PR#4 – Rui Nunes

Rui Nunes, o desconforto de ler.

Conhecer Rui Nunes, a pessoa, não me parece tarefa fácil. No site da sua editora, a Relógio d’Água, ficamos a saber que nasceu em Lisboa, em Novembro de 1945, e que é licenciado em Filosofia pela Universidade de Lisboa. Nada mais se consegue descobrir sobre o autor. Sobre a sua obra, é importante referir que venceu o Prémio Literário P.E.N. Clube Português, em 1992, com o romance Osculatriz; e o Grande Prémio de Romance e Novela APE, em 1997, com o romance Grito (ambos editados na Relógio d’Água).

Rui Nunes não é um escritor muito conhecido no panorama literário português. Melhor dizendo, não é muito conhecido para aqueles que não são muito entendidos na matéria (leia-se: leitor comum). Confesso que não sei se o motivo deste desconhecimento se deve ao facto de não ser muito divulgado pela crítica, ou se será o próprio autor que se resguarda e se mantém um pouco à margem.

Uma coisa me parece óbvia: a obra de Rui Nunes merecia um destaque muito maior na literatura portuguesa contemporânea. No entanto, há que deixar bem clara uma ideia: Rui Nunes não é o tipo de escritor que agradará a muita gente; e talvez o facto de não ser muito divulgado passe também por aqui. Não agradará a muita gente, por dois motivos essenciais, que são quase tudo num livro: o estilo da escrita e a temática das obras. Apesar disso, acredito que ainda há pessoas que não conhecem o autor e que gostarão dos seus livros. Esta é a altura ideal para se falar em Rui Nunes, uma vez que acabou de ser lançado, pela Relógio d’Água, o mais recente livro do autor: O choro é um lugar incerto.

Mas antes de enveredar por este último livro, parece-me importante falar do que está para trás. Até porque este não me parece ser o livro ideal para se começar a descobrir o autor e está longe de ser o seu melhor, por motivos que adiante explicarei.

O que tem então a escrita de Rui Nunes, que cativa uns e afasta outros? Antes de mais nada, toda a estrutura narrativa. Os romances de Rui Nunes fogem por completo a qualquer estrutura “normal”.

Em Rui Nunes há uma mistura de vozes, de tempos, de espaços, que, dando um tom muito próprio à sua escrita, não deixam de a tornar uma escrita de difícil leitura. Há sempre várias personagens a narrar na primeira pessoa, mais um narrador que aparece pelo meio e que fala na terceira pessoa. Há um desenrolar de acções no presente, depois no passado e mais à frente no futuro. Há um espaço que de repente é outro e depois voltar a ser o mesmo. E este entrançado vai surgindo sem pré-aviso. Quase sem nos darmos conta, o espaço muda, muda a voz que fala… É esta teia de palavras que faz da escrita de Rui Nunes única, mas também uma escrita complexa, que exige atenção do leitor, e que confere um ritmo lento aos seus livros.

A par disto, temos a temática das suas obras, ou, melhor dizendo, a forma como essas temáticas são abordadas pelo autor. De facto, falar de um estrangeiro em Portugal, fugido do Holocausto; ou de um português no estrangeiro, que acaba por voltar e que, por acaso, é homossexual; ou ainda de alguém que se vê de repente só, ou de um homem que vai sendo consumido pela doença; nenhum destes temas parece ser motivo suficiente para afastar um grande número de leitores.

A questão não é tanto a temática em si, mas sim a abordagem que o autor lhe faz. Ler um livro de Rui Nunes implica (quase) sempre o experimentar de sensações desagradáveis. As suas personagens são solitárias, rejeitadas, abandonadas e que vivem em situações degradantes (psicológica e/ou fisicamente). A morte está sempre presente, ora real, ora afectiva. Para juntar a isto, o autor utiliza uma técnica descritiva muito própria e que é fundamental para conferir o aspecto sombrio e doloroso aos seus textos. Rui Nunes descreve pormenores. Como quem pega numa lupa e amplia a realidade. Há cheiros desagradáveis, cenários que nos provocam quase a náusea…

Por isto, Rui Nunes não é um autor de quem seja fácil gostar. Mesmo para quem gosta, há sempre um certo desconforto na leitura e não é agradável ler várias obras consecutivamente. Até porque, quando vamos na terceira ou quarta obra consecutiva, causa a sensação de já se ter lido aquilo num dos livros anteriores, como se todos os livros fossem iguais. E não são.

Quanto ao livro recentemente lançado – O choro é um lugar incerto – há uma diferença ainda maior. É que este livro não é um romance, mas sim um conjunto de textos que acompanharam uma exposição fotográfica de Paulo Nozolino (aos textos da exposição, Rui Nunes acrescentou alguns inéditos).

Os textos são o revisitar dos temas de Rui Nunes e parece que as fotografias eram ideais para o autor. O problema é que a edição do livro traz apenas três fotos sem grande relevância. O prefácio de Yara Frateschi Vieira dá-nos vontade de ver as fotografias (que representavam cenários como a guerra do Vietname, dos Balcãs, o Holocausto), mas o que o livro nos apresenta são apenas os textos. Fica a sensação de que falta qualquer coisa. O livro teria ganho bastante se, em vez do prefácio, que me parece demasiado formal, tivesse mais fotografias. Por isso disse atrás que este não é, decididamente, o livro ideal para quem quer descobrir o autor. Os textos são bons e bem ao estilo de Rui Nunes. Com mais e melhores fotografias, podia ter sido um excelente livro. Consola-me o facto de haver muitos outros do autor para descobrir.



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