Cat Power | “Sun”

Cat Power | “Sun”

Em “Sun”, a embalagem é toda ela pop. No entanto, não se consegue deixar de sentir que por baixo destas canções se escondem sentimentos e emoções profundas

Lembram-se daquela soul cravejada de melancolia que tornava as canções de Cat Power irresistíveis? Pois… esqueçam isso. Aqui a história é outra. É uma história de mudança, muito à imagem dos tempos que correm. “Sun” é uma pedrada no charco. Uma completa mudança de direcção no rumo e na sonoridade que Chan Marshall estava a dar à sua obra mas que resulta muito bem.

«Cherokee» surpreende de imediato. Não só pela sonoridade dançável (já há inclusivamente uma remix de Nicolas Jaar para a canção) mas também porque mostra a capacidade que Marshall tem para criar versos pop, se bem que com um cunho muito próprio; “If I die before my time / Bury me upside down”.

Ao longo das onze canções consegue-se perceber que Marshall andou em busca de si própria e da melhor forma de transpor esses estados de espírito para o álbum. Foi, com certeza, um processo que levou o seu tempo. ”Sun” foi gravado em cidades tão distintas como Miami, L.A. ou Paris e isso provavelmente operou como influência, mesmo que de forma inconsciente, para o ecletismo pop que nos é oferecido.

Se ainda restam dúvidas, em «Ruin» estas são totalmente desfeitas. É uma canção descaradamente pop, não há volta a dar. Aqui, os teclados envolvem-nos, seguidos sempre de perto pela voz sexy de Chan Marshall. “Sun” consegue originar sentimentos contraditórios. É fácil confessar a nossa preferência pelas outras “Chans”, as pré-“Sun”, porém, ao fazer o exercício de observar o álbum numa perspectiva de carreira e de progressão, facilmente chegamos à conclusão de que houve uma decisão deliberada de correr riscos, de sair da zona de conforto. Há que louvar isso.

«3, 6, 9» é um desabafo. São palavras simples aquelas que dão forma aos versos da canção mas, quando ditas juntas, colocam-nos em sentido. “I feel / I feel tired / Awake all night / Head’s so heavy like a waste basket”. Neste ponto parece também que é traçada uma fronteira. Que daqui para a frente a vida é encarada de forma diferente, ou não se escute em «Always On My Own» “I want to live / my way of living”.

Em «Real Life» os sintetizadores são reis e senhores, e já «Human Being» revela a faceta activista de Chan Marshall, “You’ve got a right / You’re a human being”. Uma letra simples, sobre uma melodia simples, que resulta da combinação de sintetizadores, bateria q.b. e uns acordes de guitarra. «Manhattan», sobre relações passadas, é um dos melhores momentos do disco, uma afirmação de Chan Marshall enquanto mulher diferente.

«Nothing But Time», com Iggy Pop a ajudar, traz à memória Bob Dylan – ele, que Chan venera e que editou agora “Tempest”. É a canção mais longa do álbum – tem cerca de onze minutos – mas, por incrível que pareça, não cansa, tal a forma primorosa como está construída: como os vários instrumentos se ligam entre si e garantem a coesão necessária para a canção se estender. A fechar “Sun” está «Peace and Love», a canção favorita de Chan segundo entrevista concedida pela própria à incontornável Pitchfork.

Em “Sun”, a embalagem é toda ela pop. No entanto, não se consegue deixar de sentir que por baixo destas canções se escondem sentimentos e emoções profundas. A diferença é que desta vez são apresentadas, cantadas e tocadas com um sorriso na face. O caso de Chan Marshall é um daqueles em que a idade tem feito maravilhas, porque está a tornar-se uma mulher cada vez mais interessante de descobrir.



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