rdb_bondage_header

Bondage

Lembram-se do Bondage das Noites Marcianas? Fomos descobrir que Carlos Afonso aka "Este Senhor" transformou-se num TAP (Trabalhador Amador Profissional).

Desiludam-se os que esperam “d’Este Senhor” o Bondage de antes. A sombra do fetiche sadomaso das “Noites Marcianas” já era, sem que nunca tenha querido ser (sádico ou masoquista). Carlos Afonso continua a amarrar pessoas, sem as imobilizar. É senhor para múltiplos ofícios, mas está sempre de férias, que trabalho é suplício de escravo forçado.

Fomos roubar-lhe pouco tempo ao espaço que partilha com cinco “idiotas” que querem fazer coisas. Saímos do seu bunker muito tempo depois, culpa do entusiasmo que dedica a tudo o que faz, da tempestade de partilha multimédia, da discussão do muito que foi visto, e do mais que ficou por ver.

Para Carlos Afonso, estar sob o “registo” de um gravador reverte em pressão e acaba a dizer “as cenas de uma forma mais plástica”. Prova disso é que não dá entrevistas. “Isto não é uma coisa que aconteça. É assim meio estranho…” (exclusivo RDB, ora).

Estranho não lhe é quando o jogo inverte e o “senhor” mostra a sua graça de micro na mão, veste a pele de personagem provocadora e lança o seu descaramento manipulador à procura de pessoas que lhe ofereçam momentos (in)esperados.

Em Portugal admira sobretudo o trabalho do Ricardo Araújo Pereira, “é de facto genial”, e o do Bruno Nogueira. Lá fora o Sacha Baron Cohen é a sua referência absoluta, enquanto actor e “génio”.

Já amargou um murro da Elsa Raposo e podia ter morrido com um tiro de um retornado. Mas outras voltas há que tem de se contorcer (quase) todo para controlar o riso e não soltar umas gargalhadas.

Este senhor divaga, perde-se e encontra-se logo depois. É actor destemido, mas tímido sem a personagem. Desconecta-se com coerência, cria com tanta paixão quanto cepticismo, e está seguro, mas nem sempre… Dá-lhe gozo (não) trabalhar assim.

Fala-nos do Carlos Afonso, antes de ser Bondage.

Entrei para a faculdade para estudar Matemáticas Aplicadas (!) e, ao mesmo tempo, comecei a estagiar na SIC onde estive 2 anos, tirei um curso, e ganhei gosto pela imagem, pelo som, e por aquilo que as duas coisas podiam fazer em conjunto. Tirei outro curso em Londres, de edição de imagem. Foi de novo na SIC que conheci alguém que me convidou para trabalhar numa produtora. 
Quando estudei em Londres, em 98 ou 99, conheci o material do Dennis the Pennis (não o pénis, só mesmo o material profissional) que dava na BBC, e o programa do Ali G que dava no Channel4, se não me engano. Aquilo mexeu mesmo com a minha idiotice, identificava-me com aquele sentido de humor, senti um click e parti para a (des)construção.

Como surgiu o Bondage das Noites Marcianas?

Tinha a ideia de fazer um personagem e a Paula Moura desafiou-me a tentar. Se resultasse resultava, se não… paciência. Eu já tinha tentado entrar para o conservatório quando estava na SIC, mas eles não aceitavam trabalhadores estudantes, e eu estava a ganhar dinheiro e não abdiquei disso. Tinha uma vontade inata de representar e de fazer coisas que não fossem o Carlos Afonso. O Bondage correu bem nas Noites Marcianas, onde trabalhava como editor de imagem, e nasceu este personagem experimental e sarcástico, que brincava com figuras públicas e encontrava personagens na rua.

O que estás a fazer agora?

Estou a realizar, juntamente com o Manuel Pureza, os vídeos de Orelha Negra que é um projecto dos Cool Hipnoise e do Sam the kid, e que vão lançar um álbum. Estou também a fazer os vídeos promocionais para uma marca de cerveja, com a personagem que se tornou pública no programa MaxMen, o Este Senhor. É um viúvo que herdou muito dinheiro da defunta e que tem prazer em fazer vídeos para mostrar em festas.

Em 2003 fizeste o telefilme “Rádio Relâmpago”, com argumento do Nuno Markl. Como foi essa experiência?

