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A Solidão dos Números Primos

A Pior Juventude.

Plano-sequência inicial: uma peça de teatro escolar, os miúdos vestidos de duendes e fadas (é possível que estejam a representar “Sonho de Uma Noite de Verão” de Shakespeare), a câmara deambula pelo palco, aproxima-se da cara de um, percorre o corpo de outro, a banda-sonora é dos Goblin, banda italiana de rock progressivo que musicou os filmes mais conhecidos de Dario Argento… e, de repente, um grito. Corte para o público, constituído por pais entediados. Contra-campo: um rapazito conforta a rapariguita, que grita não se sabe porquê.

Nestas primeiras imagens de “A Solidão dos Números Primos”, escrito e realizado por Saverio Costanzo, a partir do romance homónimo de Paolo Giordano (um sucesso de vendas), o melhor do filme: o mistério, um retrato fiel da infância, a música de filme de terror italiano (que Mike Patton irá emular para as restantes cenas), o anúncio da desgraça, a dor e o abraço.

“A Solidão dos Números Primos” trata de duas solidões encontradas, a de um rapaz e de uma rapariga, a de um homem e de uma mulher, ambos marcados por uma ferida profunda na infância, ao longo de duas décadas. Desrespeitando a linearidade temporal do livro, Costanzo intercala acontecimentos de três anos diferentes — 1984, 1991, 2001 —, havendo depois um epílogo que corresponde a 2008. Se nos dois primeiros momentos (na infância e na adolescência), se reencontra essa tal justeza no retrato, uma nostalgia dorida de desenhos animados violentos, fatídicas torres brancas, palhaços funestos, pais egoístas ou muito protectores, festas de aniversário, primeiros beijos e ciúmes, nos dois últimos, perde-se essa sensação e Costanzo abusa das palavras por dizer e com os gestos por fazer, entorpecendo o seu filme.

A maneira como filma, demasiadamente em cima dos actores, com muito foque e desfoque, cada vez mais a convenção dos dias de hoje, também tira força a “A Solidão dos Números Primos”, numa palavra, cansa. O final, que permite alguma esperança, é bonito, assim como o resto do filme tenta ser. Mas entre o tentar e o conseguir está um enorme fosso, e é para lá que Costanzo faz escorregar a sua obra boa parte do tempo.

No entanto, não se pode desprezar a metade de bom filme que é “A Solidão dos Números Primos”. E fica a vontade de rever Aurora Ruffino, actriz que interpreta Viola, a terceira protagonista do filme, que misteriosamente desaparece (mesmo aparecendo) dele.



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