NOS Alive 2025 | Dia 1 (10.07.2025)
Este é o primeiro dia do resto deste NOS Alive
Texto por Miguel Barba e fotografias por Graziela Costa.
Está tudo por Olívia Rodrigo. Glitters e lantejoulas não faltam. Nada que não fosse de esperar.
O dia de concertos tem início no Coreto para ver e ouvir Gisela Mabel, o primeiro nome integrante da curadoria que ficou a cargo da Arruada. Mabel, uma pianista e compositora luso-angolana, que teve a honra de integrar a compilação do Piano Day deste ano. Acompanhada em palco por Iúri Oliveira, percussionista (que acrescentará ao todo), há necessidade de um compasso de espera para resolver um problema técnico. A sonoridade que irrompe tem um toque de jazz e infiltra-se em nós. Há personalidade e pulso forte por aqui. «Choro Africano» introduz a influência das suas raízes na sua música, que aqui surge com uma percussão a arranhar provocadoramente um registo drum’n’bass. Combinação perfeita.
Segue-se a beleza que dá pelo nome de «Quietude». A percussão começa suave, projectando e complementando o piano, onde os dedos de Gisela Mabel deslizam e fazem magia, cavalgando em direcção ao crescendo, até abrir os braços e nos envolver por completo. O remate é feito ao som de «Contracena», no seu registo salpicado de tango, para depois quase como que se reinventar na segunda metade do tema.
No WTF actuam os Mão Cabeça que combinam rock com elementos de música popular portuguesa, e que procuram captar público num ponto do recinto que se sabe ser de passagem. O som da banda procura um equilíbrio entre o tradicional e o rock, algo cada vez mais recorrente, mas que não tem uma receita concreta, o que torna tudo mais interessante. No caso dos Mão Cabeça, ainda não terão encontrado esse ponto, mas é muito justo dizer que estão no bom caminho. E vão mais do que a tempo, com canções como «Alecrim» e «Sofá» a serem exemplos perfeitos disso mesmo.
No Heineken, mesmo ali ao lado do WTF, e que este ano está mais espaçoso, começam os Bad Nerves. Os ingleses trazem um rock que procura sempre imbutir-se de uma alma punk, e com uma vontade de estabelecer uma ponte entre a ilha britânica e o outro lado do Atlântico. As canções são curtinhas e há uma louvável tentativa de estabelecer um diálogo em português. No centro está “Still Nervous”, segundo álbum após a estreia homónima, mas que segue uma receita semelhante, ainda que mais polida.
Artemas é pontual a subir ao Heineken. Sonicanente quer ser muita coisa o que nem sempre dá garantias. É uma estrada sinuosa, mas há fãs e Artemas agarra-se a isso. Electro-pop melódico, depois a vertente mais rock e a descaradamente pop, sempre cavalgando num falsete, a não ser que estejamos no refrão. É uma fórmula, e funciona para muitos.
Benson Boone segue a pontualidade e é daqueles casos em que se sabe à partida que está garantido. Os mortais e os backflips estão lá e há até um escaldão para mostrar. Escutamos «Sorry I’m Here for Someone Else», «I Wanna Be the One You Call», «Drunk in My Mind», «There She Goes» e «Slow It Down» antes de seguirmos para outras paragens. O festival acontece em mais palcos que também merecem a nossa atenção, por isso deslocamo-nos para o Coreto, onde os Baleia Baleia Baleia se preparam para incendiar aqueles que decidiram estar presentes. E começam intensos, directos ao assunto. Rock na veia para quem está presente. É uma infusão de vida, “a pensar no apocalipse”. E não estamos todos? Por ali paira no ar a promessa de fazerem muitos covers de Olivia Rodrigo! «NPC» é uma canção nova que deverá integrar o próximo disco, com referência ao que se passa em Gaza e que nós vergonhosamente ignoramos. Senhores e senhoras que programam festivais: bandas como os Baleia Baleia Baleia podiam e deviam andar por outros palcos. Agostinho da Silva dizia que o homem não nasceu para trabalhar. Esta é dedicada a ele: «Venham as Máquinas»! Estar no sítio certo à hora certa; é esta a sensação com que ficamos no final. Foram a consciência social do Alive.
Libra debita as suas palavras no WTF. Rap com coro, um baixo e bateria. As palavras quase sempre em inglês mas também em português. Os Barry Can’t Swim colocam o Heineken – mui bem composto – a dançar quando são 21h. Um live act com teclado, programações e bateria, que cumpre num horário que simplesmente parece ser cedo de mais. Rossana enche o Coreto, porque tem banda, mas também porque tem bastante gente a vê-la. As canções de Rossana são ricas, esteja ela solta em palco, sentada diante do teclado ou de adufe em punho. Sempre poderosa em palco.
Os Glass Animals entram ao som da banda sonora de 2001, Odisseia no Espaço. Depois lançam-se de cabeça àquilo que melhor sabem e razão pela qual estão por aqui. O ritmo é sempre dançável e não esperemos diferente daqui em diante, mesmo que nos possamos sentir nos 90. Ouvimos «Your Love (Déjà Vu)» e pensamos que algumas destas canções têm aquele toque intemporal, o adjectivo é escolhido com cautela, mas é válido. Os Alt-J vêm inevitavelmente à memória, com a ressalva de que os Glass Animals não têm a imprevisibilidade daquele álbum estreia. Mas a história escreve-se de forma diferente, embora cada canção seja adoptada como um hino, em especial pela falange mais perto do palco. A dado momento é a vez de «Youth» e ao palco chega um dos muitos ananáses que serviam de copo. São constantes as invocações à passagem anterior, neste mesmo palco, pela própria banda. No final a mensagem é directa: “Game Over”, mesmo antes de se lançarem a «Heat Waves». No final há um singelo “Thank you so f***ing much” no ecrã. Ipsis verbis.
Há largos minutos que o êxodo para o palco NOS. Olivia Rodrigo é o nome incontornável do dia, onde tudo desagua. Não haverá Robert Smith, com toda a certeza, mas não será tudo menos um problema. «ballad of a homeschooled girl», «vampire», «drivers license», «traitor» e «bad idea right?» são entoadas em coro do início ao fim. Sem excepção. Todos os momentos estão ensaiados e soam verdadeiramente honestos, o que torna todo o concerto em algo memorável e irrepreensível, com Rodrigo a controlar todos os momentos irrepreensivelmente, seja na pose, no sorriso ou nas palavras.
Parov Stellar e a sua banda preparam-se para tomar o palco Heineken e embora aí também saibamos exactamente aquilo com que podemos contar, o apelo para se ir até lá é irresistível. É música de dança orgânica, onde a secção de metais nos oferece uma verdadeira experiência sonora, que muitos recriariam com recurso a programações e teclados. A entrada de Cleo Panther sobe a fasquia da festa que se vai vivendo junto ao palco. No centro do palco Marcus Fürede, nome de nascença de Parov Stellar, ocupa-se dos computadores e é maestro. Tudo gira em torno de si. É uma big band. Aqui a incerteza e o inesperado são palpáveis, mas acima de tudo impera a vontade maior de se divertirem e garantir que os demais fazem o mesmo… Para encerrar, um pulo aos 80, ao som de Sweet Dreams dos Eurorythmics.
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Leiam aqui as reportagens do segundo e terceiro dia do festival.
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