Beach House | “Depression Cherry”

Beach House | “Depression Cherry”

Sentimo-nos obrigados a revisitá-lo. Uma e outra vez

Gosto dos Beach House. Gosto mesmo. E gosto deles há muito, muito tempo. Os anos passam, os álbuns sucedem-se e a verdade é que continuam a soar bem nestes ouvidos. Terrivelmente bem. Decerto que esta opinião não será unânime, até porque nenhuma o é. Não será menos válida por isso.

“Depression Cherry” é o mais recente passo na carreira da banda de Victoria Legrande e Alex Scally. Ela, senhora de uma voz bela, com traços deliciosamente andrógenos e rainha nos teclados. Ele, senhor na guitarra e capaz de nos desequilibrar com o mais simples dos acordes. A caminhada, essa, continua mais do que segura. “Depression Cherry” tem a sua dose de momentos negros mas também tem os seus raios de luz, capazes de iluminar os recantos mais recônditos e escuros e da nossa alma.

«Levitation» marca a textura de veludo e o tom vermelho cereja. Flutuamos. Começamos por ouvir os teclados de Legrande, depois escutamos a sua voz, que de imediato nos envolve enquanto nos canta, quase num sussurro “You and me with our long hair on the gold one / After midnight we could feel it all / I go anywhere you want to”. Pelo meio, e em bicos dos pés, surge a guitarra de Alex Scally e, obviamente o resultado é uma simbiose perfeita. Os nossos pés já não estão no chão.

«Sparks» foi a escolha perfeita para ser o cartão de visita de “Depression Cherry”. É uma janela que nos permite vislumbrar aquilo que os Beach House foram, aquilo que são e o que almejam ser. A procura incessante por provocar uma reacção, uma resposta, por originar uma faísca. Querem que despertemos, “Just like a spark”.

«Space Song» é Beach House clássico. Os teclados, seguidos logo pela maravilhosa guitarra, ora quase no limiar do afinado e muito aguda, ora para no momento seguinte surgir transfigurada, rude e grave, sem nunca perder o norte.

«Beyond Love» é enorme. No primeiro segundo jogamos as mãos à cabeça. Sentimos um nó a ganhar forma na garganta. Depois ouvimos o que Victoria nos tem para dizer sobre o que vem depois do amor. Nem sempre é bonito. “The first thing that I do before I get into your house / I’m gonna tear off all the petals from the rose that’s in your mouth”. E mais uma vez há o raio da guitarra que nos leva para fora de pé em dois tempos. E nesta canção são os momentos cirúrgicos em que a guitarra entra, que causam aquele imensamente bom e delicioso arrepio na espinha.

«10:37» marca um momento. Ambíguo, é certo, mas que não o deixa de ser. Tudo começa com uma batida que marca o ritmo de toda a canção. Procura-se por algo ou alguém. Não sabemos o que esperar ao certo e a verdade é que se calhar, por ventura, nem Legrande o sabe.

«PPP» (Piss Poor Planning?) fala de duas personagens que estão numa relação e uma delas começa a ter dúvidas sobre o futuro da mesma. “Yet I’m tracing figure eights / On ice in skates so well / And if this ice should break / It would be / My mistake”. É o exemplo perfeito sobre como personificar dúvida e melancolia nos acordes de uma guitarra.

«Wildflower» apresenta-se com uma atmosfera um pouco mais etérea que as canções anteriores muito por culpa do registo que os teclados adoptam ao longo de toda a canção. É um momento pessoal e introspectivo e quase confessional de Legrande. “Need a companion / My head in prayer / You know you’re not losing your mind / What’s left you make something of it”.

«Bluebird» quase que pode ser encarada como a antítese de «Beyond Love». Fala-se sobre esperança, amor e felicidade. “Even I / Can’t control / My nature” canta Victoria logo no início da canção. A própria cadência da canção reflecte um estado de espírito mais feliz. Os teclados são mais upbeat e até a voz de Legrande o reforça.

Em «Days of Candy» o que salta desde logo “à vista” é o coro que se escuta ao longo de toda a canção e lhe confere toda uma aura de reverência. Quase como que uma oração. Uma procura por redenção, ainda que temporária. O doce apenas o é por um momento. Depois passa. “Just like that, it’s gone”.

E o álbum chega ao fim. Sentimos que mexeu connosco. Nalguma coisa cá dentro. Sentimo-nos obrigados a revisitá-lo. Uma e outra vez. A escutar cada pormenor. A virar todas as pedras. A procurar perceber ou interpretar cada verso de Legrande. E isso é tão bom.



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