“A RAPARIGA DE PARTE NENHUMA”

“A rapariga de parte nenhuma”

A história de duas almas que se encontram entre a realidade e o fantástico

Michel (Jean-Claude Brisseau) é um professor de matemática aposentado, que vive sozinho há 23 anos, desde a morte da sua mulher. Um dia acolhe uma jovem (Virginie Legeavy), que aparece à sua porta com ar de quem foi fisicamente violentada. O que era para ser apenas uma ajuda momentânea prolonga-se numa relação entre protector e protegida, em que Michel, fascinado pela obstinação e mistério de Dora, vê nela o renascer de um sentido para os seus dias de desencantamento e solidão. A presença de Dora, na casa de Michel, coincide também com o aparecimento de fenómenos paranormais, que não suscitam qualquer receio no ex-professor mas sim um fascínio por esse mundo sobrenatural.

A vida e o Cinema de Jean Claude-Brisseau

A escala dos filmes de Brisseau tornou-se mais modesta desde que foi suspenso, por um ano, devido a um processo de assédio sexual, levantado por três actrizes que fizeram uma audição com o realizador para o filme “Coisas Secretas” (2002). Após este incidente, o realizador nunca mais conseguiu alcançar o esplendor do drama “O Anjo Negro” (1994). Ainda tentou fazer algo épico com o filme “Os Anjos Exterminadores” (2006) mas sem grande sucesso. Apesar da produção dos seus filmes se ter tornado, de certa forma, mais modesta, a imaginação fantástica das suas personagens nunca sofreu com isso.

Em “A Rapariga de Parte Nenhuma”, Jean-Claude Brisseau parece piscar o olho a todos os que assistirão ao filme pela sua reputação de predador de jovens actrizes, brincando com a expectativa dos demais, ao representar, aqui, os avanços de Dora a Michel, personagem por si interpretada, que nunca chegam a ter sucesso pois Michel nega sempre, de forma gentil, o jogo de sedução da jovem.

Filmes simples com uma simples produção

Grande parte do cenário de “A Rapariga de Parte Nenhuma” foi filmado no apartamento de Brisseau. Com recursos tão mínimos quanto os do realizador Jafar Panahi (cineasta iraniano que se encontra actualmente a cumprir seis anos de prisão domiciliária, acusado de fazer filmes contra o regime), este é o primeiro filme digital do realizador que faz par com a sua assistente nos papéis principais, decisão que não enriqueceu o filme, muito pelo contrário.

Jean-Claude Brisseau interpreta o papel principal talvez para se mostrar tal como é. O seu amadorismo como actor imprime no filme um tom monocórdico, sem ritmo e vitalidade. Apesar da sofisticação do seu discurso, manifestada por um questionar a existência e por referências cinematográficas e literárias, a actuação do realizador fica muito aquém da dimensão fantástica e racional do filme.

“A RAPARIGA DE PARTE NENHUMA”

Misticismo e racionalismo

A maioria das personagens de Jean-Claude Brisseau são criadas a partir do mundo da ciência. Para o realizador, a ciência não contradiz a metafísica e é uma ideia muito presente na sua obra. Criou um médico brilhante que investiga uma vacina contra o cancro em “Jogo Brutal” (1983); um professor de Física em “À Aventura” (2008); um médico em “Céline” (1992) e agora, em “A Rapariga de Parte Nenhuma”, um professor de matemática reformado.

As personagens racionalistas de Brisseau são sempre tocadas por um mundo intangível, não compreendido pela razão, seja através da arte, de uma epifania mística ou de um êxtase físico. Brisseau sublinha, nesta característica, a crença de que o conhecimento total do mundo exterior é limitado ao Homem.

Em “A Rapariga de Parte Nenhuma”, Michel decide fazer uma sessão de espiritismo através de uma mesa especial que gira, escreve recados em papel e tem mau feitio, uma vez que tenta deitar abaixo uma estante da sua biblioteca, reforçando, uma vez mais a levitação, como referência transversal na sua obra.

A sinceridade em “A Rapariga de Parte Nenhuma”

As emoções retratadas no filme “A Rapariga de Parte Nenhuma” passam pela reflexão sobre temas como a solidão, a velhice, a juventude, nostalgia e a capacidade de usufruir o presente. É um filme sincero. Apesar da falta de vitalidade dos diálogos, estes complementam-se com uma adequação coerente da imagem.

O filme é uma apologia do espaço e fora do espaço, da passagem de um mundo para o outro. O humano sobrepõe-se ao material, apesar ser um filme de género assumidamente fantástico.

Sem necessidade de grandes meios ou movimentos rebuscados, Brisseau assume não ter medo de fazer filmes com muito pouco. E se a sua mais recente obra está repleta de erros, isso não o impede de ter uma fé inabalável no Cinema, explorando as suas múltiplas possibilidades. É, sem dúvida, uma homenagem ao Cinema na sua essência.



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