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Oroboro

Uma “pescadinha de rabo na boca”. A um fenómeno que se gera repetidamente os sociólogos chamam “intervalo de retorno positivo” e ao dragão que morde a cauda os alquimistas chamam de Oroboro. É uma figura que encaixa particularmente na reflexão que vou tomar.

Em artigos passados tenho procurado partilhar a minha opinião sobre uma série de assuntos relacionados, cujo crescendo parece-me culminar na peça que estão prestes a ler. O tópico não é de fácil resumo ou explicação, mas farei um sincero esforço no sentido de evitar a metafísica tanto quanto possível… vou escrever um pouco sobre profecias auto-concretizantes.

Como tantos outros fenómenos silogísticos, aos quais somos introduzidos durante o secundário, uma profecia auto-concretizante é um fenómeno que, pela sua própria natureza, faz o seguinte: gera uma expectativa, que pela sua influência no decorrer do tempo, gera um resultado, que era igual ao da proposição da profecia. Para colocar a questão mais simplesmente: um dia o mundo acabará, e cada um dos muitos crentes em religiões que profetizam esse evento vai achar que a sua é a verdadeira fé.

Que interesse tem este conceito na indústria musical e, em particular, na indústria da música electrónica / nocturna? Bom, para começar, todo o bom hype não passa de uma profecia deste estilo. Um oroboro perfeito. Quantos não foram atrás do que um ou outro crítico (profissional, ou não) deliberou sobre um ou outro artista, e ouviram a música deste com uma pré-disposição diferente? Como que dando um certo crédito adicional, e um respeito prévio até mesmo antes de ouvir efectivamente a obra… Depois, ao ouvi-la, esse crédito mantém-se presente, transmitindo uma sensação de apreço e valorização. O poder da sugestão é imenso, e, graças a ele, muitos podem reclamar uma vida plena de reconhecimento – uns, discutivelmente, com mais, outros com menos direito… e o grande corolário de Orwell (“repita-se uma mentira vezes que cheguem, que passa a ser verdade”) atesta essa premissa.

Não para dizer que todos os fenómenos de hype são mentiras tornadas verdade pela repetição, porque muitos são mais do que justificados, mas mais para questionar um pouco o dogma da tendência, como ditadora cruel do que é ou não é “bem” a um amante de música consumir, e o que é ou não adequado a um DJ reproduzir (na rádio, ou no club). E como essa tendência é um fenómeno impessoal, difundido e difuso, dificilmente organizado, eu entendo-a como, a cada caso, uma de três coisas: um lobby influente de um grupo poderoso no sentido de forçar uma sonoridade ou personalidade sob o público; também pode ser um fenómeno rotativo, em que passa o tempo certo para que os gostos pessoais de algumas pessoas se (re)validem; ou a descoberta, por influência de um agente divulgador, de uma grande massa pública a respeito do trabalho de um determinado artista ou artistas.

Resumindo, estou no fundo a discernir três vias que me parecem evidentes, para o sucesso… ou a sorte de se ser a cara de um “produto”, ou a felicidade de se preserverar até o momento certo, ou a eventualidade de alguém – anos adentro do nosso esforço, ou, em oposição, assim que começamos a trabalhar – resgatar o nosso esforço, trazendo-o à consciência pública. Em qualquer um dos casos, há que admitir que tudo acontece num mundo imerso em cultura. Um mundo ambíguo, onde o que parece certo a um, parece errado a outro… onde um gosta de uma coisa, outro gosta de outra. É, assim, difícil de discernir entre o autêntico e válido, e o efémero e acessório. Apenas o tempo valida ou invalida inquestionavelmente a música: à que vive, chama-se um clássico, e à que morre, esquece-se… ou entra na playlist eterna de algumas rádios generalistas do nosso país.

Aqui a questão será de tentar prever a validade ou invalidade da música, antes que o tempo passe e nos prove errados. Ao sermos conservadores, ignoramos – pela relutância – algo que tem valor, e com o tempo vamos ter de reconhecer a casmurrice, mas, por outro lado, ao sermos influenciáveis, somos levados na agitação do momento, o que também acaba por fazer-nos perder tempo a investigar algo que será inconsequente, e por custar-nos muito tempo e dinheiro, em horas de inutilidade (especialmente se comprarmos a música em vinil, que é sempre mais elegante).

