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Kaspar

Activista militante como DJ e produtor incansável, Kaspar cedo definiu a sua identidade musical, mas continua a sua evolução numa constante busca sonora.

Kaspar, Ka§par.

A diferença é subtil, mas existe. É um parágrafo, e numa história pessoal é mais forte que um ponto final, até porque abre uma nova perspectiva. Ponto final, parágrafo.

A sua biografia enquanto DJ e produtor é sólida mas, numa época tão rápida como confusa, é necessário relembrar quem sempre manteve a coerência e segurou a bandeira.

Oiço o teu nome há muito tempo. No entanto, ainda és bastante novo. A chamada da música foi precoce?

Sim. Tenho de falar um pouco sobre mim; quando digo isto, as pessoas quando não me conhecem acham que sou um bocado arrogante, mas quando comecei a ter uma pancada pela música tinha para aí 10 anos. Foi algo perigoso para mim, tornou-se quase uma droga porque me distraía de estudar e relacionar socialmente. Quando ia de férias para o Algarve, a parte que gostava mais era ir no carro a ouvir as cassetes do meu pai, nem era tanto ir à praia… era ver a paisagem e ouvir. Ele tinha umas mixtapes curiosas, não era DJ nem coisa que se pareça, mas às vezes fazia umas boas sequências, gravava músicas de vários discos e a coisa completava-se. Havia uma que me lembro mesmo bem, com «Computer World» dos Kraftwerk, seguido de «Saturday Night Fever», intercalada com o «4 Seasons of Love» da Donna Summer e com Simon & Garfunkel… depois Booker T. & the MGs e por aí. Aquilo entranhou-se porque era um gosto musical intuitivo.

O processo de construção do teu gosto musical começou assim?

Esse processo começou muito cedo, com 8 ou 9 anos ou antes e com 10 arranjei um programa chamado Making Waves: samplava com um gravador e montava aí, era uma espécie de MPC em diferido. Ia compondo. Tinha 2 sintetizadores tipo Casio Tone, que às vezes ainda uso! Punha uma música e tocava teclas por cima…não sabia ler uma pauta, nem nunca soube, mas arranjava um sistema de anotação próprio para não me esquecer. E era quase autista no consumo de música. Pensava que era uma fase passageira porque estava sempre a mudar de interesse e tinha medo porque investia muito tempo na pesquisa. Mas nunca aconteceu e aos 11, 12 anos quando chegava da escola ou ia fazer música para o quarto ou ouvir discos para a garagem.

E como te interessaste pela actividade como DJ?

Foi por causa do programa Dancefloor do Tó Pereira [DJ Vibe] que passava toda as sextas, na Antenna 3. A primeira vez que liguei aquilo foi completamente revolucionário. Nunca tinha ouvido nada tão diferente. Porque apesar de tudo estava habituado a ouvir canções ou instrumentais com estrutura musical mais definidas e depois ouvir House na rádio nacional, coisas cruas e simples, muito repetitivas e hipnóticas fez  quebrar alguns estereótipos, paradigmas que tinha sobre música anteriormente. Deu-me me a volta à cabeça e ganhei um vício religioso, gravando cassetes…ainda hoje procuro discos que ele passava naquele programa. Só me interessava pelo trabalho dele porque tinha um gosto único e aí comecei a pensar desenvolver a actividade como DJ.

Tiveste outras figuras de referência?

O Lino Rodrigues. O grande Lino, o pai de todos. Foi muito importante porque como gostava de música no geral, não tinha assim uma predilecção muito particular, não separava muito o que era mais electrónico ou mais bem feito, quer a nível qualitativo ou quantitativo. Uma vez ouvi uma entrevista dele na rádio, quando falava de um projecto conjunto chamado Rename, numa editora (que também era loja) do João Daniel – Question of Time –  e decidi ir à loja falar com eles. Acabei por conhecer bem o Lino que me ofereceu montes de discos (porque a loja ia fechar), outros comprei e ajudou-me a fazer uma triagem naquilo que escolhia, a construir um ouvido crítico, a saber o que validava na música que se comprava.