Foi a primeira, logo como protagonista, e não a deveria ter tido. Fiz papéis mais pequenos depois desse filme que, se calhar, deveria ter feito primeiro, para me ambientar e perceber como era. Até por respeito à palavra “representação” que requer um pouco mais de trabalho e experiência, que eu não tinha. E não tenho.

Encontras na rua muitos “manos com forma e sem conteúdo”? (in programa zero da rubrica Bang Bang)

Encontro… Encontro até mais do que desejaria encontrar.

O aspecto é importante?

Não… Mesmo. Tenho alguma resistência em responder “sim”. O importante é perceber o que a pessoa é, ouvi-la, conhecê-la. Vale mais o conteúdo, basicamente. A partir do momento em que abres a boca fica a perceber-se do que és feito. Ou não… Podes divertir-te ou brincar com o aspecto, mas acho que é irrelevante. Apesar de saber que também acabo por lhe ligar, de alguma maneira… Tenho o meu gosto, mas acho que o aspecto não é a cena que me identifica.

Consegues improvisar um Freestyle para a RDB?

Só se fizerem o Beatbox… (Funny guy)

Não… Nesse programa zero, do Bang Bang, eu e o Sam The Kid fizemos uma brincadeira, mas não considero que saiba rappar. O Samuel é, para mim, o melhor MC em Portugal, é dos gajos que mais respeito e a quem mais reconheço talento. Sempre gostei de Rap… Mas sem Beatbox não! (Risos)

Como te reagem as pessoas na rua?

A maior parte do material que recolho não serve para nada, sobretudo se as pessoas não estiverem com disponibilidade para mim. Gravar coisas boas é muito complicado. O humor é um terreno difícil, ainda mais quando se trabalha com um humor que vem da realidade, da rua. A realidade tem momentos inesperados e desconhecidos, quer quando se escrevem coisas, como quando se anda a gravar. Por isso é inesperado também para mim. Não faço ideia do que anda na rua, mas sei que é rica, que me interessa. Não gozar com ninguém, mas sacar momentos de humor… na rua.

O que queres fazer daqui para a frente?

O que faço agora: trabalhar com vídeo, com som, Este Senhor… Trabalho com a voz, faço locuções que me garantem o ganha-pão. Realizar e editar não são trabalho, são prazer. Na minha vida tenho tido a sorte de, mais que trabalhar, ter prazer. É trabalhar, mas não é trabalhar, mas é trabalho, mas não é trabalhar… (Risos) Aliás, o meu nome no YouTube é Professional Amateur Worker. Tenho de trabalhar profissionalmente, para ganhar a vida, mas sou um amador que tem de amar aquilo que faz.

Já te ameaçaram bater?

Sim, já me ameaçaram e já fiz um vídeo que se chamava “Saiba como dar um soco na cara”, onde eu pedia às pessoas para me bater. Agora, a sério, só houve até hoje uma pessoa que me bateu: a Elsa Raposo. Perguntei-lhe durante uma entrevista, numa festa, se ela não tinha medo que lhe viessem a chamar a bicicleta do bairro, porque toda a gente andava a dar uma voltinha (numa altura em que ela trocava de namorado muitas vezes…). Ainda me desviei, mas levei um murro no pescoço.

‘Las Férias’, como foram? (ver link externo – Remember Bondage)

Eu vivo de férias. Tento viver sempre assim.

Já entrou num Stand automóvel de câmara numa mão e moto-serra noutra (Max Men). Pela frente, entre os transeuntes, apanhou um “traumatizado de guerra a espumar da boca” que lhe gritou “Nunca te entraram pela caserna adentro em África pois não!?”. Mais tarde, o mesmo exaltado admitiu que se tivesse uma arma lhe tinha “atravessado” um tiro. A polícia veio, encarou a autoridade explicando o contexto da sua personagem, e assumiu-se pronto a sofrer as consequências do seu trabalho. Foi quando percebeu que este tipo de abordagem pode ser arriscada e, pela primeira vez, que “uma pessoa pode morrer a fazer isto!”.

Para esta entrevista Carlos Afonso contou com a ajuda sarcástica d’Este Senhor, as recordações mordazes do nostálgico Bondage, os devaneios nonsense dos seus recentes “sócios” e o apoio logístico dos vídeos que atestam: Não trabalhar é um óptimo remédio!



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This