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Como o Vinho do Porto

Os gostos não se discutem, é coisa que me disseram vezes demais.

Isto porque eu sempre teimava em evangelizar todos os que se me deparavam, quando era mais novo, de modo tal que isso custou-me, durante alguns anos, o cognome de Ka§par, o Arrogante (para começar, eu nem faço questão que me chamem pelo nome artístico, mas o pessoal gosta e, apesar de nunca o ter encorajado directamente, eu até achei piada)… e é bem possível que ainda sobrem alguns focos de resistentes me vejam dessa forma. Mas lavagem de inseguranças à parte, eu nunca fui muito à bola com esta noção de indiscutibilidade de qualquer coisa que seja do foro artístico. Afinal, as pessoas podem discutir filmes, podem discutir livros, mas música, e os gostos nela envolvidos, parece ser uma área onde temos todos de nos calar quando parece que alguém diz algo com que não concordamos. E como é uma coisa que eu, como é mais do que sabido, amo profundamente, por vezes penei por não obedecer a esta regra de etiqueta, de evitar discussões sobre o assunto.

Depois, considerando as ocasiões em que as pessoas me viravam as costas e ficavam ofendidas com a minha abertura e ausência de complexos, percebi que estava a perder terreno na bolsa de valores social, e ainda mais na artística, por todas as razões que menos interessavam. Assim, repensei um pouco a estratégia e reconfigurei a forma como considerava o assunto. Ok… – pensei – se calhar, a questão não se põe a nível de ter razão ou não (salvo casos muito flagrantes), mas sim, em expor devidamente um ponto de vista e perceber até que ponto é convergível ou não com o dos restantes. Assim, deliberar uma sentença, convicto de que a minha intuição ditava a verdade absoluta sobre questões de qualidade musical deixou de me parecer uma opção muito adulta, até porque ao longo do tempo começou-me a parecer que dava por mim a contradizer tais deliberações. Aí percebi que nisto da arte, e em particular desta minha tão amada, as coisas não são nada estagnadas, nem dentro de nós; aprendemos a gostar, descobrimos, começamos a perceber, e ganhamos “insight” com o passar do tempo.

O gosto musical é um treino, e um sobre o qual raramente nos apercebemos do decorrer. É a minha convicção actual, e sob essa perspectiva, não faz sentido criticar a partir de um pedestal toda a dissidência, mas é de todo o interesse compreender o porquê de certas pessoas (em particular, aquelas por quem nutro maior respeito pessoal) gostam de música que eu, ou não gosto, ou não percebo o que tem de especial. E acredite o estimado leitor, que por amiúde acabei por – ao ouvir as razões alheias – ser menino para ouvir com outra atenção um ou outro projecto, banda ou produtor, e descobrir um mundo que me escapava, porque não estava equipado com a receptividade adequada a integrar em mim a mensagem que aquela música trazia.

Um processo que a nível psicoterapeutico é chamado de “reconfiguração cognitiva”, no geral e, basicamente, consiste no reorganizar de um nosso ponto de vista, alterando o ponto de onde perspectivamos, dentro de nós mesmos, aquilo que procuramos compreender de uma forma diferente.

Neste ponto, refiro um autor que me é muito querido, e sob o qual fiz vários trabalhos no decorrer do meu curso, o incontornável Noam Chomski, que após anos de pesquisa determinou uma idade máxima para que uma criança conseguisse adquirir a capacidade de discurso (5 anos), e chamou ao mecanismo biológico activo até esse momento L.A.D (claro, Language Acquisition Device). Eu percebi que há um momento óptimo de maturação para a aquisição e compreensão de determinada música, estilo ou autor, mas que esta minha proposta tem um nome tão idiota que nem vou preocupar-me em desenvolvê-la academicamente (Music Acquisition Device? M.A.D…).

No tópico de citar autores, e criar pontes paralelismos, posso aprofundar um pouco a noção supra mencionada: eu diria que no momento em que se reconhece a ignorância, e se toma para nós a necessidade de compreender algo que não nos é familiar, estamos a crescer. Reconhecer o limite da nossa capacidade cognitiva é o indício mais claro de que estamos prontos a maturar. A maturidade, claro, é o produto consequente a esse reconhecimento, a essa tomada de consciência, de outra forma definível como um processo de “humildificação”, passo ao neologismo. Para não perder o fio à meada, gostava de referir um outro autor da área psicológica, Scott Peck, um psiquiatra americano, algo conservador, mas de cândido coração como é evidente pelas suas obras (relatos de experiências no campo terapêutico, que misturam ciência com a mais humana das realidades). Scott Peck tem dois livros que me ajudaram muito a resolver este puzzle da crítica do gosto musical (entre muitos outros de outras naturezas): “O Caminho Menos Percorrido” e “Gente da Mentira”. Para resumir decentemente qualquer um deles seria trabalho para vastas páginações, portanto fica a recomendação e sigo já para o objectivo: na segunda obra referida, Peck toma uma viragem abrupta em relação aos seus pares, psicoterapeutas clássicos, e define determinadas condições psicopatológicas como “maldade”, uma incapacidade egoísta de reconhecer o direito alheio. Basicamente, algumas pessoas, não são suficientemente humildes para darem conta que estão a prejudicar quem os rodeia, porque à partida nem reconhecem o direito dos outros evitarem o sofrimento como igual ao seu direito de tirarem prazer, mesmo que no processo causem esse sofrimento.

