Motörhead | “Aftershock”

Motörhead | “Aftershock”

O mais importante não é a que soa o disco

A encarnação é um conceito religioso referente à materialização carnal duma entidade ou força e, se no cristianismo é Jesus o seu expoente máximo, na mais bela das religiões, a do Rock’N’Roll, só existe lugar para um ser divino, e essa criatura é Lemmy Kilmister dos Motörhead. Ou, nas sábias palavras do filme “Airheads” de 1994:

Chazz: Quem venceria um combate entre Lemmy e Deus?

Chris Moore: Lemmy.

[errado]

Chris Moore: … Deus?

Rex: Errado, cabeça de pénis, Lemmy é Deus.

Os Motörhead (calão para speed freak) nasceram em 1975 e, para quem não conhece a história, o nome da banda surgiu da última música escrita por Lemmy para os Hawkwind, dos quais foi expulso por ter sido preso no Canadá na posse de speed (nada poderia ser mais adequado). Quanto andamento é preciso para ser expulso duma banda de drogados por ser demasiado drogado (ver Stephen Adler VS Guns’N’Roses)?

Antes de Motörhead, já Lemmy havia tocado nos também narcóticos Sam Gopal, e entre outros empregos em bandas de rock foi roadie de Jimi Hendrix, de quem diz que era o Deus da fornicação como forma de desporto. Para completar o retrato, importa também mencionar que Lemmy nasceu na véspera de Natal e afirma ter dormido com mais de 1000 mulheres, o que só prova que a beleza interior é a mais importante.

Dentro de dois anos, os Motörhead fazem 40 anos de carreira, que é mais do que a idade de grande parte dos seus ouvintes, embora circulem boatos pela internet sobre a saúde de Lemmy, que se diz ter problemas de coração, mas qualquer devoto (não fã) de Motörhead, sabe que ele não tem coração. Outro dos boatos é que comprou uma bicicleta fixa, mas se a usa de certeza que tem um cigarro numa mão e Jack Daniels na outra.

Isto tudo para fazer a crítica sobre o mais recente disco da banda, “Aftershock”. Motörhead não tem nada que enganar, nesse aspecto é muito parecido com beber cerveja: Sagres é mais pesada e dá vontade de trabalhar nas obras, Super-Bock é mais leve e dá vontade de beber Sagres, mas cerveja é cerveja e, ou se gosta, ou aprende-se a gostar. Assim é com a banda; Motörhead é Motörhead, quem vai ouvir um disco deles ou já sabe ao que vai e gosta ou então necessita claramente de aprender a gostar sob pena de perder um dos últimos verdadeiros grupos de rock em actividade.

“Aftershock” é o primeiro disco da banda desde há três anos, mas nem por isso desilude, quanto muito saboreia-se melhor dessa forma. Um homem de 67 anos começar um disco com uma música intitulada «Heartbreaker» impõe imediatamente respeito, mas sem dúvida de que a faixa que se destaca imediatamente é a «Goin’ to Mexico (Give us the time, And we’ll do the crime)», soando ao seu período clássico. A banda mais punk em actividade no momento desejava ter escrito a «End of Time (Politics, religion, rotten to the core)» enquanto com «Dust and Glass» ressuscitam-se as melhores power-ballads do rock dos anos 90.

Mas o mais importante não é a que soa o disco, e sim que há um disco novo, habitado por botas-de-matar-baratas-ao-canto-da-sala, motas cromadas, blusões de cabedal, guedelhas sexagenárias, whiskey e fumo, strippers, e a santíssima trindade de Sexo, Drogas e Rock´N´Roll, ou nas eternas palavras de Lemmy: “Vim dum lar desfeito. Fui eu que o desfiz”.



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