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“Cavalo de Guerra”

A batalha do reencontro.

Estreia hoje em Portugal e parte para a edição de 2012 dos Óscares como nomeado em seis categorias, entre elas a de melhor filme. Spielberg regressa em força com “Cavalo de Guerra” e traz-nos uma história cheia de potencial, capaz de nos agarrar do primeiro ao último minuto.

Joey é aquilo que poderíamos chamar um espírito selvagem. O potencial do animal não passa despercebido a Tedd Narracott, que arrisca tudo o que tem para comprar o cavalo, mesmo percebendo que muito trabalho teria de ser feito para que Joey conseguisse ser um bom contributo para o trabalho na quinta.

Cabe ao seu filho, Albert Narracott, a tarefa de treinar Joey para o trabalho agrícola. Um processo que se revela complicado mas compensador. Uma forte ligação cresce entre o rapaz e o cavalo, transformando-os numa equipa imparável, capaz dos mais inimagináveis feitos que conseguem deixar boquiabertos os mais cépticos.

As circunstâncias difíceis da vida forçam Tedd a vender o cavalo, mesmo contra a vontade do filho. A guerra contra a Alemanha inicia-se e Joey torna-se parceiro do Capitão Nicholls nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. A partir daí vamos acompanhando as várias histórias em que o animal acaba por tomar um papel importante, como a dos dois irmãos alemães unidos por uma promessa e a da jovem Emilie e do seu avô.

O filme poderia ser dividido em duas partes, igualmente ricas e belas. A primeira parte conta todo o processo de educação de Joey e a luta da família Narracott contra a perda da sua quinta. Uma introdução leve, apesar de algumas situações mais tristes, que conta com utilização de um humor situacional interessante de acompanhar.

Contudo, a grande beleza do filme dá-se no percurso de Joey pela guerra, nas duas frentes de batalha. Spielberg dá-nos uma visão forte e crua do primeiro conflito mundial, com histórias que se vão misturando e que acabam por traçar o impacto da luta no quotidiano. Mais do que simplesmente a história do percurso de Joey, “Cavalo de Guerra” acaba por ser também o reflexo das consequências que a guerra foi trazendo à vidas das personagens, interpretadas com um nível de qualidade bastante bem conseguido.

Spielberg retrata a luta, a morte e o sofrimento de uma forma cuidada e real, optando por ser visualmente explícito em algumas cenas. O arrepio na espinha é complementado por uma reflexão sobre a dimensão do grande conflito mundial ao vermos as cenas de detalhada complexidade emocional que nos traz o realizador.

Um dos aspectos que mais poderá ser apontado negativamente a Spielberg será a força do argumento. Um tanto ou quanto fora da realidade, com um cavalo que parece apresentar demasiadas características humanas ou a introdução de humor em cenas de grande tensão (como a cena do arame farpado perto do final).

Se pensarmos que o cinema nos abre a porta para uma fuga à realidade, por mais obtusa que ela seja, esta crítica ao realizador atenua-se. A história não tem que adaptar-se à realidade para ser uma boa história e o potencial de “Cavalo de Guerra” está exactamente nessa capacidade de nos levar aonde a imaginação permite, mesmo que utilizemos bases históricas para construir a narrativa. Quanto ao humor em situações tensas, o melhor será encará-lo como uma técnica a que o realizador recorre para começar a traçar uma passagem entre o momento de tensão e um ansiado período de paz.

A riqueza visual e a composição de planos é algo que não passa despercebida neste filme. Do princípio ao fim, somos confrontados com enquadramentos cuja beleza é automaticamente reconhecida pelo nosso olhar.

A última cena, em contraluz, poderá ficar para a história como um dos mais belos finais. O tom alaranjado do pôr-do-sol, as silhuetas que se traçam, os abraços de felicidade – tudo nos prova que a grandiosidade de um final pode estar na maior das simplicidades.

Por fim, a banda-sonora não deve deixar de ser distinguida, estando muito bem conseguida. A música concluiu o quadro que é o filme com uma pincelada de génio. Seja nos momentos mais tensos como nos mais descontraídos, a sonoridade está lá e ajuda a completar a história.

“Cavalo de Guerra” traz-nos um trabalho que acaba por ser mais do que a vida de um cavalo. O animal é um (excelente) pretexto para se tocar questões como as ligações que estabelecemos na vida, o impacto dos outros no nosso percurso, a vontade de não desistir e o potencial destruidor (mas também construtor) da guerra.

Um filme sobre a possibilidade do encontro quando tal parece apenas um sonho distante.



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