Black Mastah

As "Krónikas de um mestre" em discurso directo.

As luzes que me apontam não são as luzes da ribalta.

No concerto em que entrevistámos Black Mastah, a sala estava um pouco vazia devido ao derby Benfica x Sporting ,e embora não houvessem luzes de ribalta a apontar para Tito, não tivemos problema algum em apontar-lhe o microfone e fazer-lhe algumas perguntas acerca da sua música e da sua visão do Hip-Hop.

Black Mastah estreou-se no grupo Filhos d’1 Deus Menor, que partilha com NBC e promete dar novidades no futuro, mas por enquanto estreia-se a solo com “Krónikas de Mestre” e é esse trabalho que merece ser ouvido.

Ficamos assim a conhecer um pouco mais deste trabalho produzido por Sam The Kid, Bomberjack, entre outros, e que conta com as participações de nomes conhecidos e outros menos conhecidos.

O resultado é um álbum coerente, do princípio ao fim, onde o “cinzentismo” típico português é posto de lado.

RDB: No teu CD nota-se uma preocupação com a mensagem positiva. Isso é uma forma de te desmarcares do panorama cinzento português?

BM: Não, não, é uma forma de estar. Isto tem tudo a ver com as minhas bases. Já há tanta negatividade, basta ligares a televisão… Eu vejo a vida de forma positiva e depois isso reflecte-se no CD…
Apesar de haver cenas negativas, eu tento fazer as coisas do modo mais positivo possível.

RDB: Como vês a relação entre a rima e o instrumental? É importante?

BM: Muito, muito importante. Eu tive a sorte de o Sam the Kid me ter produzido a maioria dos beats. A cena é: antes de tudo, ter o instrumental, depois é que se faz a letra. Nunca podes fazer uma letra e depois é que vais escolher o beat. O produtor dá-te o tema e depois escreves. E pronto, tentar-se casar as duas coisas, da melhor forma possível.
Vou-te dar um exemplo, tenho um amigo meu na Malveira, ele fez-me um beat que também era para entrar no álbum. Mas não senti o instrumental, não me estava a ver ali, naquele beat… por acaso ele até é bom produtor, fez-me dois temas, mas eu não senti e pronto, não fiz nada. Outro exemplo: o “Flawless Radio”, quando ouvires aquele instrumental sozinho, já pensas no instrumental com aquela letra.

RDB: Pois, há pessoal que pensa que esse som foi feito mesmo de propósito para a rádio…

BM: Tenho pessoal lá em Torres Vedras que acha o meu álbum muito comercial. O meu estilo é Hip-Hop, as faixas que eu tenho com o Sete, ou com o Pródigo, são faixas mais “raw”, mas depois também existem outras faixas mais suaves…
Por isso é que eu acho que grupos tipo Expensive Soul fazem falta. Há gente que pensa que Hip-Hop tem de ser muito “underground”, mais pesado, que tem de falar do “ghetto” e da vida, e coisas muito, muito negativas. Não, o Hip-Hop dá para falar de tudo.

RDB: As participações, como surgiram?

BM: As participações surgiram naturalmente, como já ando há algum tempo no Hip-Hop, muitas eram as pessoas a quem já tinha dito que quando lançasse o meu CD os queria lá, depois outros são pessoal que ainda não tinham conseguido uma oportunidade de rimar.

RDB: Uma das coisas que chamam a atenção são exactamente as participações, porque tu foste buscar um pouco de tudo, normalmente o pessoal do norte chama pessoas do norte, a do sul pessoas do sul…

BM: Exacto, até tive pena de não ter ido buscar pessoal ao Algarve, até mesmo nos instrumentais tenho pena de não ter “sangue novo”. Sei que existe por aí novos produtores que não têm oportunidade de mostrar os trabalhos mas que têm qualidade.

RDB: Fala-nos do Plano B, grupo de jovens que tens apadrinhado.

BM: Tudo começou numa brincadeira, dois deles são meus primos e outro é um amigo, como moram perto, eu ensino-lhes o que é Hip-Hop, apresento-lhes o Old School e a cena portuguesa, pois é aqui que eles vivem…
Depois tento levá-los a todos os concertos onde vou, para lhes dar confiança.
Eles têm muitos sons e já cheguei, inclusive, a gravar uma maqueta e no álbum de Filhos d’1 Deus Menor, conto tê-los lá…

RDB: O tempo que eles passam a escrever letras, a decora-las e a ensaiar é tempo que eles não passam na rua sujeitos a fazer “porcaria”?

BM: Exacto, o objectivo é fazer com que eles façam algo positivo…

RDB: Para finalizar, o que pensas da forma como as raízes do Hip-Hop foram transpostas para Portugal?

BM: Sabes, o mal está na forma como as coisas começaram em Portugal, tudo começou um bocado como brincadeira.
As pessoas ouviram o “Não sabe nadar” e foi assim que travaram conhecimento com o Hip-Hop; por exemplo na colectânea “Rapública” havia um som chamado “A verdade”. Se esse som tivesse o impacto que teve o “Não sabe nadar” as pessoas tinham olhado para o Hip-Hop de outra forma, tornar-se-ia mais respeitado.
Voltando às raízes, em Portugal uns dizem que foi o General D que começou, no Algarve dizem que foram eles que começaram, no Porto o Ace, em Oeiras o D-mars.
Eu acho que as coisas deviam ter começado de outra forma, mais construtiva, para que as pessoas tomassem consciência do que o Hip-Hop realmente é…



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