Espero que isto não tenha sido muito confuso. Esta noção é importante, porque, este mesmo autor refere que a um certo ponto das nossas vidas, todos somos assim. Quando ainda andamos de gatas, não toleramos (por não sabermos como), a dissidência, a discordância, nem toleramos os momentos em que não podemos ter o que queremos, daí as crianças de certa idade serem tão difíceis. E, na verdade, algumas pessoas, que na idade devida não ouviram um “não”, parecem crescer em tudo, menos na sua capacidade de reconhecerem quando é que simplesmente … não vale a pena.

Assim, e para regressar à música, se estamos absolutamente seguros que sabemos tudo, e que a nossa é que é a “cena”, então com toda a certeza, só estamos a garantir que nunca iremos compreender mais do que aquilo que já sabemos, e como tal, a incorrer numa condenação auto-infligida a uma estagnação eterna, porque nunca aprendemos a humildade de ouvir (a música d’…) o outro, e imaginar como será que ele se sente quando ouve isto ou aquilo.

Propor a possibilidade de que a maturidade (como um reflexo de uma maior capacidade adaptativa para nos recolocarmos cognitivamente sob diferentes estados de espíritos e sentirmo-nos em familiaridade com diversos universos emocionais) anda de mãos dadas com a nossa capacidade para apreciar diferentes tipos de música é um esforço perigoso, que pode até merecer acusações de algum eugenismo, contudo eu – que apenas atiro a ideia para o ar, como quem não quer a coisa – tenho ideias muito particulares sobre a maturidade, no geral. Eu defino-a, para mim, como um processo holístico que nos vai habilitando, sem que tomemos consciência absoluta da sua extensão, a uma capacidade cada vez maior de compreendermos pontos de vista diferentes do nosso, e, por aí, de nos relacionarmos com maior elasticidade e audácia, tanto social, afectiva, profissional, como espiritualmente. Isto não é absolutamente o mesmo que dizer que o processo é inquestionávelmente esse: o de sermos capazes de ouvir mais música e compreendermos mais coisas nesse campo, consoante a nossa maturidade vai avançando, é apenas apontar numa direcção geral.

Para se discutirem gostos, requer-se um pano de fundo, penso eu. É necessária uma mínima habilitação que coloque um ou os dois interlocutores em pé de igualdade. Alguém tem de ser capaz de ser colocar na “pele do outro”, pelo menos um dos interlocutores precisa de ser capaz de o fazer. E muitas vezes isso é sinónimo de dizer que, por exemplo, no caso de muita da música contemporânea mais passageira (que fica no ouvido não mais de meia dúzia de semanas, mas que parece exacerbar o mais fundamentalista das defesas), aquilo que o defensor sente quando a ouve, não é de todo o mesmo que o crítico sente quando ouve a música que gosta.

O gosto, como disse, é um processo, e inicia-se, como todos os processos importantes, num ponto onde será, por vezes, pouco previsível, a extensão, o alcance e muito menos o resultado desse processo. Mas seja qual for a extensão desse processo, a verdade é que o momento inicial, embrionário, é sempre um momento indistinto. A primeira vez que uma música nos diz, sinceramente, qualquer coisa, é quase certo que se trata de música de consumo geral, acessível a todos, e é a partir daí que vamos depurando o que pretendemos. E, até certo ponto, é um processo interminável em que, quanto mais tempo passa, melhor nos soam as coisas boas, e por nos soam as coisas más, e mais fascinados ficamos quando descobrimos algo de novo… parece o Vinho do Porto.

Portanto, para tentar discutir música com alguém que não ouve mais do que aquela que é cantarolável, e imaginemos, é uma daquelas uma musiquetas que nos tornam a vida difícil (a chamada “ear worm”), há que retroceder a um momento em que também nós sabíamos o que era ceder perante um produto feito à medida de um ouvido sem anticorpos. E claro, na maior parte dos casos, é uma conversa infrutífera, porque não há iluminação possível que um argumento possa trazer e que altere de forma palpável a perspectiva de quem defende uma posição tão extrema.

Mas a música serve um propósito igualmente identitário, de falar sobre quem a ouve. O facto de ouvirmos e apreciarmos, voluntariamente, certas coisas, diz algo sobre nós, e isso reforça-nos socialmente, ou não. E muitas vezes ter bom gosto é claramente ir contra a norma, que é uma espécie de nuvem que paira na cabeça das pessoas sobre a conduta esperada no campo da opinião sobre a música de que se “deve” gostar. Dessa forma, as discussões sobre gosto recaem muitas vezes numa eventualidade em que dois indivíduos, em diferentes pontos de maturação (eu acredito que uma pessoa que se está nas tintas para o que os outros pensam de si é bem mais maduro que aquele que “veste a camisola” de uma estética musical socialmente em voga) em que um tenta fazer ver ao outro, que a música que este defende não passa de uma fachada para que ele próprio se sinta integrado e socialmente validado.

Mas isto seria pano para mangas, e quiçá até, acendalhas para a lenha. E como tudo o que tenho dito, faço-o em nome do diálogo e saudável discussão de ideias, espero que por isso, não mais me tomem, causa das coisas que digo, como “o Arrogante”… porque se dá coisa que gosto, é que mostrem que estou errado. Até breve.



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