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A Febre @ Teatro Aberto

O Mundo está podre e a culpa é nossa.

Estreou no dia 8 de Setembro no Teatro Aberto a peça “A Febre”, o primeiro monólogo da carreira de João Reis. Este espectáculo tem o carimbo da companhia Teatro Oficina e foi apresentado pela primeira vez no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães em Abril deste ano. “A Febre” conta com encenação de Marcos Barbosa e é uma adaptação do texto de Wallace Shawn tendo sido traduzido por Jacinto Lucas Pires. O monólogo estará em cena de 8 a 13 e de 16 a 20 de Setembro na Sala Vermelha.

Nos últimos tempos têm sido apresentados vários monólogos mas para ser sincero não me lembro do último a que assisti (mas lembro-me do primeiro que foi “Sexo, Drogas e Rock N’Roll” com Diogo Infante). Estar sozinho num palco sem a cumplicidade de colegas é provavelmente um dos exercícios mais difíceis em Teatro. José Reis aceitou esse desafio e lida com a dificuldade da melhor forma, usufruindo da oportunidade de estar sozinho, tornando o palco no seu confortável refúgio.

“A Febre” é uma peça dramática. Sim, dramática porque a situação apresentada é a de um homem em estado febril e alucinado, fechado num quarto de hotel num país em guerra. Este homem pertence à classe média de uma cidade cosmopolita mas tem um certo fascínio pelos países revolucionários. Foi num desses países que ficou isolado num quarto de hotel. Foi num desses países que os seus devaneios percorrem a sua memória, preenchida com episódios que relatam uma dificuldade e uma luta entre o bem e o mal, entre o que está errado e aquilo que está certo.

Durante os 90 minutos de espectáculo somos apresentados à dicotomia que povoa o seu cérebro. Se por um lado ele gosta das coisas boas da vida, de celebrar o facto de estar vivo e de achar que merece ter os bens que possui, por outro lado ele tem a consciência que existem pessoas com necessidades no mundo. Vive numa mentira? De que forma é que a consegue combater? Existirá meio-termo? Só no estado febril em que se encontra é que consegue exorcizar todos estes tormentos que têm feito parte da sua vida.

No livrete de apresentação do espectáculo, Marcos Barbosa, director artístico do Teatro Oficina, opina sobre o que o público deverá fazer depois destas palavras. “(…) como podemos nós, público, continuar a ignorar a cadeia interminável de acções em que estamos inseridos, em que cada gesto feito tem consequência na vida de toda a comunidade, no frágil equilíbrio de todo o universo?”, escreve.

Sem dúvida que o texto de Wallace Shawn, traduzido de uma forma extremamente fluida e muito pouco maçadora por Jacinto Lucas Pires, tem a característica de colocar questões e não de as responder (como praticamente toda a arte) mas a interpretação de João Reis é a grande mais-valia deste espectáculo, encarnando em si todas as dúvidas do mundo capitalista, explodindo de ansiedade e de insanidade.

Um espectáculo inquietante e muito bem conseguido que merece uma visita ao Teatro Aberto.



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