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Disco Discharge

Os criadores da melhor série de compilações dos últimos anos em entrevista.

Compilações Disco é o que não falta. Por um lado, as colectâneas de êxitos que todos conhecemos, com os inevitáveis sucessos de Chic, Gloria Gaynour e Donna Summer. E num registo mais sofisticado, as compilações da fusão entre Disco e Post-Punk nas quais a década passada foi tão fértil, com séries como “New York Noise” e “Disco Not Disco”. A série “Disco Discharge“, cuja terceira fornada de lançamentos está preste a ser publicada, pretende dar um retrato geral, como explica o seu coordenador David Ackerman, vulgo Mr.Pinks: “tentei fazer um bom apanhado do que define o Disco, focando-me em todos os estilos e não só num”. Mesmo assim, podemos dizer que a visão Disco Discharge é mais virada para as obscuridades, mais europeia e, quando um dos volumes se chama “Gay Disco” não há que ter pudor em dizê-lo, mais homossexual.

Tanto Mr.Pinks como Alan Jones, o crítico responsável pelas liner notes dos discos e co-autor do livro “Saturday Night Forever: The Story Of Disco”, viveram na própria pele o boom do Disco Sound no Reino Unido. “A partir do momento em que comecei a ganhar dinheiro, comecei a comprar álbuns e discos de 12 polegadas; isso no final dos anos 70, inícios da década de 80” explica Mr.Pinks “mais tarde conheci o meu parceiro Steve, um fã gigantesco de Disco que já era DJ desde o final dos anos 70. Introduziu-me a tantos discos que nunca tinha ouvido. A partir daí nunca mais parei”. Alan Jones, que chegou ao Disco depois de ter servido de presidente de clube de fãs do David Bowie e DJ dos Sex Pistols, lembra-se de “ir sair todas as noites, nem consigo acreditar como fazia, nunca ficava em casa! Sim, íamos a Nova Iorque para ver como estava lá a cena, mas para mim o movimento Disco cá era tão vital como lá. Tornei-me fanático”.

O Eurodisco, estilo ao qual são dedicadas duas compilações da série e muitas faixas nas restantes, é segundo Mr.Pinks “fantasticamente interpretado e impecavelmente produzido, mas também tem sentido de diversão, nunca é demasiado sério”. Alan Jones menciona as ambições clássicas de muitos dos produtores do estilo: “estes tipos faziam sinfonias de quarenta minutos de concertos de violino fantásticos. Pode parecer foleiro, pode parecer kitsch, mas não é!” E avança com uma análise sociológica do movimento: “toda a gente farta-se de falar sobre a importância social do Punk e as suas ramificações políticas, mas o Disco era um dos poucos estilos em que os artistas negros eram levados muito mas mesmo muito a sério, em que a parte racial não importava, em que a parte gay não importava, o teu sexo, a tua sexualidade, não fazia diferença”.

Tudo isto num ambiente em que a vida nocturna londrina ainda estava longe de ser o que é hoje: “ainda estávamos constrangidos por uma série de leis estúpidas que diziam que os lugares tinham que fechar às duas, e havia lugares que tinham que fechar à meia noite” recorda Alan Jones “lembro-me que quando trouxemos alguns nova-iorquinos a Londres, eles nem conseguiam acreditar quão datada e antiquada a cena parecia. Mas tendo dito isto, uma vez que eu era da cena Eurodisco a música parecia-me muito mais vital, e cansei-me muito rapidamente do Funk nova-iorquino.”

São as memórias dessas noites londrinas que definem as oito compilações Disco Discharge actualmente disponíveis no mercado (com mais quatro para sair em breve, segundo Mr.Pinks); uma série empenhada em construir novos ícones (como o russo Boris Midney, segundo Jones “o mais talentoso produtor Disco de sempre”) e em corrigir (ou reescrever, dependendo da opinião do leitor) a história – todas as liner notes vêm carregado de declarações polémicas como a definição de “Waterloo” dos ABBA como “uma fusão de Rock e Jazz” ou a coroação de Ennio Morricone com o estatuto de “padrinho do Eurodisco”.



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