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Sagrada Família

A fabulosa estreia de Catarina Requeijo com texto de Jacinto Lucas Pires, na Culturgest, de 16 a 25 de Setembro de 2010 e nos dias 8 e 9 de Outubro, no Teatro Viriato, em Viseu.

Vota em M.E.R.D.A.! Vota em DEUS! Nós somos todos sinónimos, somos merda, mas merda divina! Desliga a TV, desliga o mundo, acredita em ti, acredita que tudo pode mudar, ajuda a criar um mundo novo! “Vota em nós”! Vota em TI, vota em DEUS!”… Deus sim, Deus não?

Juntos, se acreditares “nisto”, ganharemos “aquilo”, um mundo novo! Viva a Micro Empresa Religiosa De Amor (M.E.R.D.A.)!

“Não há duas sem três” diz o ditado e assim foi, fiz-lhe justiça. Fui três vezes à Culturgest, em procissão, ver este espectáculo, cheia de fé e de luz porque acreditei no texto, na produção, no elenco e na encenação… e não, não foi um milagre, apesar de ter sido uma estreia.

Foi tudo muito simples, como tudo o que é bom. Francisco Frazão convida Jacinto Lucas Pires para escrever uma peça e Catarina Requeijo para a encenar. Ele acredita que ela tem o bichinho e o talento de encenar e que Jacinto tem um sentido divino na sua escrita. E assim foi, ele acreditou, e assim aconteceu, como nos milagres.

Jacinto Lucas Pires aceitou partilhar a sua escrita à medida do que sentia e vivenciava nos ensaios. Deste modo, acabou por a reescrever duas vezes, adaptando-a aos desabafos e críticas de quem a experimentava e a vestia, Catarina Requeijo e os actores convidados num workshop de leitura e interpretação da peça: Tonan Quito, Tiago Rodrigues, Miguel Fragata e Joana Bárcia, sempre com a presença e ajuda de Francisco Frazão. Dois dias depois, leu-se de novo o texto e discutiu-se a peça com Pedro Gil, José Tolentino de Mendonça, Duarte Guimarães, Claúdia Gaiolas. Depois deste cuidado processo criativo, Catarina escolheu os actores para o elenco final, actores escolhidos a dedo, com o dedo de Deus, claro.

Só assim se explica a excelência deste elenco – Duarte Guimarães, Joana Bárcia, Miguel Fragata, Anabela Almeida e Ivo Alexandre.

O espectáculo convida-nos a uma profunda reflexão sobre a forma de viver neste mundo, sobre o que se espera da vida e do mundo e em especial, naquilo em que se acredita. Enche a alma num formato de tragédia mas belo e cheio de esperança.

Acima de tudo obriga-nos a questionar a espiritualidade dos dias de hoje. É uma peça que trata a espiritualidade como o sumo da Vida (ou não), concretizando e sugerindo uma nova forma de abraçar a vida e de viver uma nova religião, a religião do amor onde todos somos iguais e divinos.

Apesar de transmitir uma mensagem de esperança e de fé na vida e no futuro do mundo, ao mesmo tempo, sente-se também nas entrelinhas do texto e no timbre da encenação deste espectáculo, uma dose de ironia em relação à religião, à nossa percepção da religião, à nossa descrença nos dias de hoje e à falta de espiritualidade das pessoas. É que, se por um lado se apela ao mudar de vida, à crença na Humanidade e à espiritualidade, isso é feito com muito humor e algum sarcasmo, quase uma piscadela de olho do género: acreditar sim, mas é acreditar na MERDA.

Fica no ar, como trabalho de casa para quem sai daquela sala de teatro se é possível nós, humanos, ainda acreditarmos. Acreditar, para poder mudar o mundo, será possível?

“Sagrada Família” retrata a solução criativa de uma família “entre empregos” que decide criar uma micro-empresa de serviços religiosos e espirituais, em vez de se render à rotina das pessoas normais e/ou das “pessoas menos” que têm tudo o que sempre desejaram mas não brilham nem são felizes.

Esta nova religião, a do amor, ensina que todos somos sinónimos, mas que, para isso se poder ver e sentir, primeiro devemo-nos purificar da merda e assim, encontrar o elo em comum, o amor, o divino que há em todos nós.

Daqui a um partido político é um passo… só assim esta religião será de TODOS, democrática e só assim se poderá mudar o mundo e enchê-lo de amor.

A peça começa com um sinal, a chegada de um “ex-voto” de um cabelo branco na caixa do correio, um desejo, um pressentimento, um “ex-voto que cheira a igreja”, uma espécie de promessa religiosa. O que quererá dizer? Será por acaso?

Termina com um cheiro delicioso e real no ar, depois da chegada de outro sinal, agora humano e angustiante, um homem-bola-fantasma com uma cabeça de tumor ou cara de bola de basquet ou de “bola invísivel” ou uma bola cheia de culpa?

Todo o espectáculo se desenrola a propósito duma nova religião, a micro-empresa religiosa de amor, a M.E.R.D.A. e dos seus custos relacionais: dois casais típicos e arquétipos relacionam-se agora intensamente por causa deste novo projecto religioso que mudará as suas vidas para sempre.