E quando começaste a passar discos efectivamente?

Tinha conseguido a minha primeira residência num bar de engate (risos), tipo strip, ali Póvoa de Santo Adrião. Pensava que era uma grande cena ser residente e estava convencido que era inevitável que o meu talento fosse reconhecido. Pensava que ia ser logo uma revelação, mas não foi bem aquilo que aconteceu. Fui despedido passado 2 meses porque, obviamente, não era a pessoa indicada. Queria passar Drum n’ Bass e tentava misturar Phil Collins com LTJ Bukem, mas com muita minúcia. Punha também os hits do House da altura, tipo Stardust e as pessoas reagiam muito mal…”tira os martelos” ou pediam música brasileira.

Então como foi o salto para o bairro alto?

Tinha um amigo que tinha um amigo que tinha um bar no bairro, o Play. Fui lá fazer uma pequena demonstração, o dono perguntou se queria por uns discos. Tinha comprado uns discos naquele dia, mas e gastei-os em 2 horas, passando-os de trás para frente. Quando disse que já não tinha mais ele disse para usar os dele e fiquei a noite toda.

Isso foi pouco tempo antes de passares para o Frágil?

Nem sei bem como isso se passou, o Rui Murka vendia-me discos na Ilegal. Tinha uma noite  no Ciclone e no Captain Kirk. Embora antes eu não saísse muito à noite porque era muito novo, havia muitos artigos escritos sobre os movimentos Drum n’ Bass em Lisboa.  Era um movimento integrado num circuito musical mais diverso até acompanhado por compilações como as Free Zone e dinamizado pela Cool Train Crew. Havia uma série de DJs com vontade de passar o estilo, mas que não se limitavam a este. Lia sobre isso e sabia que era ela que me vendia os discos…mas tinha um bocado vergonha porque quando somos mais novos temos tendência mistificar certas figuras. Entretanto, o Lino passou a residente e do Frágil, num momento em que Lux ainda não tinha aberto e nesses meses o clube teve um monopólio fortíssimo, abria todos os dias e havia muito menos locais para sair, era um cena irreproduzível. O Rui era o responsável pela programação. Como também era amigo do Lino, acabei por conhece-lo e ficámos amigos também, além disso Murka ia beber um beber um copo ao Play de vez enquando e houve um dia para aí em 2000 que fui comprar discos à Ilegal e ele disse que a partir de Agosto fosse o residente do Frágil…uma coisa muito inesperada, tinha lá ido antes uma ou duas vezes e tinha corrido bem. Com 17 anos foi uma coisa extasiante.

Achas que nessa altura havia um maior equilíbrio entre quantidade e qualidade em termos de música e DJs?

O que mudou foi a atitude das pessoas. Na altura a falta de ferramentas para relacionar com aquilo que ouviamos era de tal forma evidente que as pessoas se sujeitavam se ao que o DJ fazia. Como não havia muita informação, para comprar determinado discos era preciso revirar a cidade toda e falar com 50 gajos para saber o nome de uma versão de um disco. Quando conseguia comprá-lo e tocá-lo era uma alegria. Tanto que havia uma espécie de máfia nas lojas de discos com o Rui Vargas na Lollypop e o José Guedes na Contraverso, em que quase era preciso entrar na maçonaria para comprar os discos . Era uma coisa meia encriptada…e brincavam contigo, chegava lá e diziam “Este não é para ti, o teu vem para a semana, ouve estes que separei, esses é que são os teus”.

