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David Byrne

O homem renascentista altermoderno.

Como descrever David Byrne sem descurar nenhuma das suas facetas e sem transformar qualquer texto numa prosa maçuda de várias páginas? Por onde começar acerca de um homem que explora, com igual genialidade e proficuidade, a música, as artes visuais, ou a dança. O que dizer acerca de alguém que se pode orgulhar de dizer que tem na sua casa um Oscar, um Grammy e um Globo de Ouro. E isto sem falar da sua faceta empreendedora e filantropa. David Byrne é um artista multifacetado, uma espécie de homem renascentista dos nossos dias, que não se esgota e expande-se além dos limites que a sua área de intervenção (aparentemente) impõe. David Byrne é um homem renascentista altermoderno, ser de uma nova era em que se age e cria a partir de uma visão positiva de caos e complexidade, como habitante de uma História de múltiplas temporalidades simultâneas em que a vida e a arte surgem como experiências positivas de desorientação, traçando linhas em todas as direcções de tempo e espaço e, assim, explorando todas as dimensões.

A melhor forma para o fazer nestes moldes, tentando evitar que este artigo se torne demasiado longo, é procurar elaborar uma espécie de guia introdutório, dividindo comodamente o seu perfil em tópicos de fácil identificação, que podem servir ao leitor menos familiarizado de introdução a voos mais profundos, assim como de resumo breve e sucinto aos admiradores mais ou menos devotos do artista nascido na Escócia e vivido na América, que estará de visita ao nosso país dia 28 de Abril, em data única no Coliseu de Lisboa.

Talking Heads
Por mais que faça, crie, invente ou produza, David Byrne irá ser sempre o tipo dos Talking Heads. Não por ter sido a sua primeira banda e o veículo que lhe deu notoriedade, mas, principalmente, devido à sua importância na história da música em geral.

Formados em 1974, em Nova Iorque, os Talking Heads (ou melhor, David Byrne, Chris Frantz, Tina Weymouth e Jerry Harrison), aproveitaram as fervilhantes e estimulantes sinergias que atravessaram a big apple naquela década. Os Talking Heads vinham da linhagem dos seus parentes próximos, do new-wave dos Television, do art-punk de Patti Smith ou do pós-punk dos Joy Division. No entanto, aquela banda que era toda ela energia contida e minimalismo anti-sentimental (os Velvet Underground sempre foram uma das suas principais influências) no álbum debutante de 1977, “Talking Heads: 77”, foi crescendo e desenvolvendo-se ao longo do tempo. E doze anos depois, quando colocaram uma pedra sobre a sua carreira com o disco “Naked”, em 1988, já eram uma das mais celebradas bandas dos anos 80, construtores exímios de excelente material pop, experimentais, originais e abertos às novas tendências. Pelo caminho foram sido absorvidas as influências electrónicas de gente como Brian Eno, a exploração pelos novos ritmos de uns Pere Ubu ou, simplesmente, o funk e o beat de nomes como os Funkadelic ou Fela Kuti. Mas como a teoria, por mais bonita que seja, de nada serve sem a experimentação, para sintetizar tudo isto ficaram as canções, clássicos como «Stop making sense» ou «Burning down the house».

Brian Eno
David Byrne conheceu Brian Eno ainda no tempo dos Talking Heads, mais propriamente em 1979, quando o produtor britânico produziu o álbum da banda, “Fear of music”. Os dois iriam colaborar em nome próprio algumas vezes no futuro, mas serão para sempre recordados com o disco de 1981, “My life in the bush of ghosts”, ainda hoje considerado um documento pioneiro dentro da música experimental.

Baptizado em homenagem ao romance homónimo do autor nigeriano, Amos Tutuola (comprovando o interesse de ambos na cultura africana), “My life in the bush of ghosts” é um álbum que, apesar de seguir a matriz da fase que os Talking Heads atravessavam na altura – a world-music, o funk e, especialmente, a percussão e a batida africana –, consegue expandir os seus horizontes e dar um passo mais à frente. Além disso, tem o carácter inovador da maioria dos registos vocais serem samplados (desde cantores das montanhas do Líbano até exorcismos, passando por coros árabes ou apresentadores de programas de rádio), uma inovação na altura e ainda mais impressionante se tivermos em conta que aconteceu muito antes do advento da era digital.

Álbum pioneiro e essencial na música dos anos 80 e 90, do trip-hop ao ambiental e ao experimental, é uma miríade de vias das mais variadas famílias, autónomas mas complementares entre si, que acaba por se revelar como o expoente máximo da faceta altermoderna de David Byrne.

Editoras
Outra das facetas mais visíveis de David Byrne é o seu empreendedorismo. E é aqui que vamos encontrar o David-Byrne-empresário, criador e mentor da editora semi-independente de world-music, Luaka Bop. Aqui, Byrne consegue aliar dois dos seus principais interesses: a parte melómona e o interesse genuíno pela convencionalmente chamada música do mundo, desde o samba e o tropicalismo do Brasil até ao psicadelismo asiático ou mesmo fado português (basta ver a paixão com que Byrne fala de Amália Rodrigues no documentário “The art of Amália”). No catálogo da editora encontramos assim artistas tão díspares como Susana Baca, Tom Zé, Os Mutantes, King Chango, Nouvelle Vague ou Zap Mama, para não falar das retrospectivas compiladas em autênticas edições de coleccionador.

Mais recentemente, e em paralelo com a Luaka Bop, David Byrne criou ainda outra editora, a independente Todo Mundo, por onde lançou apenas dois discos até à data, ambos com um carácter mais experimental. O primeiro foi a banda-sonora “Big love: Hymnal” e o segundo a última colaboração com Brian Eno, “Everything that happens will happen today”.

Outras actividades
E por falar em bandas-sonoras, excelente pretexto para pegar em “O último imperador”, o filme de Bernardo Bertolucci, que valeu a David Byrne o Oscar respectivo. Este registo é, talvez, o seu mais reconhecido trabalho na sétima arte, onde contou com a colaboração do japonês Ryūichi Sakamoto e do chinês Cong Su.

David Byrne saltou inclusive para a cadeira de realizador (e actor), no filme de 1986, intitulado “True stories”, uma sátira musical de cowboys-sem-nome ambientada na cidade imaginária do Texas, Virgil. Byrne viria a repetir a presença na cadeira de realizador, mas apenas no documentário “Île aiye” e nos registos visuais dos concertos dos Talking Heads, nomeadamente o clássico “Stop making sense”, um dos mais celebrados rockumentários da história recente.

Compositor (desde temas da falecida Selena a óperas premiadas), produtor, intérprete… falta ainda falar do David Byrne artista-plástico, autor de algumas instalações em galerias norte-americanas, entre elas os famosos quadros de bicicletas expostos por Nova Iorque em 2008, ou do David Byrne autor de um dos podcasts mais ouvidos da internet, o “Radio David Byrne”.

Ah, é verdade, falta ainda referir a sua presença num episódio dos Simpsons, barómetro cada vez mais essencial na aferição da popularidade e importância das personalidades nos Estados Unidos da América. A conferir em “Dude, where’s my ranch?”, episódio da temporada catorze.



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