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Boxnova

Há "Boas Novas" para 2009. Aliás, há BOXNOVA. E não é de agora.

Sendo um dos êxitos criado no âmbito do Centro Cultural de Belém (CCB), que nasceu marcado pela polémica mas é hoje reconhecido como uma referência cultural e imprescindível em Lisboa, a BOXNOVA oferece acção e oportunidades a jovens artistas e a pequenas companhias, com ou sem experiência.

O projecto que nasceu em 2002 e promete arrecadar 72 performances até ao fim de 2009, tem vindo a trazer uma programação de espectáculos escolhidos “a dedo” e provenientes quer de território nacional, como internacional.

Falámos com a responsável pelo projecto, Luísa Taveira, ex-bailarina e devota, entre outros calendários, ao sucesso do BOXNOVA. As suas palavras fazem crer isso mesmo e antever a maré de possibilidades que se adivinham pelo CCB.

RDB – Está envolvida no BOXNOVA desde o seu início. Quando surgiu esta ideia, como e com que propósito?

LT – Surgiu logo quando cheguei ao CCB como programadora de dança, em 2002, e porque tinha muito poucas oportunidades de escoar todos os projectos que apareciam. Sendo esta uma casa com um grande peso e tradição a nível da dança, não é propriamente fácil planear, num âmbito de todo um trajecto de programação anual, estes pequenos projectos mais específicos, alguns deles as primeiras experiências de criadores e artistas. Foi assim, condicionados por um “sem número” de factores, que acabaram por culminar neste evento: a BOXNOVA.

RDB – Como se processa a dinâmica, a nível logístico e orçamental, entre CCB e os criadores envolvidos no BOXNOVA?

LT – Nós começámos por publicitar a abertura das candidaturas. Normalmente por ano, tem variado, recebemos uma média de 60 projectos que depois acabo por seleccionar. Há então um orçamento global que é dividido pelas BOX’s escolhidas. Eu tento escolher uma por mês, excepto em Agosto, ter em consideração qualquer problema logístico do CCB (por exemplo em Abril, por causa dos ‘Dias da Música’), mas basicamente tento programar uma BOX mensalmente. Este ‘fenómeno’ é divulgado quase exclusivamente no programa trimestral do Centro Cultural de Belém e, na altura da abertura das candidaturas, faço uma pequena menção a esta oportunidade. É de facto muito simples concorrer.

RDB – De que forma tem o público aderido? Há receptividade e salas cheias?

LT – Costumamos dizer por cá que a BOX é mesmo um caso de sucesso. Normalmente está esgotado, temos muitas vezes de abrir o ensaio geral, porque eu tenho uma espécie de regra: se até à quarta-feira anterior ao espectáculo estiver tudo vendido, então abrimos, sempre, o ensaio geral. Contudo devo dizer, tendo dito isto, que o espaço onde a BOX é apresentada tem somente 72 lugares. É, portanto, um espaço pequeno, muito íntimo, mas muito correcto que assim seja, dedicado ao nosso micro público. É também uma janela aberta para a criatividade e para aquilo que de novo se faz no mundo, e também para mim, ao verificar esta adesão fantástica.

RDB – E a imprensa, como tem reagido ao projecto? A crítica tem dado apoio à BOX?

LT – O projecto em si, e de uma forma particular todos os que têm passado pela BOX, tem sido muito bem aceite pela imprensa. Talvez pela originalidade do programa e, um factor que me alegra muito, pela sua persistência.

RDB – Sente pessoalmente que este projecto incentivou e, mais que isso, impulsionou as companhias que, por serem mais pequenas, tiveram aqui uma maior oportunidade?

LT – Eu não falaria tanto em companhias porque, normalmente, os que passam pela BOX são projectos muito individuais e específicos. Hoje em dia, a dança organiza-se muito no sentido de um só criador, dois ou três intérpretes, e isso forma a equipa criativa juntamente com um dramaturgo ou um desenhador de luz. Não sei se posso esperar que uma hipótese dada aqui, pelo CCB, possa ter uma grande repercussão na carreira das pessoas, apesar de reconhecer a importância que possamos ter. Temos que ter alguma humildade a esse nível.

