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Francisco Fontes @ Casa Capitão (09.04.2026)

Capotar com classe.

Todos nós capotamos de vez em quando. Aquele momento em que perdemos o nosso controlo. Pode ser físico, pode ser mental, mas em ambos é abrupto e pode causar mossa própria. Hoje é dia de conhecer o capotanço  de Francisco Fontes, na forma de nove canções, todas devidamente ponderadas nas palavras, e sempre delicadas nos seus arranjamos, talvez para amortecer qualquer choque. E é justo dizer que a Louva-a-deus tem o perfil perfeito para ajudar e alavancar Francisco Fontes e estas suas canções, que aqui e ali nos fazem pensar se a canção não é sobre um nosso capotanço, mesmo sabendo conscientemente que não é. O subconsciente tem destas coisas.

O «Prólogo», instrumental/som ambiente que abre “Capotar”, marca o início.

«Susto» é delicodoce. Na melodia e na voz. As palavras são poucas, mas certeiras… “A olhar o seu mundo / Que se torna inabitável / Por um segundo / Sozinho outra vez”.

Uma vénia também à banda que acompanha Francisco Fontes em palco, composta por Miguel Marôco nas teclas sempre a acrescentar, Pedro Branco – sempre imenso – na guitarra elétrica, Tomás Simões empunhando o baixo sempre discreto mas essencial e João Carriço, descontraído, mas não menos assertivo na bateria.

«Ilusionista» trás melancolia embebida em frustração, sobre não conseguirmos mostrar o que somos ou o que sabemos fazer, tudo fruto do azar. «Criminosos» é como uma pescadinha de rabo na boca; como seria mais fácil se trabalhássemos em conjunto para atingir um objetivo, mas por algum motivo damos por nós a não acreditar no outro, ou simplesmente a pensar que o nosso caminho é melhor. Talvez tenha divagado um pouco aqui, mas felizmente os instrumentos funcionam como o elemento gravítico, que nos mantém com os pés assentes no chão, mesmo que seja como menos de 1G.

Visitam-se o registos anteriores, porque o presente e o futuro se constroem sobre o passado. Nestas canções os arranjos simplificam, mas mesmo assim Pedro Branco consegue brilhar na guitarra.

«Pulmão» é cantada num sussurro, porque por vezes nos falta, algumas vezes por razões do coração. E todo o não cabe numa canção, mesmo que não tenhamos o ar no pulmão para o dizer… ou receber.

«Transparente» é descaradamente pop quando comparada com as demais canções e novamente com Pedro Branco a chamar a si o protagonismo.

«Copiloto», a canção que Fontes levou ao Festival da Canção, com a escolha a dever-se ao facto da duração da canção cumprir os requisitos da organização : cerca de 3 minutos. Felizmente muito pode acontecer em 3 minutos e um verso simples como “Dois joelhos colidiam” encerra em si uma química deliciosa.

«Capotar», onde três lágrimas jogavam à apanhada. Quem nunca teve este jogo a decorrer na face, seja só ou acompanhado. Damos por nós, juntos, com Francisco a perguntar “Carolina / O que aconteceu / Como se rompeu”. E embora os versos não tenham pontos de interrogação, é fácil imaginá-los lá.

«Cosmopolita», do álbum homónimo é descaradamente ornamentada com arranjos folk e pop, daqueles que arrancam um sorriso fácil, tudo muitíssimo bem executado. E «Vagabundos» é canção quase seminal no percurso. Foi um marco e aqui surge a par das demais canções, mais vivida; mais senhora de si.

Terminamos com «Primavera» a ser tudo aquilo que o nome promete e muito mais. É esperança, renascimento, mesmo perante a adversidade. Porque nestes versos se consegue ver isso, mesmo que aqui e ali nos tentem passar rasteiras. E justifico com as palavras do artista: “Nós na primavera / Com papagaios de papel / Embaraçados / Nós na primavera / Como flores que nasceram lado a lado / Numa fenda no chão / Lado a lado”. Se não vêem esperança aqui, o vosso mundo tem falta de luz.



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