“Nós” | Zamiatine

“Nós” | Zamiatine

Nós somos a feliz média aritmética

Na história da Literatura, muitas são os rumores de aproveitamento, mais ou menos declarado ou consentido, de obras ou ideias alheias. “A vida de Pi”, de Yann Martel, foi escrito – há quem prefira dizer plagiado – a partir de “Max e os felinos”, livro do brasileiro Moacyr Scliar, tendo Martel dito – antes de uma tardia mea culpa – que tinha apenas querido aproveitar uma boa ideia estragada por um mau escritor brasileiro; “Os jogos da fome”, a aclamada trilogia de Suzanne Collins, foi beber à fonte nipónica de “Battle Royalle”, vestindo uma outra roupagem mas não deixando por isso de partilhar a mesma roupa interior.

E o que dizer de “1984”, de George Orwell, essa obra-prima das distopias que projectou um futuro onde o Grande Irmão, esse homem sem rosto e uma voz sem corpo, cuidava da felicidade de todos? Talvez começar por dizer que também ele teve a sua semente, o seu núcleo criativo, a centelha que lhe permitiu esfregar a lâmpada mágica da imaginação: “Nós” (Antígona, 2014 – reedição), do russo Zamiatine.

A personagem central da história de Zamiatine – melhor, o seu narrador e prosador -, quem sabe se um alter-ego de si próprio, é um engenheiro que tem em mãos a maior das missões que poderia ser entregue a um simples número – aqui não há nomes, apenas números: a de projectar e construir uma nave espacial que levará aos seres de outros planetas, ainda sujeitos à «selvagem condição de liberdade», a mensagem de felicidade, organização e exactidão em que vivem os súbditos de Benfeitor e do Estado Único.

O livro está escrito sob a forma de diário de um habitante da Terra do século XXX, dirigindo-se aos habitantes exteriores numa linguagem de inspiração matemática. «Eu, D-503, construtor do Integral, sou um entre os muitos matemáticos do estado único», lê-se como ponto de partida. Girando em redor de um binómio emocional, no mundo de “Nós” é possível escolher apenas um dos lados: a felicidade ou a liberdade. No caso do Estado Único, a escolha recaiu na – suposta – felicidade, fazendo da liberdade um estado irreconhecível da dimensão humana.

Sob o comando do Estado Único – é traçado um paralelismo entre este e o Cristianismo -, o ser humano abraçou a dimensão da matemática da ordem, onde a tábua dos mandamentos horários é quem mais ordena. Caminha-se em ordenadas filas de quatro, vive-se sob o olhar alheio com a abolição das persianas – excepto nos dias sexuais -, assimila-se a máxima do Benfeitor que conduziu ao estabelecimento da nova ordem: «a única maneira de livrar o homem do crime é livrá-lo da liberdade».

A vida de D-503 parece perfeita e imaculada, até à entrada na sua vida de um número feminino que o fará baralhar contas e cálculos, regressando mentalmente ao desconforto de imaginar a raíz quadrada de -1. Para os médicos não subsiste qualquer dúvida em relação à causa do problema: «Tudo indica que se formou uma alma dentro de si.»

A partir do momento em que decide entrar na Casa da Antiguidade, movido ao mesmo tempo pela repulsa e o prenúncio do desejo, D-503 irá descobrir o que esconde para lá do muro – descrito como a maior das invenções humanas – que isola o mundo mecânico e perfeito do mundo irracional e horroroso das árvores, das aves e dos bichos.

À medida que D-503 vai avançando no relato da sua história, a aritmética vai cedendo lugar à poesia, contrariando aquilo que o narrador vai repetindo desde o primeiro instante: nós somos a feliz média aritmética. Porém, parece ser apenas uma questão de tempo até que a matemática se torne na única linguagem humana.

Escrito em 1920, “Nós” parece ter pressentido a chegada do estalinismo, um sistema que quis dar aos homens e mulheres a sua visão de felicidade, retirando-lhes algo que até então era visto como essencial para o espírito humano: liberdade, privacidade, imaginação e espírito crítico. Mesmo que o negro seja a cor com que se escreve este romance, “Nós” mostra que mesmo nas condições mais adversas é impossível calar a revolta, ainda que esta pareça estar condenada ao fracasso desde o primeiro segundo. Seja como for, e como o diz o número feminino que conduz D-503 à perdição, «todos temos de enlouquecer…o mais depressa possível.» Um livro essencial da literatura, berço de todas as distopias.



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