Primavera Sound 2025 | Dia 1 (12.06.2025)
Dia 1 ou o dia em que o Parque da Cidade se vestiu de néon.
Texto por Daniela S e fotografia por Graziela Costa.
A primeira noite foi vestida de verde “brat”, com o Parque da Cidade do Porto a ser transportado
para uma espécie de rave “zillenial”. Está dado o mote para mais uma edição eclética do festival mais
primaveril do verão português.
O Parque da Cidade do Porto continua no mesmo sítio e a ser palco de grandes concertos mais um ano. Assim ficamos mal-habituados, Primavera Sound! 2025 não foi exceção e muitos foram os nomes que
brilharam antes e depois da inevitável Charli XCX, cabeça de cartaz deste primeiro de quatro (!) dias de celebração da diversidade musical. Começamos bem e até afugentamos a chuva!
Mas já lá vamos. A nossa primeira tarde começou a desenhar-se bem cedo, com o indie rock do trio norte-americano Dehd a fazer teaser às tendências que se seguiriam: iríamos oscilar alegremente entre o rockcheio de atitude, pintado de “Poetry” (nome do álbum) e de assuntos de “zillenials”, como o “ghosting”… Sim, estamos a apontar para “Dog Days” e a sentirmo-nos representados: “ghosted, coasting, feeling free”, vamos noite adentro a saber que toda a gente que conhecemos “is bleeding”, but we know “we will be alright”.
Pelo caminho a lente da Graziela Costa apanhou Glass Beams e Angélica Garcia, mas a vossa escriba ainda estava focada no «blue sky» dos Dehd. Juramos que foi essa a canção que espantou a chuva que não caiu – milagre! – durante o festival inteiro!
Pronto, é oficial: está bem desempoeirada e agitada a bandeira da diversidade sonora que iria pautar este primeiro dia – e que bem podia ser a bandeira deste festival desde que o conhecemos. Aqui não há novidades… e ainda bem.
Novidade também não nos apresentou Anohni, mas também ninguém pediu. A melodia dos oceanos, ali mesmo junto ao mar, não podia ter sido mais encantadora. Anohni – que muitos ainda conhecem por outro nome, acompanhado por “and the Johnsons” – provou que é possível sofrer e entreter ao mesmo tempo. Poucos são os artistas que podem orgulhar-se da mesma capacidade de hipnotizar enquanto tentam endoutrinar jovens para a importância de proteger corais australianos… Deixamo-nos ficar pela relva – longe de quem não se calava junto às barracas de cerveja… read the room, guys! – rendidos a uma mensagem premente sobre o colapso da natureza, a saltitar entre o belo e o trágico, que assentou que nem uma luva num festival com nome de estação do ano e cheiro a flores.
E por falar em ativismo… tivemos direito a mensagem política em formato pós-punk antes disso, em Fontaines D.C. Estavam à espera de outra coisa? Os irlandeses não deixaram de tocar os clássicos, como «Romance» – logo a abrir – «Its Amazing to be Young», «Big» (e que Big foi!), «Starbuster» ou «Televised Mind», mas isso não os impediu de usar e abusar da sua já conhecida irreverência e mandar farpas para outros destinos, menos românticos ou galácticos: menções a Israel iriam ser uma constante neste festival, onde a palavra “genocídio” foi muitas vezes proferida, tanto no Palco Porto como nos restantes.
Não houve grandes novidades para quem teve a fortuna de os ver em agosto por Paredes de Coura, mas Fontaines D.C. é sempre uma boa aposta. Se, mesmo assim, preferissem ouvir outra coisa, sem fugir a uma guitarra bem afinada… ou a música com mensagens políticas, ali ao lado tocava Alan Sparhawk, que também teve direito a espreitadela (e fotografias da nossa Graziela Costa). Sim, foi hora de ouvir mais música de intervenção e ativismo, num mix de mensagens a favor da Palestina e da Ucrânia e contra Donald Trump, que fazia anos por esta altura… mas muito mais no plano de Anohni do que de Fontaines D.C. Ou seja, mais um pouco de depressão e melancolia com o estado do mundo e mais apelos pela paz e pela natureza, ou não tivéssemos a ouvir Alan “Trampled by Turtles” e a sua banda “LOW”… está tudo dito, não é verdade? Pedimos paz no mundo, gritamos #NoKings e fingimos que estávamos num protesto pacífico nos EUA… ou Woodstock.
Voltando ao Palco Porto, somos novamente relembrados de que a revolução atual também pode ser colorida e fazer twerk (e “Vroom Vroom”)… Vamos ter novamente direito a piscar de olho às bandeiras da Palestina que figuravam pelo recinto, desta feita de uma suspeita improvável. É verdade: não só a velha guarda tratou de mandar (in)diretas ao mundo… a esperada Charli XCX também o fez, embora de forma bem mais discreta.
De resto, deve ter sido a única coisa discreta numa atuação poderosa ao nível de strobe lights e twerking. A “brat” britânica mal chegou a palco e mostrou logo ao que vinha, para loucura do mar de verde néon que tinha invadido o Parque da Cidade neste primeiro dia de festividades. Não precisou de muito para contentar quem claramente tinha ido ali apenas para a ver. Aliás, se quisermos ser corretos, não precisou praticamente de nada: Charli apresentou-se sozinha em palco, munida apenas de bases fortes pré-gravadas, uma mão cheia de êxitos e muita, muita atitude. Era preciso mais? Julgamos que não.
De “bop” em “bop”, abriu as hostilidades ao som de «365» em formato remix (haveríamos de ter direito a formato “normal” já ao cair do pano”), continuou nos números em «360», «party 4 u» ou «Track 10», fez o já clássico número de dança com o público em «Apple» e tocou os «Club Classics» (literalmente), como «Von Dutch». Houve poucas pausas para respirar nesta autêntica aula de dança que rivaliza com qualquer boa rave em Berlim, mas a “pirralha” britânica lá deixou o público respirar na balada «I Might Say Something Stupid». Pausa para hidratar, respirar e continuar a festa, que só terminaria ao som da explosão de «I Love It», na sua versão mais conhecida, em modo Icona Pop. E o nome da música parece ter feito sentido para a multidão, que saiu do recinto logo a seguir, exausta, suada e feliz depois de ver BRAT ao vivo. Quanto a nós, preferimos a Halsey – que atuou no mesmo palco noutras “primaveras” – mas percebemos perfeitamente o “appeal”.
Depois disso – e já com o recinto mais despido de verdes elétricos – os The Jesus Lizard foram até ao Palco Revolut fazer das suas e mostrar que o ano de 1987 foi uma bela colheita ao nível de escribas e fotógrafos (sim, estou a falar do ano de nascimento de quem escreveu e fotografou para esta review. Perdoem o egocentrismo), mas também para o rock – alternativo, noise, punk… o que lhe quiserem chamar. Ah, que bom que é ouvir guitarras e cabeludos, de cabelo suado e calças rasgadas a saltar para o público… E ainda há quem diga que o rock morreu!
Leiam aqui as reportagens do segundo e terceiro dia do festival.
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