Bruce Springsteen | “High Hopes”

Bruce Springsteen | “High Hopes”

Expectativas elevadas

Primeiro, tenho que admitir que sou faccioso. Sou faccioso porque quando era puto adorava tanto o Bruce Springsteen que queria ser como ele, ter o cabelo encaracolado (só com permanente), usar bandana (um dos grandes erros da minha vida) e colete de ganga (confere). Também costumava treinar a boca do Billy Idol ao espelho, mas isso é outra história. Por tudo isto e porque o “Nebraska” é um dos discos da minha vida, tenho um elevado grau de tolerância aos erros de Springsteen ao longo dos anos, e neste século não foram poucos. Mas divago.

Contrariamente a Bono dos U2, o Boss consegue assumir uma postura de crítica política sem parecer artificial e moralista. Suspeito que se ele fosse Português seria um híbrido entre o Sérgio Godinho e o Paulo Furtado, uma mistura entre o carácter da revolução e a frontalidade do seu legado. Mas nada disto é assumido, são características que se ocultam sob a superfície da sua música e revelando-se apenas depois de muitas atentas audições, prática a que, hoje em dia, a maioria do ouvinte se nega. O Boss veio das ruas, da classe operária, das fábricas automóveis de New Jersey e carrega consigo a poesia do quotidiano. E também há esse pormenor importante: ninguém tem a alcunha de Boss sem ser merecedor de tal.

“High Hopes” é o mais recente disco de Bruce Springsteen e é uma espécie de roupa velha, composto por covers, out takes e regravações. Há uma versão dos Saints («Just Like Fire Would»), que infelizmente é do período menos interessante da banda, e outra de Suicide («Dream Baby Dream»), que juntamente com o tema título e «The Ghost of Tom Joad» compõem as faixas mais interessantes do álbum mas, ao ser electrificada, esta última, abdica do que tinha mais interessante: o seu carácter misterioso. Tom Morello (Rage Against The Machine), além de emprestar a sua voz a «The Ghost Of Tom Joad», é uma presença constante no disco através do seu trabalho de guitarra, tendo sido nos últimos anos um membro honorário da E Street Band.

Um problema recorrente em todo o trabalho é a voz de Springsteen, que soa demasiado encorpada e sem a alegria de discos mais antigos como “Born To Run” ou a sensualidade negra de “Nebraska”, assim como a produção excessivamente musculada. Discutível é também a contribuição de Morello, cujos solos, além de soarem datados, nem sempre colam bem nas músicas, e quem escreve isto é um grande fã de solos azeiteiros de power ballads do século XX.

Aparte os quatro temas referidos, o melhor parece ser «Frankie Fell In Love» apesar de, tanto esta faixa como as restantes, estarem a anos-luz do sentimento-de-romance-épico de músicas como «Prove It All Night ou Dancing In The Dark». Ainda assim, “High Hopes”, embora defraudando as expectativas e sendo um dos discos menos conseguidos de Bruce Springsteen, consegue ser mais duradouro e superior do que a generalidade da oferta musical actual.



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