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The National @ Sagres Campo Pequeno – 6 e 7 de Outubro

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Texto por Miguel Barba e fotografia – da primeira noite – por Graziela Costa.

A boa nova fez-se saber algumas horas antes do concerto. Os The National não iriam repetir canções nos dois concertos que iam dar em Lisboa, no Campo Pequeno. Quem já tinha entrada garantida para os dois concertos ficou radiante e outros, que não tinha certamente se apressaram a fazê-lo, mesmo tendo de ficar nas exíguas bancadas do Campo Pequeno. Mas o “sacrifício” valeria mesmo muito, muito, muito a pena. Foram duas noites inesquecíveis no Sagres Campo Pequeno, em primeiro lugar porque foram 60 (!) canções em duas noites e em segundo porque a banda de Matt Berninger, Aaron e Bryce Dessner e Bryan e Scott Devendorf estão a atravessar um momento de forma incrível, a disfrutando verdadeiramente do palco. Quem ganha com isto, poderão perguntar? Nós, certamente!!!

Mas comecemos pelo início. Em ambas as noites tivemos a oportunidade de escutar Bartees Strange e a sua banda. Bartees é um verdadeiro fã confesso de The National e é autor de alguns covers bem interessantes da banda, pelo que não foi uma grande surpresa quando arrancou o seu slot de 45 minutos com «About Today», potencialmente irreconhecível para alguns dos presentes, mas não menos interessante na leitura que faz da canção original. Se o toque que de melancolia que nalgumas canções vai claramente beber à obra do The National, há depois também uma vertente mais soalheira, e onde parece que Bartees Strange se pretende fixar (pelo menos durante um futuro próximo), mas em que é claro que ainda há uma procura por uma identidade clara. A fechar, houve ainda oportunidade de apresentar uma nova canção, ainda por editar, «Seventeen».

Com 10 álbuns de originais editados e alguns EP’s repletos daquele bombons-bons, havia muito por onde escolher. Os parágrafos seguintes irão procurar descrever, dentro do possível o que se passou naquela sala. Os momentos emocionais que se viveram. Aquela sensação de alegria e tristeza a coexistirem no mesmo espaço-tempo. Aqueles momentos em que sentimos um nó na garganta e damos por nós a fazer força para não verter umas lágrimas. Aqueles momentos em que somos tomados por uma alegria imensa que nos leva a cantar bem cá do fundo, enquanto pulamos incessantemente.

Cabe a “First Two Pages of Frankenstein” a honras de abertura; «Once Upon a Poolside», «Tropic Morning News» e «New Order T-Shirt», podem ser recentes mas são recebidas como velhas conhecidas. Na nossa cabeça ainda se trauteiam os versos finais, “I flicker through / I carry them with me like drugs in a pocket / You in a Kentucky aquarium / Talking to a shark in a corner”, quando se «Squalor Victoria», do “Boxer” se faz ouvir. É uma imensa descarga de adrenalina. A coisa ainda começa contida, “Underline everything, I’m a professional / In my beloved white shirt” mas evolui para um estado de caos e anarquia incrível em que se canta/grita em uníssono “This isn’t working, you, my middlebrow fuck-up”. Mas está a resultar, oh se está…

Seguem-se «Bloodbuzz Ohio», dedicada a Bartees, e cantada com uma intensidade soberba. Depois há «I Need My Girl» e «Apartment Story», sempre elegante e a cerebral e obsessiva, «Brainy». Em palco, Matt Berninger, oferece a alma e o coração com cada palavra, os irmãos Dessner entregam de forma exímia, Scott Devendorf, parece que não está lá mas é imprescindível e Bryan Devendorf faz-nos constantemente pensar de que são aqueles pulsos feitos.

«Lemonworld» e «Sorrow» são belas mas consomem-nos, entre a procura por algo melhor e um sentimento de tristeza instalado, que teima em não nos abandonar. Em «Looking for Astronauts», lembram-nos do que ali aconteceu no dia 12 de Dezembro de 2019. Foi o último concerto dos The National, antes da pandemia. Tinha também sido, até àquele momento, a última vez que tinham tocado a canção, antes de falarem, em directo com uma astronauta norte-americana, que estava a bordo da Estação Espacial Internacional, na órbita da Terra.

«Lit Up» e «Abel» incendeiam. «Runaway» e «Conversation 16» giram em torno de relações, de natureza distinta e em momentos diferentes. De certa forma, um reflexo do que se vivencia ali. Canções incríveis, mas reflexos de momentos bem distintos da banda, a coexistirem a unirem os milhares ali presentes. Antes de visitar o “recém-nascido”, “Laugh Track”, há tempo de visitar o também novinho, «Alien». Temos depois a honra de escutar «Crumble», pela primeira vez ao vivo, ao que se segue a canção título.

