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Barbeiros de bairro

Houve um tempo, muito antes dos Beckhams e Ronaldos desta vida, em que os senhores cortavam o cabelo e faziam a barba num ritual rotineiro, como quem toma a bica sempre à mesma hora no café da esquina. Mas ainda existe quem faça um corte à antiga!

Houve um tempo, muito antes dos Beckhams e Ronaldos desta vida, em que os senhores cortavam o cabelo e faziam a barba num ritual rotineiro, como quem toma a bica sempre à mesma hora no café da esquina. Os cabeleireiros de homem, chamavam-se barbearia, porque era lá que se fazia a barba antes de a Gillete ter inundado as casas-de-banho da classe média de lâminas descartáveis.

Há uns anos atrás, não tantos quanto imaginamos, o barbeiro era uma peça fundamental no xadrez social da vida de bairro. Ao lado do merceeiro, da porteira e do sapateiro, conheciam toda a gente e as vidas de todos.

Em Campolide, na Calçada dos Mestres, subsiste um desses raros estabelecimentos que sobreviveram à passagem dos anos. A parede de um rosa que é mesmo velho conta histórias de outros tempos. As cadeiras, de couro gasto e metal polido e brilhante, não parecem pertencer à sala dos Jetsons, mas têm um design funcional que aos mais arrojados não deixaria de agradar. Não são apenas cadeiras de cabeleireiro, são cadeiras de barbeiro, desenhadas para quem corta o cabelo e para quem quer a barba feita com aprumo.

Na parede, um calendário com imagens de mulheres semi-despidas carimba a autenticidade deste estabelecimento. Se mais nada faltasse para o pitoresco local, um periquito no centro da barbearia entoa chilreios que parecem desadequados numa manhã de sábado de uma metrópole europeia.

Pai e filho cortam o cabelo. Um cenário em nada novo para Mário de Oliveira Ferreira, há 60 anos barbeiro e há 42 no mesmo espaço. “Já cheguei a cortar o cabelo a quatro gerações da mesma família”, explica enquanto com gestos hábeis e rápidos maneja a tesoura pelo cabelo do rapaz irrequieto.

O cliente mais antigo corta com ele o cabelo há mais de 56 anos e vem de um tempo em que os clientes “eram mais assíduos”. Agora, conta, “os clientes vão mais pelo preço”. “Houve tempos em que cheguei a ter 21 fregueses à espera, assim, a um sábado de manhã”, acrescenta. Hoje são apenas dois os fregueses, os já mencionados pai e filho.

Os mais novos vão preferindo espaços amplos desenhados de acordo com as leis do Feng Shui e destinados a criarem um ambiente zen de fuga ao stress. Zonas fashion de arquitectura vanguardista a condizer com a indumentária e penteado dos funcionários. Os cabeleireiros de hoje são assim, para o menino e para a menina; prometem um cabelo diferente que é igualzinho ao da malta das revistas.

O Senhor Mário é um tipo bem disposto e, facilmente, conseguimos imaginá-lo como confidente de todos os que lhe confiam o styling capilar. Fala de outros tempos com uma ponta de nostalgia mas, sobretudo, com a voz de quem já se habituou a um mundo onde tudo muda. Até os penteados: “antigamente havia os guedelhudos, agora querem o cabelo mais à maluca”. O tom não é de crítica. É de bonomia e de quem sabe que os desvarios dos mais novos não são para levar a sério. Apesar dos 60 anos de profissão afirma que a única coisa que já não faz é pintar cabelos: “pintar é que já não pinto”, afirma categórico.

Nesta barbearia que se chama, sem pretensões, Barbearia, já é raro quem venha apenas para fazer a barba, “ainda vêm cá, mas muito menos do que antigamente”.

A tesoura continua frenética entre os cabelos finos do jovem freguês que teima em não estar quieto, enquanto que o nosso Barbeiro nos fala dos tempos áureos da sua profissão. Cortar o cabelo era tarefa para os dias especiais. Para os dias de festa. “Cheguei a ficar aqui até às duas horas da manhã, sempre a trabalhar, em vésperas de Natal e de Ano Novo”.

Na mesma rua desta há uma mercearia que os mais novos, habituados ao cheiro a pão e às luzes das grandes superfícies, estranhariam. Ao passar por estas lojas é impossível não olhar para as montras sem pensar que é um bocadinho da história de Lisboa que se exibe por detrás do vidro.



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