O momento musical presente é muito curioso. A música mais estranha é, em alguns casos, levada ao colo pela crítica e vendida como o zeitgeist sonoro dos nossos tempos (por exemplo, o álbum de Hudson Mohawke, recentemente destacado na página principal do Myspace do Reino Unido), enquanto que por outro lado, nunca a pop generalista esteve tão taralhoca e medíocre (à excepção, é claro, de algumas bandas sempre confiáveis), levando o estado de coisas a um ponto de tal cinismo, que alguns movimentos de amantes de música se geraram – especialmente depois da estreia do fantástico documentário “Before The Music Dies” (disponível no googlevideo, para visionamento online) de Andrew Shapter.

Neste documentário, alguns artistas de renome e respeito na indústria musical tecem comentários sobre o grau de futilidade ao qual a indústria musical chegou, onde a última moda para melhorar a probabilidade de sucesso de uma vocalista no mainstream é o de fazer um implante de nádegas. Chegamos mesmo a saber que um Bono descontente admite que “se os U2 começassem como banda neste momento, nunca seria possível terem o apoio necessário para chegarem tão longe”.

Extrapolando o estado geral de coisas deste panorama generalizado, e aplicando-o ao universo normalmente aqui analisado, descobrimos que este modo de funcionamento tornou-se norma a todos os níveis. Mesmo a música mais underground e experimentalista torna-se agora do domínio geral, quando devidamente apetrechada de um empurrão mediático, e com a ajuda preciosa de um dress code arrojado que esteja dentro do espírito “vanguardista”. Assim, a questão que se levanta, já não é sobre a validade real dos projectos sob a lupa, mas sim a real capacidade dos seus consumidores serem capazes de sentir e compreender, adequada e sinceramente, a arte apresentada. De qualquer maneira, isso não impede que se gere mais uma profecia auto-concretizante: se gente em número suficiente profetizar a qualidade de um projecto musical, a grande massa vai sempre adoptar essa profecia sem a compreender… e no processo, concretiza-a.

Faz lembrar os $ 25.000 US, oferecidos pela escultura de Daniel Edwards… os primeiros “cornicões” excretados pela jovem Suri Cruise, filha de Tom e Katie Holmes, para sempre celebrados em bronze. Que os pais sejam célebres – e a filha, por aí, também o seja – não justifica que mais uma “escultura” escatológica seja desta forma valorizada como mais do que é: uma provocação deliberada e um acto de publicidade absurdo. Mas mais se fala dos pais, e mais se fala da querida poia bronzeada… ou seja, mais um Oroboro.

O ridículo deste exemplo pretende apenas ilustrar a forma como, por vezes, algumas coisas são difundidas e consumidas porque parecem ser tão atraentes… em oposição, outras, genuínas, despidas desse aspecto apetitoso, são repetidamente ignoradas – até ao momento que alguém de crédito as descubra.

No final desta intervenção, permitam-me a audácia, gostava de tentar quebrar este ciclo, nem que pontualmente. A admiração que sinto por pessoas que viveram sempre na obscuridade, para se manterem fiéis a si mesmas, mantendo a sua arte pura e intocável é absoluta. A admiração que sinto por aqueles que preserveram até que os ciclos naturais se sincronizem com o seu trabalho, dando-lhes uma oportunidade de, no contexto, mostrar a um maior público a sua arte, é grande – embora em alguns casos relativa (no pico de uma vaga estética temos sempre gente genial e gente medíocre, e em certos pontos, todos eles são igualmente valorizados pelo contexto, e só o tempo fará a triagem).

A admiração que sinto por fenómenos desapaixonados, que exploram esqueletos no armário e “guilty pleasures”, com absoluta dependência na difusão de um mito, com uma bengala nos acessórios de moda mais in, repetindo uma profecia auto-concretizante… não existe. E isto, claro, é tudo discutível, e eu bem sei.



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