RDB – Falando deste tema de uma forma mais abrangente, como encara o panorama da dança contemporânea a nível nacional e no momento presente (“crise” incluída)?

LT – Realmente a arte tem os seus momentos áureos em tempos de crise. Já vem nos livros que é assim. Relativamente à continuidade das companhias não tem sido fácil, mesmo para as mais estabelecidas, dentro de Portugal. Agora quanto à criatividade e aos coreógrafos, ditos de dança independente, acho que estamos num momento muitíssimo bom. Depois de nos anos 90 ter havido um grande ‘boom’ na criatividade, com pessoas como o João Fideiro ou a Vera Mantero que vieram trazer à dança independente uma mais-valia, houve logo a seguir uma outra geração de transição que talvez não tenha sabido aproveitar e dar-lhe continuidade. Mas penso que temos agora uma nova geração de pessoas que querem fazer coisas, sinto-o até pelos dos alunos que tive. Há uma forte vontade para estudar, criar, aprofundar… uma necessidade criativa genuína.

RDB – E parece-lhe que os artistas, ou aspirantes a artista, têm oportunidade para expandir essa vontade?

LT – Não é fácil. Acho que as coisas estão relativamente melhores, mas não podemos olhar apenas para um lado. Temos de ver as coisas das várias perspectivas e nem sempre um criador jovem precisa ou merece uma oportunidade. Elas devem ser bem dadas e não entregues aleatoriamente.

RDB – O público adere mais a nomes sonantes e companhias mais “notórias”, ou dá também oportunidade aos criadores em tentativa de ascensão?

LT – O público, por vezes o tal “micro público”, dá essa oportunidade. De qualquer forma, não é por acaso que as companhias mais sonantes o são. Há que ter isso em conta, as BOX’s que apresento, e o projecto de uma forma global, estão construídas com espaço para errar. E garanto-lhe que muitos erram. Outros são fantásticos. Temos de quase tudo: projectos muito bem estruturados no papel que depois, quando são vertidos para uma acção performativa, perdem o sentido e interesse. Isto acontece de facto, e os criadores não o são só porque assim se chamam a eles próprios. Têm de ser legitimados pelo público. Há um caminho que tem de ser percorrido e a passagem pela BOX nem sempre lhes atribui essa legitimidade.

Quando um criador começa uma carreira ou pretende construir o seu projecto precisa de tempo, e nós não podemos controlar ou oferecer isso. Aprendemos muita coisa na escola, mas a genialidade ou o talento não se aprende aí, vive-se ou, quanto muito, vai-se adquirindo. Um projecto pode parecer ter futuro mas não ser nem atrair um grande público. Isso leva o tal tempo.

RDB – Há alguma experiência relevante, positiva ou negativa, que queira partilhar sobre o percurso da BOXNOVA, desde 2002?

LT – Não existem momentos específicos ou especiais. Existem momentos em que saio da BOX deprimida, com pena por ter dado uma oportunidade a determinada pessoa, porque tenho outros 60 projectos que acabei de deitar fora. Sofro algumas desilusões com a concretização de projectos que, no papel, me pareciam promissores. Há criadores que não sabem verter o que têm a dizer em movimento ou em dramaturgia. Por outro lado, existem espectáculos que me fazem ter a certeza que vou seguir o percurso do seu criador, e a vontade de voltar a assistir aos seus trabalhos.

RDB – A BOXNOVA vai continuar. Com o que podemos contar para 2009?

LT – Temos alguns projectos que considero muito interessantes, quase todos estreias. Obviamente o meu desejo é que sejam todos extraordinários. Apesar de tentar manter a BOX maioritariamente com artistas nacionais, por volta de 90% são criadores portugueses, temos muitos projectos que vêm de França, Grécia, Alemanha, Bélgica, Holanda, etc, que normalmente recuso, a não ser que tenham alguma afinidade com Portugal, ou desenvolvido algum trabalho por cá.



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