’80, na música, na moda, nos gostos. Quantas mais festas que passam o «Blue Monday», o «Love Will Tear Us Apart» e o «Just Can’t Get Enough» (a gente consegue, acreditem, já conseguiu vai para uns cinco anos) teremos de sofrer ainda?

Quanto comecei a escrever este texto, apostei comigo mesmo (que é uma aposta um bocado escusada, visto que ganho sempre, e perco sempre também) que encontrava pelo Facebook (o que é que não se encontra por lá?) um grupo de pessoas que estivesse a coleccionar cromos deste mundial. Encontrei dois: Cromos do Mundial e Troca de Cromos Panini World Cup 2010. Isto é gente graúda, pais de filhos alguns, que se diverte a trocar cromos, o Facebook como o novo pátio da escola, a mesma ânsia pelos cromos mais difíceis da caderneta. Não deixa de ser enternecedor. “Tens p’rá troca?”



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