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“As FP-25 e o pós-revolução” de Francisco Bairrão Ruivo

Relatos de uma revolução que perdeu a inocência

E depois da revolução? Fica uma história por contar feita de momentos e atos que navegam entre o incómodo e o desconforto, entre terrorismo, memória histórica e os anos mais tensos do pós-25 de Abril.

Este continua a ser um tema que muitos teimam em deixar na gaveta, mas que Francisco Bairrão Ruivo, historiador e investigador do Instituto de História Contemporânea – NOVA/IN2PAST, traz à tona em As FP-25 e o pós-revolução (Tinta da China, 2026), livro que abre uma espécie de caixa de Pandora e ousa olhar de frente para um dos capítulos mais desconfortáveis da história recente portuguesa.

Sob o pretexto de se querer entender um período para muitos assombrado, principalmente num país que facilmente se entrega ao romantismo do 25 de Abril, dos cravos, das canções e da liberdade recuperada, Bairrão Ruivo põe o dedo na ferida, refletindo sobre o entusiasmo revolucionário e a chamada “normalização democrática”, quando parte da extrema-esquerda acreditava que a luta armada ainda fazia sentido.

Engane-se quem pensa que As FP-25 e o pós-revolução procura polémicas, pois o autor, há anos dedicado ao estudo da Revolução de 74-75, violência política e disputas de memória histórica, oferece uma narrativa em forma de contexto histórico, com o cuidado evidente em perceber não só o que aconteceu, mas também porque aconteceu.

Assim, ao longo de mais de 200 páginas, que inclui bonitas imagens a preto e branco, uma interessante bibliografia e um conjunto de notas pertinente, o leitor está longe de uma caricatura simplista das FP-25 sendo absorvido por um discurso que mais do que romantizar, ou branquear traz a palco o ambiente político da época, o desencanto pós-revolucionário, as ligações às Brigadas Revolucionárias, a radicalização de certos setores e a violência que marcou aqueles anos. Há ainda espaço para o autor falar das ações armadas, das vítimas, das origens do chamado Projecto Global e de como esta história continua “enterrada” no debate público português.

O traçar desse caminho sóbrio é uma das mais-valias neste muito interessante e recomendado livro que nos obriga a abandonar a visão confortável da democracia portuguesa como uma transição limpinha e pacífica. Porque houve terrorismo e um país inteiro a tentar perceber o que vinha a seguir à revolução, ou seja, uma fase de Anos de Chumbo à portuguesa.

A forma escorreita, simples e direta da escrita de Bairrão Ruivo tem ainda o mérito de tornar este livro num documento imprescindível para descobrir a História recente de um Portugal que parece hoje um pouco democraticamente adormecido e de um povo que pode e deve procurar mais informação e acordar para um debate e reflexão séria sobre como o país se moldou nas últimas décadas.



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