Isso contribuiu certamente para a estruturação de carácter…

Sim, tinha de escolher muito bem. Fazia-me pesquisar como DJ e com que as pessoas tentassem perceber musicalmente o que ouviam quando saíam à noite. Hoje o público tem uma atitude super crítica em relação à musica porque entendem que sabem tudo , porque a música é tão acessível ao DJ como ao ouvinte. Na altura fazia-me ser mais criativo do que sou agora. Havia uma maior defesa do gosto e caminho escolhido, havia mais crença, mais fé. O DJ tinha aqueles discos para aquela noite, quem gostasse gostava, quem não gostasse…como não havia muitos sítios, havia menos maus DJs – também porque não havia muita gente maluca o suficiente para passar a vida a comprar discos e tocar à noite. Agora houve empowerment, vai-se à net, vêem-se os tops do Gui Boratto ou dos Justice e que aquilo representa o zeitgeist. As pessoas saem, vão ouvir um DJ que está preocupado com a sala inteira e mandam bitaites sobre o que devia estar a tocar. Já não fazem o esforço de interpretação. Agora tenho de me preocupar com esse factor de descrença inicial, como se estivesse condenado à partida e tenho de convencer parte do público que mereço algum tipo de respeito. Mesmo que não faça o que eles querem. Essa é a grande luta. Equilíbrio entre entretenimento e integridade artística, não entrando em carneiradas.

A tua integridade enquanto DJ e produtor saiu reforçada com a experiência na Redbull Music Academy, em Seattle?

Em termos de DJ, não. Já tinha muita experiência…não que soubesse tudo, mas não me ensinaram nada de especial; claro que convém ouvir discursos de Danny Krivit, DJ Harvey ou Larry Heard heard porque têm coisas importantes para partilhar e esclarecer alguns pontos que pensas que estão assentes e se calhar não estão. Foi revolucionário pela experiência humana, pelas pessoas, pela sensação que o meu sonho não era exclusivo, que havia muita gente no Mundo que pensava como eu. A nível de produção foi óptimo porque tínhamos estúdios muito bons e equipamento de topo. Aprendi técnicas que com produtores experientes, que faziam papel de tutor e fiquei com muitos contactos, que ainda hoje mantenho pois trabalhei com alguns; tenho alguns músicos convidados no álbum que gravei e pus música fora de Portugal à custa de pessoas que conheci lá.

Então e quando sai esse álbum?

Andava a falar disto há 4 anos e as pessoas já começavam a duvidar que existisse, ainda não saiu mas espero que desta vez seja final e saia em Novembro. Foi um processo que começou em Seattle; fiquei com a nítida sensação que a melhor maneira de estabelecer o ponto final no início da minha carreira era fazer um primeiro álbum; como se fosse uma colecção de sensações, emoções e sentimentos que absorvi quando comecei a compor. Já passou algum tempo, mas continua a ser um primeiro algum que reúne alguma experiência, mas não tão inocente como quando tive a ideia. Demorou porque sou excessivamente perfeccionista e não conseguia empurra-lo no momento final. Fiz um último esforço de isolamento e neste momento espero apenas uma vocalização para um tema com o Maze, quando a receber fica a postos. Os singles já têm remisturas previstas de Photonz, Maia & SDC, talvez do DJ Ride e do Lino. Mas as rodas estão em movimento. Terá 11 músicas e o grafismo é do Ricardo Fernandes, da MCDS.

O teu último 12” foi  o Mamilo EP – achas que representa o estado actual, sentes-te confortável com ele?

Foi um disco que não estava à  espera de fazer, foi procurado pelo dono da 4lux, o Gerd (tinha muita coisa dele nos anos 90 na altura da Global Communications, editora dos Jedi Knights, Matt Preacher e Tom Middleton) ele apanhou alguns temas que tinha feito, mas em relação aos quais não tinha grande esperança. Tinha posto no player do Myspace e ele escolheu talvez o tema mais improvável o “In the Club”; quis remistura-lo e seleccionou mais material para fazer o resto do EP que compus com colaborações pontuais com o António Alves, Vítor Silveira, Gonçalo Siopa, que também cantou no disco…foi assim feito por amigos na descontra e por acaso foi apanhado por uma editora que não era necessariamente o reflexo especifico do que gosto ou prendendo…para isso é mais indicativo o álbum que fiz. Mas o disco já esgotou! E fiquei contente por ser tocado por DJs de referência e por ter um convite para ir a Milão, em Setembro.

Como é o teu historial a nível de colaborações com outros artistas?

