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A Tecedura do Caos

A Tecedura do Caos surge do convite por parte da 16ª Bienalle de La Danse em Lyon, desafiando a coreógrafa Tânia Carvalho à adaptação da Odisseia de Homero.

Depois de Orquéstica (2006) e Icosahedron (2011), Tânia Carvalho volta a coreografar para um grupo maior de intérpretes, agora em número de doze. A Tecedura do Caos baseia-se na noção da viagem por mar, marcada pelo movimento ondulado e circular. O classicismo da Odisseia renasce no movimento criado por Tânia Carvalho cujas referencias demonstram a forma como a expressividade moderna não obliterou a estética clássica que, erradamente, há quem considere uma expressão artística ultrapassada.

A adopção do pas de bourree couru remonta à história da dança desde o período barroco e os seus três quartos de ponta que, por um lado, vislumbram a evolução ao plano etéreo da dança em pontas do virtuosismo romântico, expressando a história de amor que marca o poema de Homero até ao reencontro entre Ulisses e Penélope e, por outro lado, remetem à modernidade mantendo a base do pé ao nível do solo.  A própria criadora considera como ponto de partida para a Tecedura do Caos (…)” a comparação de Ulisses com as bailarinas do ballet romântico. Ulisses, enquanto busca do caminho para casa; bailarinas, enquanto busca da perfeição do movimento.” (…)

O movimento pairante e a alternância entre corpos estáticos  que apenas movem a cabeça – representando o sono que alude à espera – e a convulsa corrida em forma de furacão, aliadas à música de Ulrich Estreich criam a ideia de uma tempestade que marca a viagem de Ulisses até Itaca e os constrangimentos e dificuldades que as personagens ultrapassam ao longo do seu tumultuoso percurso.

Ao longo do espectáculo a coreógrafa paraleliza a sua criação com a Odisseia de Homero. Iniciando in media res entra-se num jogo de identificação de personagem e referências. A marca expressionista de Tânia Carvalho permite ainda ir mais além e abandonar a ausência de caracterização psicológica das personagens da Odisseia para adoptar a expressão de medo, pânico e cansaço que dominam as faces dos intérpretes de A Tecedura do Caos.

Sendo uma coreografia marcadamente de grupo, que se distancia da estrutura clássica pela ausência de destaque das personagens, não anula a expressividade da qualidade interpretativa e a individualidade de cada interveniente.

Os figurinos de Aleksandar Protic enfatizam esta relação contemporânea dos tempos com a ideia da existência de Faunos, personagens mitológicas – quase que em jeito da Primavera de Botiicelli – passando por bailarinas do período romântico até ao nu integral de uma das intérpretes que nos remete para a constante procura de algo ou alguém ou até à certeza de se tratar de Penélope, representada pela sua façanha de criação de um fato para Laertes (pai de Ulisses) como forma de adiar o seu casamento com os pretendentes.

A utilização das sapatilhas de meia ponta alude ainda ao período neoclássico contrastando com a modernidade da dança descalça.

O desenho de luzes de Zeca Iglésias sublima a criação de Tânia Carvalho e alternando entre formas redondas e quadradas remonta para a ilha de Calipso, para o Deus Hélio ou mesmo para a prisão interna de Ulisses e Penélope, dando mais uma vez primazia ao espaço psicológico que a coreógrafa trabalha ao longo do seu discurso de movimento.

São todas estas vertentes que abrem o paradigma do bailado enquanto arte de espectáculo onde cada elemento contribui para o todo, colocando o acto criativo de Tânia Carvalho num patamar superior.

Depois da permiére mondiale na 16ª Bienalle de La Danse de Lyon, passando pelo Centre Pompidou em Paris, teve estreia nacional no Centro Cultural Vila Flor em Guimarães, encerrando o festival Guidance, e após apresentação no Teatro Académico de Gil Vicente chega ao Maria Matos Teatro Municipal, em Lisboa, nos dias 20 e 21 de Fevereiro.

 

Ver também: www.taniacarvalho.org

 

Direção e Coreografia | Tânia Carvalho

Interpretação | Anton Skrzypiciel, André Santos, Bruno Senune, Catarina Felix, Cláudio Vieira, Gonçalo Ferreira de Almeida, Leonor Hipólito, Luiz Antunes, Luís Guerra, Maria João Rodrigues, Marta Cerqueira e Petra Van Gompel.

Música | Ulrich Estreich

Figurinos | Aleksandar Protic

Design de Luz | Zeca Iglésias

Assistência de Direção | Pietro Romani

Fotografia e Cenografia  | Jorge Santos

Produção| Tânia Carvalho

Co-Produção | Les Subsistances (Lyon), Biennal de la Danse de Lyon (Lyon), Théâtre de la Ville with Les Spectacles vivants-Centre Pompidou (Paris), Maria Matos Teatro Municipal (Lisboa), Centro Cultural Vila Flor (Guimarães), Teatro Viriato (Viseu)

Residências Artísticas | Les Subsistances, Materiais Diversos /Centro Cultural do Cartaxo, Hellerau, O Espaço do Tempo

Apoios | Rede Cinco Sentidos

 

 



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