O outro lado de Munro

O outro lado de Munro

Um perfil de Alice “Nobel”

Optou pela escrita de contos, pois não sentia capacidade de terminar um romance maior uma vez que tais tentativas desmoronavam a meio do percurso. Nunca se dando por vencida, condensava a sua escrita em obras de menor volume mas com enorme pertinência.

Seria em 1968 que a canadiana Alice Munro começou a publicar com maior frequência contos em forma de coletânea, sendo que o primeiro título foi “Dance on a Happy Shades”. A riqueza e complexidade dos seus personagens contrastavam com a simplicidade da sua escrita, assente no quotidiano dos pequenos aglomerados populacionais nativos da sua terra natal.

Apelidada por muitos como a maior herdeira do legado deixado pelo russo Anton Chekov, Munro explora a narrativa de uma forma acutilante, apelando à clareza e ao rigor psicológico de personagens comuns que, colocados à lupa da escrita da mais recente vencedora do Nobel da Literatura, se tornam em pessoas especiais cujo trajeto humano transcende a normalidade da própria vida.

Natural de Wingham, Ontário, no início da década de 1930, Munro foi amealhando prémios ao longo dos anos, sendo os mais importantes o Man Booker International Prize, em 2009, ou as três edições do Prémio Governador Geral do Canadá para Ficção. Conhecida pela sua discrição, a autora de livros como “O Amor de uma Boa Mulher”, “Fugas” ou o mais recente “Amada Vida” – todos editados em português através da editora Relógio d’Água – tem no culto do anonimato e da distância imposta à curiosidade da imprensa algumas das suas fronteiras face ao mundo que a rodeia.

Esta tranquila existência reflete e faz a súmula da sua personalidade que a acompanha desde os tempos em que vivia numa quinta a oeste de Ontário, que tinha como paisagem uma beleza em forma de ruralidade que se encontra bem vincada na sua escrita, sendo os seus contos verdadeiras odes à natureza que a viu e fez crescer.

Acérrima leitora, consegue entrar na universidade – coisa rara no seu tempo que relegava o género feminino para longe da vida académica – e, desde logo, sentiu vontade de escrever estórias simples e assentes numa dolente brevidade.

Casou em 1951 e, já a viver em Vancouver na companhia do seu marido, carregaria no ventre, à vez, três meninas. Mas, tal como nos seus contos, a vida por vezes segue um caminho diferente do planeado e, ainda que pertencesse a um retrato familiar cuja luz estava a cargo da filosofia presbiteriana, divorciou-se e, depois disso, abraçou definitivamente a vida literária, tarefa que à época conferia às mulheres que ousassem seguir esse caminho o epiteto de “seres negligentes”.

Encontrado o trilho, Munro regressa a Ontário e abraça definitivamente a escrita e reencontra o amor ao lado de Gerald Fremlin, com quem casará. Estável e feliz, a futura autora de “O Amor de Uma Boa Mulher” sente brotar na sua cabeça estórias assentes na imprevisibilidade da vida quotidiana, que torna as mulheres comuns em verdadeiras heroínas e que encontram, no seio familiar, o busílis e o brilho de uma vida que mistura sabores doces e amargos resultando num jogo intrincado de sentimentos. As páginas começam a perder o branco e surgem nomes: Carla, Grace, Eillen, Laureen, Christa, Heather, Joanne, Nancy ou Elinor. Mães, amantes, poetas, mulheres, amigas, as protagonistas dos contos de Munro assimilam todas as facetas da natureza humana, envoltas de uma desarmante poesia resultante de uma equação cujo resultado é a perfeição da palavra dita, escrita e sentida. No fundo, os contos de Munro sintetizam a verosimilhança do realismo envolto de uma profunda emotividade que, por vezes, se alia a uma crueldade própria da humanidade.

Ler Alice Munro é sentir na pele a experiência acumulada ao longo de mais de oito décadas de vida. A atribuição no Nobel da Literatura vem confirmar a genialidade de uma mulher normal que se vale da sensível arte de transformar o comum em extraordinário e que apresenta uma obra que transcende a própria noção de ficção.



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