Pedro de Amorim Sousa Silva transforma-se em pastor, o “Pê, o Dr. Faraó”, nas palavras de sua esposa, num verdadeiro filósofo e pregador, que discursa sobre AMOR e esperança para todos que o ouçam, que discursa sobre a MERDA que somos todos nós, e sobre o divino que há na MERDA e que, logo, há em todos nós. Esta personagem é apaixonadamente e brilhantemente interpretada por Duarte Guimarães que nos brinda com um discurso humano, sem teleponto, olhos nos olhos com o público.

Maria dos Santos Sousa Silva, uma economista racional e desempregada, uma “boa” mulher que ama o seu marido mais do que o seu próprio filho  – que sistematicamente rejeita e ignora -, vende-se de corpo e alma a este novo projecto do seu marido, pelo bem das perspectivas de vida da sua família e com isso, cresce dinheiro na sua conta bancária e um tumor no seu nariz que a faz cair no escuro nos seus pesadelos e no seu dia-a-dia. Joana Bárcia interpreta Maria de uma forma exemplar e extraordinária, é uma actriz muito talentosa.

O filho de Pedro e de Maria é uma criança índigo, fora de série, com as suas dúvidas existenciais apuradas e com um encanto humano próprio e mediúnico. O filho explora deleitosamente a sua primeira paixão adolescente e todos os porquês da vida na primeira idade. É maravilhoso assistir à sua performance linguística típica daquela idade, ao relacionamento “clúmpice” com o seu pai no seu quarto e com a tia Arlete, com quem já trata por tu e abraça como gente grande. Eis uma magnífica e inesquecível interpretação de Miguel Fragata, que já nos habitua à excelência na sua representação.

Arlete, uma mulher de coração e de banalidades, sofre em silêncio e cria sombras no pescoço, que viram algo estrangeiro por fora e depois um alegado tumor, fruto da dor de ter um filho que não compreende e castiga e que afinal se chama Amândio e não Amélia, como sempre se desejou. Além desta dor, sofre ainda de desamor… o seu marido, António, despreza-a e ignora-a, maltratando-a como um ser fútil e invisível. Porém, Arlete é um ser humano encantador e faz as delícias de qualquer espectador, uma personagem expressiva, hilariante e humana, maravilhosamente interpretada por Anabela Almeida.

António, um balofo e empresário de sucesso, uma “pessoa menos” que usa a arte da chantagem e o poder do dinheiro como armas de amor e de sexo, que se julga mais do que os outros, o maior no reino dos infelizes e dos chicos-espertos e que consegue irritar um santo com as suas piadas secas, teatrais, repetidas e  discriminatórias, uma performance excepcionalmente interpretada por Ivo Alexandre.

São dois casais que em comum nada têm excepto um filho especial e incompreendido. Entre eles troca-se sexo por dinheiro e afecto e atenção por amor numa oitava acima.Toda a peça vive dos seus variados relacionamentos e do contraste na forma de viver a vida e o dia-a-dia, apesar existir uma parceria financeira e anímica entre eles relativamente ao projecto espiritual. O casal “normal” letrado, que ama e que se questiona sobre a vida pede ajuda financeira ao outro casal “menos” de amor e de valores, que não dialoga entre si nem se questiona nem se preocupa muito sobre as problemáticas extra-mundanas. E mesmo em cada casal, existe um forte contraste e polaridade entre Pedro e Maria e entre António e Arlete.

O fim trágico da Sagrada Família deve-se ao “Deus sim Deus não”, a uma família aparentemente feliz mas disfuncional e inexistente, a um projecto megalómano e grande demais para uma só família ou também à falta de amor entre mãe e filho, a uma repetida traição da mãe, ao mundo de hoje?…

“Temos de mudar esta merda!”, diz Pedro, enquanto desliga furiosamente a tv. “Palavras de ordem: DEUS, SIM, SEM MEDOS”… “Baixa a cabeça para poderes levantá-la.”

Catarina Requeijo, uma nova encenadora do teatro português que merece fortes aplausos e divinos elogios que serão sempre fundamento para um compromisso em continuar esta bonita nova carreira artística. Toda a encenação está pensada e mastigada, de forma a que o público sinta a mensagem, os detalhes, intenções marcadas e reforçadas aqui e ali, provocações bem humoradas e irónicas sobre o tema, soluções cénicas criativas e coerentes em todas as cenas e cheias de ritmo no movimento de todo o espectáculo.

Sara Amado, responsável pela cenografia e figurinos também está de parabéns pela criatividade e senso de economia estética bem feita, funcional e simples onde, com poucos objectos como um sofá, um edredon, uma secretária e uma rampa nos consegue transportar para uma sala, um quarto, um escritório e uma igreja, usando fita para delimitar os espaços e provando assim que “menos é mais”.

O desenho de luz de José Manuel Rodrigues também é uma obra-prima, igualmente pela sua simplicidade e beleza. Algo simples como deixar que a luz siga o caminho das fitas coladas no chão, linhas do chão que marcam espaços e momentos, que dialogam com a performance do actor e com a emoção do momento, de cor vermelha no quarto do adolescente à cor branca iluminada no corpo do pastor milagroso, a linhas vivas e intermitentes que seguem o caminho descontínuo da verdade do que ali acontece.

M.E.R.D.A. a não perder! Um espectáculo divino que merece todas as estrelas do Universo. Desejamos que a energia do Partido da M.E.R.D.A. contagie todos os políticos do mundo para que um dia nasça um mundo novo e feliz para todos.



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