«Mistaken for Strangers» e «Day I Die» são intensas e embora tenham anos a separá-las, parece existir um fio condutor entre elas, em que as relações amorosas e entre as pessoas são a peça central. “I Am Easy to Find” é um álbum muito peculiar na discografia dos The National. As vozes femininas que o atravessam são uma das suas principais linhas orientadoras e por essa a razão as suas canções tendem a ficar de fora dos alinhamentos mais recentes. «Light Years» é uma das excepções.

«Pink Rabbits» é qualquer coisa. Uma canção estupenda, na letra, na sua construção, sempre com um equilíbrio em todos os seus momentos. Ora brilham os metais, ora são as guitarras, ora calha às teclas. «England» soou, soa e soará sempre majestosa e «Fake Empire» fala por si. 

No encore, e um pouco perdida surge «Weird Goodbyes», mas acaba por encontrar o seu espaço e encaixar no grande esquema das coisas que é este fantástico alinhamento. «Mr. November» é a explosão que se conhece e «Space Invader» um novo e interessante objecto para explorar. E sobre o final deste primeiro dia falaremos no derradeiro parágrafo. Parecia que estávamos a experienciar uma mini-residência dos The National que estava agora a meio, com a segunda parte a seguir dentro de algumas horas, naquele mesmo sítio.

Não estávamos de todo preparados para o que viria no dia seguinte. O início foi uma verdadeira entrada a pés juntos. Daquelas que ninguém estava à espera: «Sea of Love». Uma verdadeira finta, porque se seguiu a belíssima «Eucalyptus», que era a principal aposta para abrir o concerto. “You should take it, ‘cause I’m not gonna take it / You should take it, I’m only gonna break it”.

Audição após audição, “Laugh Track” vai-se dando a descobrir. A começar pela própria capa, que é uma versão mais próxima da fotografia original que foi utilizada para “First Two Pages of Frankenstein”. «Deep End (Paul’s in Pieces)» é a canção que primeiro surge em sua representação.

«I Should Live in Salt», «Demons», «Don’t Swallow the Cap» e «Afraid of Everyone» conduzem-nos por uma sinuosa e intensa viagem por “Trouble Will Find Me”. No final desta sequência sentimo-nos atordoados, dormentes. Talvez por isso mesmo a escolha da «Slow Show», não tenha sido inocente, tal como, «The System Only Dreams in Total Darkness». Dois momentos de descompressão. Mas se até aqui as escolhas já estavam interessantes, deste momento para a frente, o que aconteceu ficará para sempre na memória de quem lá esteve. Um dos melhores alinhamentos alguma vez oferecidos pelos The National, na perspectiva de um fã incondicional.

Começamos com a corda ao pescoço: «Guilty Party» e avançamos para um ninho de vespas, «Wasp Nest». Sim, os The National a tocarem “Cherry Tree” em 2023. Isto é amor, minhas senhoras e meus senhores, é amor digo-vos. «Humiliation» é-nos servida com uma transição directa para «Murder Me Rachael», de “Sad Songs For Dirty Lovers”. Perguntamo-nos se isto está realmente a acontecer. E está, está mesmo! «Guest Room» contínua a soar perfeita. 

«Slipping Husband» leva-nos de novo ao “Sad Songs”, como que para nos beliscar. Há a intensa «Available» e a provocadora «Start a War».

«Grease in Your Hair», «Turn Off the House» e «Smoke Detector» (que canção incrível!) trazem-nos de volta ao presente. Mas eis que, sem qualquer aviso, Berninger e companhia se lançam a «Santa Clara». Estamos no céu. «Rylan» é a outra canção de “I Am Easy to Find” que vai passando pelos pingos da chuva e que foi adicionada ao alinhamento no momento (que luxo!), e «Hornets» é uma canção sobre o presente e o futuro e a mudança de Berninger para o Connecticut.

«Carin at the Liquor Store» é uma bela e singela declaração de amor, “A foregone conclusion”. Já «Tour Manager» é dedicada à equipa que acompanhou a banda ao longo da tour. Não há aqui escolha. «Graceless» tem uma capacidade ímpar de nos manter num periclitante equilíbrio e «About Today» puxa-nos o tapete, fazendo-nos cair desapmarados. Como sempre.

A delicadeza agridoce de «Daughters of the Soho Riots» abre o encore, que prossegue ao som de «Cherry Tree» e do hino épico que é «Terrible Love», com Matt Berninger a fazer mais uma das suas habituais e decididas investidas pelo público. Quase, quase a fechar, houve ainda oportunidade para escutar «Send for Me» que nos deixa com os versos finais a ecoarem na nossa cabeça… “Send for me whenever, wherever”. Sim.

Houve uma canção que foi cantada em ambas as noites, e à imagem do que vem acontecendo nos concertos da banda. «Vanderlyle Crybaby Geeks» foi cantada, em uníssono e à capela, por todos execpto a banda. As noites foram únicas, excepcionais e verdadeiramente inesquecíveis, mas no final há coisas que nunca mudam, e é possível encontrar um bom conforto nisso também.



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