“Singela Proposta e Outros Textos Satíricos” | Jonathan Swift

“Singela Proposta e Outros Textos Satíricos” | Jonathan Swift

Quando um frasco de tinta e uma pena se transformam numa arma de arremesso

Com que proposta nos tenta o autor conhecido pela obra “As Viagens de Gulliver”? O que podemos esperar de um irlandês letrado e perspicaz que cedo começou a publicar textos satíricos? Nada mais nada menos que uma boa dose de castigo bem escrito, extremamente irónico e de difícil percepção ao leitor mais distraído. É que, na verdade, nos séculos XVII e XVIII – à data da publicação dos textos -, a carapuça devia servir a muita gente… Hoje em dia, cabe-nos a nós decidir o que fazer com eles.

Na altura, ninguém escapou às palavras mordazes mas extremamente certeiras de um homem cansado de ver orgulho, ignorância,  teimosia, estupidez, rudeza e outros defeitos da mesma ordem  numa sociedade lenta e demasiado centrada no seu próprio umbigo. A  propósito do texto de uma batalha de livros que Jonathan Swift imagina e expõe, pondo livros e autores modernos contra os clássicos, profere meia dúzia de palavras sobre a tinta com que se escreve e o seu poder, que em poucas linhas resumem aquilo de que uma sátira e outros tipos de texto são capazes: “(…) a grande arma de arremesso em todas as batalhas dos eruditos, e que, disparados através de um engenho bélico chamado pena, jorros infindáveis desta substancia são assestados sobre o inimigo (…)”.

Tudo isto para dizer que a inteligência, a perspicácia e outras Deusas como tais seriam mais do que suficientes para lutar contra a estupidez e ignorância humana que Swift quis expor, sem meias palavras, neste conjunto de 5 ensaios satíricos agora reunidos na “Singela Proposta e Outros Textos Satíricos” (Antígona, 2013).

O que se podia esperar de um homem destes armado de tinta e uma pena? Desde uma breve dissertação sobre a maneira como funciona o espirito humano e o fanatismo de certas pessoas com a religião a uma singela proposta onde o autor apresenta uma refeição feita à base das criancinhas dos pobres irlandeses, poupando-os assim a uma serie de despesas e desgraças, os males da sociedade da época estão bem claros e, tristemente, confirmamos que a história se repete: as pessoas continuam a ser tratadas como bens susceptíveis de troca, o espirito é pouco tido em consideração, a religião continua a ser alvo de fanatismos e atitudes excessivas que Swift parodia caindo num verdadeiro filme pornográfico posto em palavras, com freiras e padres muito beatos, ou pelo menos queriam eles mostrar…

Um autor que expõe as fraquezas de um ser humano que se julga especial e protegido por um deus que idolatra e maldiz quando alguma coisa de terrível se abate sobre ele: será este mesmo ser humano capaz de se tornar responsável pelas suas acções, sem nenhum deus à mistura? Ficam à consideração do leitor estas singelas propostas, simples e muito práticas, para não serem levadas a mal; isto apesar de acreditarmos que Jonathan Swift ficaria muito mais satisfeito se a mal levássemos. Choca-nos? Melhor ainda. Talvez assim tenhamos a coragem de o levar a sério.



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