“American Utopia”|David Byrne

David Byrne | “American Utopia”

A carreira de David Byrne é infindável de criatividade e colaborações, bem como de caminhos diversos para a expressão da sua visão do mundo. Sempre um pouco fora da linha (no bom sentido), Byrne foi rejeitado pelo coro da escola por ser desafinado e desistiu de dois cursos na faculdade para criar pura e simplesmente um som que só podia ser o seu. Associado sempre à genialidade dos Talking Heads, enveredou cedo pela carreira a solo, abraçou o teatro experimental, foi autor de bandas-sonoras e colaborou com Brian Eno e St. Vincent na criação de álbuns em parceria. Com Brian Eno ainda mantém uma relação muito próxima que se reflectiu na concepção de “American Utopia”, maioritariamente construído por ambos mas depois alterado na sua estrutura de base devido à colaboração com Mattis With, que colocou de parte muitas das contribuições de Eno – a sua marca permaneceu de forma óbvia no tema que é o primeiro single extraído do álbum, «Everybody’s Coming to my House».

No ano em que lança o seu novo álbum “American Utopia”, prepara-se também para visitar novamente o nosso país, num concerto único no EDP Cool Jazz Fest em Julho e que representa fôlego ambicioso e renovado em termos de espectáculo ao vivo. Os concertos da digressão fazem parte de um espectáculo multimédia alargado intitulado “Reasons to be Cheerful” e trazem uma mensagem de optimismo em tempos de difíceis digestões políticas nos Estados Unidos e pelo mundo fora. O novo espectáculo ao vivo é complexo e longe do tradicional (como se isso fosse estranho em Byrne) e coreografado por Annie B-Parson, que trabalha com Byrne desde 2008 e envolve uma logística tal que só os ensaios dos elementos de ligação entre os temas do álbum demoram 90 minutos.

A construção do álbum não foi menos complexa, tendo sido dado por terminado rapidamente por Byrne mas alvo de inúmeras colagens feitas posteriormente, por terem sido mais de doze os colaboradores que trabalharam as faixas em conjunto com Byrne e na sequência do contacto deste com Mattis.

Lançado a 9 de Março de 2018 sob a chancela da Nonesuch Records, é o seu primeiro álbum a solo em 14 anos e representa uma reflexão sem grandes filtros sobre o mundo mas é possível que não se trate do mundo exactamente como o conhecemos. “American Utopia” poderá ser sobre um sonho para os EUA mas também sobre a realidade de um país que a maioria dos intelectuais rejeita e pode ser transposto para qualquer parte do mundo – se se quiser ser literal, o que não é a intenção, segundo Byrne.

Longe do exotismo e da exuberância dos sons de outros tempos, sóbrio, interventivo de modo mais directo (sobretudo no que toca ao seu próprio papel enquanto cidadão do mundo), despido mas incisivo sem estar contudo directamente ligado à política de Trump e a esta América – as faixas foram escritas antes das eleições, segundo explica o próprio Byrne. À primeira audição, não é um longa-duração fácil talvez pela sonoridade menos óbvia e tresloucada mas é musicalmente rico, produzido de forma exímia, colocando lentamente camadas de instrumentos e coros humanos e robóticos, que vão sendo introduzidos para que se possa crescer juntamente com esta musicalidade.

É uma reflexão, não um lamento ou um desejo, quase como se fosse um lugar que existe apenas na cabeça de Byrne e que é como é, como parece querer dizer em «Gasoline and Dirty Sheets»: She says that freedom costs too much/She says the mind is not a place. É um mundo descontruído, desligado dos significados sagrados que tradicionalmente são atribuídos, em que o céu das galinhas tem um deus em forma de galo velho e os cães não ligam patavina ao papa e, podendo parecer contraditório, até nesse surrealismo as coisas são como são e segundo o seu contexto, mesmo quando este é tão pessoal quanto o de Byrne. E nem todas as perguntas têm de ter respostas, essa é uma das pistas para ouvir “American Utopia” sem se estar ligado à realidade tal como é conhecida – um dos dez temas que compõem o álbum descreve até o ponto de vista dos cães em relação ao mundo ou o apontamento de como será a sua perspectiva e aspirações.

Com recurso a sonoridades mais electrónicas, em territórios mais exploratórios, etéreos e viajantes que Byrne acolheu calorosamente na sua composição “acabada”, é a prova de que não existem fronteiras criativas num homem que já fez tudo o que havia para fazer. A soberba poderia ter impedido o refresco musical que soprou através de “American Utopia”, tornando-o ainda mais uma distopia, um novo mundo cujo terriório se movimenta na mente do seu criador e onde existem millions of ways to be free, como canta em «It’s Not Dark Up Here». Trata-se de uma proposta, nada literal, e até pode ser considerada uma alucinação, como que insinuando que o criador não sabe nada para além daquilo que é produto da sua imaginação ou aquilo que lhe dá prazer – em «I Dance Like This», a dança poderia ser melhor mas fica-se por ser apenas prazerosa.

“American Utopia” não é uma visão apocalíptica nem talvez seja uma reflexão realista sobre o mundo actual, é a visão muito própria de um artista que não conhece fronteiras para a criatividade e continua a ser visionário nas suas propostas, avançando agora ainda mais essas fronteiras com a proposta de um mundo novo sem dramas, que não acaba It will just change its name, como declara em «Doing the Right Thing», a sua única canção irónica, como o próprio Byrne admitiu.

Brilhantemente construído por camadas de música e ideias, é um trabalho quase surrealista, deslocado numa altura em que a crítica é uma arte que se quer dura e muito real, a que Byrne será alheio simplesmente porque são estas as ideias que quer transmitir e precisamente com esta forma e intenção. É ainda o reflexo de alguém que com uma carreira enorme e com tanto já concretizado, tem a humildade de trazer para dentro da sua música pessoas que não conhece e que, segundo Byrne, enriqueceram a perspectiva sonora do álbum. Acima de tudo, quando se começa a ouvir poder-se-ia pensar que se trata de um discurso político ou até mesmo uma espécie de canto do cisne de um homem que, não tendo nada a perder, pode lançar-se nos labirintos da crítica comum, dos discursos necessários mas demasiados reais dos artistas com carreira feita. Mais uma vez, Byrne fez o oposto e criou um trabalho que se encontra não à frente do seu tempo mas numa outra dimensão que dificilmente o comum dos mortais consegue abarcar por completo mas que dá um enorme prazer a ouvir.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This