“A génese natural” | Asger Jorn

A génese natural

Nem homem nem mulher, antes pelo contrário

Asger Jorn é conhecido por, conjuntamente com Guy Debord, ter fundado a Internacional Situacionista. Mais do que criar arte, ideias ou movimentos, Jorn, assim como toda a I.S., sempre procuraram provocar situações. Assim, é natural que nas suas obras em nome próprio, o autor dinamarquês, modele, como é do seu apanágio, a palavra, a fim de obrigar o leitor a reconsiderar tudo o que assume como adquirido.

Como é típico de Jorn, “A génese natural” está completamente embrulhada na mais refinada ironia, apresentando uma, à falta de melhor termo, perspectiva filosófica,  sobre a situação dos machos na humanidade, através de paralelismos com outras espécies, e sobretudo, com a religião católica. Jorn clama que, a ser verdadeiro o mito de Adão e Eva, foi esta que surgiu primeiro, e que o homem apenas participou na criação por benesse da sua cara-metade. Ao longo da obra, o escárnio do criacionismo vai-se lentamente imiscuindo com a sátira do modelo da família nuclear, na qual o papel do macho é o de mero parasita, e a mulher assume uma espécie de laissez faire, a fim de evitar complicações, como ilustrado no capítulo com o título mais sonante que um ensaio jamais conheceu:“A Magna Mater e o caracter andrógino dos piolhos fêmeas”.

Como bom situacionista que é, Asger Jorn oferece posições conflituosas sobre um mesmo assunto, posicionando-se paralelamente como anti-machista assim como anti-feminista, ou em bom português, dá uma no cravo e outra na ferradura. Ainda que Jorn não se coíba de apresentar a mulher como ocupadora do lugar dominante, também não se acanha em criticar o seu desempenho nessa função ao cuspir literalmente pérolas como “Para nos abeirarmos do espírito das mulheres bastava escutar o que elas dizem, o que não favorecia necessariamente o mito da sua superioridade divina”. E se parte do ensaio se dedica a apresentar o macho como parasita e violador, momentos há, em que a mulher é retratada como o ser que se deixa violar, e cuja única exigência do marido é o total controlo da sua carteira.

Como tudo o resto em que Asger Jorn esteve envolvido ao longo da sua vida, “A génese natural” é altamente desaconselhado a pessoas politicamente correctas e com escrúpulos, moralismo ou ideais. Os restantes divertir-se-ão bastante.



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