CAT POWER COM DUAS DATAS EM PORTUGAL

Cat Power @ Hard Club (1-11-2015)

Podia ter sido pior

Diz o povo que quem diz a verdade, não merece castigo.

Conhecendo de antemão a fidelidade de tantos fãs a Cat Power, suspeito que muitos ficarão melindrados com o que descrevo em seguida. Foi uma má experiência, para ser simpático, mas vamos a factos.

O desconforto dentro da sala do Hard Club era generalizado, o ar quase irrespirável, tal o calor que se fazia sentir, devido ao facto de se encontrar claramente sobrelotada. Foi a primeira vez que assisti a um concerto perto do bar, com as bebidas mais à mão e algum parco ar mais fresco, cuja origem tinha dificuldade em localizar, mas agradecia aos céus.

Em tantos concertos que já assisti naquela bela sala, nunca tantos se dirigiram ao bar pedindo água, o que apenas confirmava o óbvio. Não tardaram os primeiros desmaios e as portas de emergência foram finalmente abertas, por motivos de segurança.

Será necessário encher uma sala até rebentar pelas costuras, sem garantir o mínimo de conforto a largas dezenas de fãs que pagam 25€ para ver um concerto ao vivo, num Domingo à noite? Fica a questão à promotora e à sala.

O concerto começou pelas 22h. No palco despido e negro, um foco simples em Chan Marshall, com o seu sorriso desarmante e charmoso que exibe naturalmente, como a sua voz vívida e quente. A recepção foi esfuziante, as expectativas em alta, apesar do relativo fracasso do dia anterior em Lisboa.

Em pé, guitarra eléctrica em punho, Cat Power iniciou a epopeia de 33(!) canções, intercaladas por longas conversas mais para o final, em que desfilaram os seus respeitosos 20 anos de carreira.

Alternando entre um (demasiado) longo período ao piano e o final novamente junto da guitarra, pela sua voz passaram grandes marcos da sua carreira, como «Great Expectations», “Myra Lee” (1996), «Moonshiner», «Collors and the Kids” (“Moon Pix”, 1998), «Names», «Good Woman», «Fool», «Maybe Not», «Speak for Me» (“You Are Free”, 2003, um dos meus favoritos), «The Moon», «Hate» e a muito celebrada «The Greatest», do luminoso e inspirado álbum homónimo de 2006. Do mais recente “Sun” (2013), desfigurou a bela «3,6,9», numa mistura irreconhecível de notas similares ao original.

Renasceu ainda alguma esperança de que a noite poderia não estar perdida, quando logo nas primeiras músicas discerni apenas pela letra «(I Can´t Get No) Satisfaction», relembrando a sua excelente reinterpretação dos clássicos, normalmente impecável em discos como “The Covers Record” (2000) e o fantástico “Jukebox” (2008).

As versões sucederam-se ao longo do concerto. «Hit the Road Jack« (Percy Mayfield), «Remember Me« (Otis Redding), duas belas interpretações de «Paths of Victory« de Bob Dylan e «Can I get a witness« de Marvin Gaye, foram momentos altos da noite, e Bacharach não podia faltar, com a universal «What the World Needs Now«.

Nem tudo correu mal.

O espectáculo ficou a perder com o facto de Chan Marshall se apresentar sozinha em palco. A falta de uma banda de suporte, como já vimos em tempos num enorme concerto na defunta sala do Cinema Batalha (2006 talvez?), fez-se sentir de forma aguda durante todo o alinhamento.

Não sendo particularmente dotada em termos instrumentais, Cat Power aproveitou os longos medleys para tocar de enfiada dezenas de músicas, das quais nem sempre lembrava a totalidade das letras e acordes, tentando improvisar, e nem sempre com os melhores resultados. A estranha sensação de que tocava variações de um mesmo tema ocorreu-me frequentemente, mesmo entre músicas que sabia serem diferentes, mas nada que uma boa hidratação não fosse ajudando a superar.

Talvez fosse interessante para os verdadeiros fãs (que com alguma frequência e ânsia se iam manifestando com aplausos e invectivas), encontrá-la num espaço mais íntimo e aconchegante, como as suas letras confessionais serão para muitos que testemunharam esta actuação claramente desigual. O seu jeito único de tocar, como se estivesse numa roda de amigos, apesar de criar proximidade com quem ouve, é um risco que poucas vezes compensou e tornou duas horas reais em três ou quatro percepcionadas.

Apesar de o som estar óptimo, o interesse no que se passava no palco foi decrescendo na proporção inversa da quantidade de pessoas que iam saindo, por tédio, por necessidades vitais ou por obrigações laborais, que concertos ao Domingo à noite não são para todos.

Podia ter sido pior, mas foi bastante desiludido que regressei a casa.



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