“A Paixão de Senna” | Rui Pelejão

“A Paixão de Senna” | Rui Pelejão

Herói e vilão

Há qualquer coisa como vinte anos, no tempo em que a miudagem se habituou a ouvir falar de agricultura enquanto esperava pela chegada de estranhos e encantadores desenhos animados, as tardes de domingo eram, quase sempre, passadas com um intempestivo zumbido a servir de banda sonora.

Com as vozes de Adriano Cerqueira, José Pinto ou Domingos Piedade, muitos foram os que se habituaram a gostar de Fórmula 1, desse imenso circo feito de carros de ponta e miúdas giras. O que também não seria difícil, se pensarmos que então, e numa só pista, competiam pilotos como Prost, Mansell, Piquet, Lauda e Senna. Ayrton Senna.

Nascido em Lisboa nos anos (19)70, Rui Pelejão licenciou-se em Comunicação Social, tendo-se especializado em automobilismo. Actualmente é coordenador e apresentador do programa Volante (SIC Notícias) e autor do blogue Grande Turismo, que versa sobre automóveis e viagens.

Vinte anos após um dos dias mais tristes que a F1 conheceu, Rui Pelejão escreveu “A Paixão de Senna” (Oficina do Livro, 2014), livro que estará entre a biografia e o romance mas que se lê como uma história de encantar, que em doses iguais mistura glória e tragédia, ingredientes que acabaram por marcar, de forma definitiva, a vida do piloto brasileiro.

Ao contrário de apresentar Senna como um herói intocável, Pelejão revela-nos, com a paixão de um amante do desporto e a perícia de um jornalista, um homem com muitos defeitos e contradições, um monstro maquiavélico dentro de pista e um ser tremendamente humano fora delas.

Rui Pelejão atravessa toda a vida de Senna, que esteve quase a trocar a vida de piloto por uma cadeira e uma secretária numa das empresas do pai, revelando de tudo um pouco: a predilecção de Senna por louras, mesmo que tenha estado de ser um Don Juan ou um bon vivant das boxes; a condução pouco gentleman revelada pelas muitas picardias e inimizades que criou desde muito cedo; o gosto pelo risco; a passagem dos karts para a Fórmula Ford, nas categorias 1600 e 2000; a corrida que ganhou sem travões dianteiros, onde recuperou várias posições e terminou com 12 segundos de vantagem – algo menor para quem foi das Penhas da Saúde à Covilhã apenas usando o travão de mão; a rivalidade com Piquet, nascida a partir do primeiro olhar; a meticulosa e certeira definição da sua carreira, que dividiu em quatro fases cumpridas à risca; a paixão e o interesse pelos pormenores técnicos do carro, que tantos benefícios lhe trouxeram; o começo na F1 na modesta Toleman; a Serenata à Chuva que protagonizou em 1984, no Mónaco; o casamento com a Lotus, onde vetou a entrada de Dereck Warwick, um dos mais promissores pilotos de então; o deslumbramento com a Igreja Evangelista e o abraçar da fé; a entrada na MacLaren com o aval de Prost, naquela que se veio a tornar a maior rivalidade de sempre da história da F1 – e, talvez, uma das maiores em qualquer desporto; a trágica morte, que muitos dizem ter sido pressentida por Senna e que reflectida no olhar triste que os seus olhos mostraram nesse dia.

Escrito de forma entusiasta, “A Paixão de Senna” é uma homenagem aos tempos maiores da F1, a um piloto que transformou as tardes de Domingo num momento sagrado semanal. Depois da sua trágica partida a Fórmula 1 não mais foi a mesma, tendo dela desaparecido o homem que tinha na adrenalina o seu combustível e para o qual não existiam limites.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This