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“A Mulher do Quimono Branco” de Ana Johns

Um passado esquecido, histórias para recordar

Uma vida com amor é feliz. Uma vida para o amor é uma tolice. Uma vida de e se é insuportável. Nos meus 78 anos, tive as três.

A Mulher do Quimono Branco de Ana Johns (Topseller, 2021) é uma história em dois tempos, sobre duas mulheres muito diferentes uma da outra. Uma jornada de autoconhecimento em busca do sentido do verdadeiro lar.
Enredo fictício baseado numa amálgama de várias histórias reais, rico em detalhes históricos. Retrata o preconceito que as noivas japonesas enfrentavam após seguirem o coração, ficando entregues aos deus-dará, vítimas de pessoas cruéis e despiedadas, num Japão tradicional que valorizava o ideal de família acima de tudo, instigando ao sacrifício vs felicidade.
Descreve em detalhes como esses amores que desafiaram as convenções e ideais de ambos os países, nomeadamente o de Naoko, e posteriormente de mais algumas outras jovens que surgem ao longo da história, as levavam ao abandono e desespero (sendo consideradas proscritas) numa realidade austera e inóspita.
A escrita de Ana Johns tem o poder de evocar as emoções mais escondidas no recanto de um ser, à medida que descreve os altos e baixos na vida das suas personagens. Uma ode a todos os que sofreram e foram esquecidos, a uma era não muito conhecida ou falada. Um recordar dos erros do passado para que estes não se repitam e fiquem eternamente marcados na memória de todos.

Tenho quase 18 anos e amanhã começa a omiai, a reunião para o meu casamento combinado.
(…) Cabe-me a mim escolher a pessoa com quem me vou casar. É claro que ter essa opção e poder tomá-la são duas coisas completamente diferentes. Este é o meu desafio. Um dos muitos desafios que tenho de enfrentar.

Japão, 1957. Naoko Nakamura, uma jovem de 17 anos, apaixonada, tem dois caminhos a seguir e uma importante decisão que tomar.
Sob a insistência da família deve aceitar um casamento arranjado com Satoshi para reinstaurar a honra e prestígio do nome de família, mas o seu coração clama pelo jovem militar americano (gaijin), o seu Hajime.
A sua decisão vai acarretar muitas consequências, e a vida para quem foge às tradições não se avizinha fácil.

Encontrei a mala dele atrás da porta da casa de banho, pousei-a na bancada e abri-a. Com as mãos a tremer, remexi nas roupas dele e senti-me petrificada quando os meus dedos tocaram num pedaço de papel. Puxei-o com cuidado para o retirar da mala e depois fiquei a olhar fixamente para ele.
A tinta vermelha. Os carateres kanji. Os vincos e as dobras.
Regressei para junto do meu pai e os nossos olhares cruzaram-se.
Um homem moribundo. Uma filha com o coração partido.

América, Presente. Tori Kovač, filha do marinheiro por quem Naoko se apaixonou, é atualmente uma mulher devastada pela doença do pai e iminente morte do mesmo. Como se a tragédia familiar não fosse carga suficiente para carregar, depara-se com detalhes sobre o passado do pai que desconhecia.
Entrando numa espiral de incredibilidade, um misto de revolta e necessidade de saber, parte à procura de respostas rumo à pequena aldeia nipónica onde o seu pai se apaixonou pela “sua miúda”.

“Tínhamos estado a plantar uma arvorezinha que ele havia semeado no nosso quintal quando ele me contou pela primeira vez. (…) ele dissera-me que a árvore era mágica. Eu disse-lhe que estava avariada.
Porém o meu pai explicou-me que a magia estava nas palavras. Uma mensagem escrita que lhe fora dada quando se encontrava debaixo de uma árvore, tal como a que tínhamos plantado.
(…) (…) (…)
“Para saberes a direção em que vais, tens de conhecer tanto as tuas raízes como o teu alcance.”

A Mulher do Quimono Branco, de Ana Johns, é a história de vida de duas mulheres distintas e desconhecidas uma da outra, com um elo em comum. O fio vermelho do destino.

O fio vermelho do destino é uma antiga crença do leste asiático. Diz-se que os céus amarram um fio vermelho em redor dos dedos mindinhos daqueles que estão fadados a ficar juntos. É um fio invisível que liga aqueles que estão destinados a encontrar-se, independentemente do tempo, do lugar ou da circunstância. O fio pode esticar-se ou emaranhar-se, mas nunca se irá partir.



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