O primeiro discos que fiz chamava-se “Profundas Explorações”, um álbum de kuduro em conjunto com um DJ, em 1996. Tinha a impressão que era o som de Lisboa uma fusão africana, com um padrão rítmico característico. Mas há pouco tempo ouvi uma música na RTP África e o som era uma porcaria…nunca vi nada do dinheiro, mas foi das primeiras colaborações. Depois lancei uma cena na monocromática, com um artista que para mim é seminal e pouco reconhecido que é o Rui Gato…uma espécie de Plaid à portuguesa, não estou a exagerar. Fiz um tema de Electro mais old-school, drexciya style. E alguém no Blitz que achou piada à musica e entrevistou-me, tinha eu 16 anos, e lá me pus a deliberar o que achava do Mundo.

Tens também vários trabalhos com o António Alves [Jackzen].

Conhecemo-nos no IRC, eu tinha o nick Moodyman e ele Theo Parrish…logo, foi amor à primeira vista! Ficamos amigos rapidamente e trabalhávamos em conjunto. Numa outra vertente temos o Mamilo.org – um site que espelha a nossa vontade mostrar discos que compramos e que não são aqueles mais eficazes, queríamos mostrar a nossa colecção e achamos que o DJ set com pratos gravados é uma obra de arte que merece ser respeitada. Entretanto, a par disto, produzi há uns anos um tema para o II volume do Lisboa Gare, organizado pelo Murka –  o Pitinini, depois o Passion Victim e uma remistura para Loopless, num tributo à Amália com o Melo D. Com António lancei ainda um tema na primeira compilação da Groovement e uma remistura para Moonstar.

Como surgiu essa associação à Groovement ?

É um projecto de um grande amigo meu, o Rui Torrinha, que sempre teve uma visão musical muito à frente do tempo e uma atitude na música e  na vida que ainda hoje estou a entender. É muito íntegro, nunca se deixou levar por modinhas; parece aqueles místicos das grandes ordens seculares do V Império, à procura da verdade central, ele é assim só que  na música, e sem esforço. Na altura era o único DJ interessado em ritmos off beat que eu e o António fazíamos, mais conhecido por broken beat. Éramos só os 3, praticamente, e ele tinha uma noite numa discoteca no norte, o António começou a por música com ele. Desenvolveram o projecto de editora e depois convidaram-me.

Esta parte colaborativa também tem expressão num versão DJ, nas noites do The Scene – podes explicar o conceito?

É o colectivo que formei com o Bruno Safara, d’A Outra Estação, o Vítor Silveira e o grande Trol2000, de forma a podermos explorar toda a história musical dentro do House e Techno que nos parecia não estar devidamente referenciada pelos DJs que conhecíamos; faltava a ponte entre a ancestralidade e o cuidado com que coisas que eram feitas antigamente e a formalidade estética e atitude hermética em  torno da musical electrónica actual. Queríamos destruir isso e fazer uma festa descomprometida com à vontade para dançar, escolhendo a música de acordo com esse universo sem escrutínio. Tem sido um projecto em crescendo.

Para finalizar…porque usas o § no nome?

Uso há muito tempo mas a explicação  é simples. Quando olham para o nome e vêem o símbolo talvez o impulso seja pensar “olha este cromo”, mas a razão é porque já sabia que, embora não tivesse consciente doutro caso no Mundo, sabia que era fácil aparecer outro Kaspar e tomei a defensiva para tornar o nome mais distinto. Ainda hoje recebi um email com o meu nome escrito com um Z….é  por causa disso que gosto de o ter o § no nome, se bem que outra vez meteram o símbolo, mas esqueceram-se do R no fim. O que não soa muito bem (risos).



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Existem 3 comentários

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  1. Goncalo Pereira

    ". Era uma coisa meia encriptada…e brincavam contigo, chegava lá e diziam “Este não é para ti, o teu vem para a semana, ouve estes que separei, esses é que são os teus”."

    Sim, tem uma piada desgracada – era impossivel passar a frente, ouvir algo diferente ou que nao fosse aprovado … quando estava em portugal gastava rios a importar discos por causa disto mesmo. nunca o encontrei o mesmo deste lado.


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