“animalescos” | Gonçalo M. Tavares

“animalescos” | Gonçalo M. Tavares

A consolidação do anti-romance, anti-ensaio e anti-conto

A terceira obra publicada de “Canções”, uma das várias colecções do prolífero Gonçalo M. Tavares, reveste-se com o título “animalescos” (Relógio D’Água, 2013). É a consolidação do anti-romance, anti-ensaio, anti-conto e todos os outros géneros literários que Tavares desconstrói até esgotar o raciocínio do leitor. Ao abordar tematicamente a loucura como condição humana, a prosa do autor bem podia ser remetida aos corredores de uma qualquer ala psiquiátrica.

Esqueça-se, portanto, um leque de personagens orientados nos seus pequenos enredos e tramas. E se querem um sentido último ou guia prático para a vida, “animalescos” não é o livro que procuram. É necessário que o leitor dispa qualquer ideia preconcebida sobre o que acha ser literatura. Não é imediato como as várias parte de “O Bairro”, nem tem enredo que nos segure a lanterna, como “Jerusalém” ou “Aprender a Rezar na Era da Técnica”, duas das obras que mais reconhecimento além-fronteiras trouxe ao autor português nascido em Luanda.

Estamos, pois, na presença de um discurso à velocidade da consciência de Tavares, que dispara para todos os lados, parecendo palavras cuspidas para o papel ao ritmo das ideias e imagens, num estudo da percepção humana; tudo isto distinto, na sua tortura mental, do estilo de Joyce. Repleto de metáforas, alegorias difusas e até profecias pautadas por um tal “Cristo dos animais”, é frequente perdermo-nos no absurdo dos “loucos” e “esquizofrénicos” que são as vozes da obra. E, parecendo querer confundir ainda mais o leitor, existem rasgos de uma lucidez tremenda, ainda que enigmática (“esta mania de grandeza que o homem tem faz com que ele exija ver tudo o que os animais vêem e ainda mais alguma coisa”).

Mesmo deitando por terra qualquer convenção literária, Tavares detém-se em ideias universais. A escrita do autor não pertence só a Portugal, como também não pertence a Angola ou a qualquer outra parte do globo. Nunca é exigida uma interpretação dogmática, e o leitor não é deixado de olhos vendados. Ao longo de pouco mais de cem páginas, fazemos o livro à nossa medida e gosto, não havendo sentido de obrigatoriedade ou um percurso em “linha recta” (um dos conceitos pelo qual Tavares tem uma fixação inquietante).

Uma obra difícil de categorizar que, quando é separada da sua animalidade, é lida como uma reflexão dos tempos do homem, e quanto de instinto ainda retemos do nosso passado e evolução: se somos um ser social reprimido ou se simplesmente nunca deixamos de ser animais.



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