Tame Impala @ MEO Arena (08.04.2026)
Não foi apenas um concerto, foi uma experiência cuidadosamente construída e emocionalmente eficaz.
Tame Impala, o projeto psicadélico do australiano Kevin Parker, cantor, produtor e multi-instrumentista, chega finalmente a Lisboa em nome próprio com a Deadbeat Tour, numa noite de casa cheia na Meo Arena, a 5 de abril de 2026. Depois de anos a passar por festivais, esta estreia em formato headline parece menos um passo novo e mais um ajuste inevitável.
Parker quis, inicialmente, fazer de Deadbeat um projeto de música eletrónica mais puro, talvez até solitário. Mas no processo criativo percebeu que lhe faltavam as “cordas mellow”, aquela textura psicadélica que define o universo de Tame Impala. O resultado é um álbum que vive nesse equilíbrio, entre pista de dança e devaneio introspectivo.
Produzido numa casa de praia, a poucos metros do oceano, Deadbeat carrega essa ideia de “abismo” do oceano. Olhar o mar como forma de se perder na música. Entre ondas e pores do sol eternos, a Meo Arena, esgotada, transforma-se nesse mesmo fever dream.
Cores quentes. Luz de fim de tarde. Um verão fabricado em abril. No ecrã, tons crepusculares anunciam o estado de espírito.
O concerto abre com «Apocalypse Dreams» (Lonerism, 2012), existencialista e expansiva. A música cresce, o ritmo animado do northern soul vai crescendo até atingir o clímax, até cortar abruptamente e lançar-nos numa jam panorâmica. Parker pergunta: “Do you really live without the fear that everything is changing?” Os canhões de luz, inicialmente focados nele, expandem-se até envolver toda a arena. A mensagem é clara: o público não assiste, participa.
A partir daí, instala-se no palco principal, uma estrutura circular, uma primeira sequência de reconhecimento. Há uma passagem fluida por faixas já familiares, como «The Moment», «Borderline» e «Lost in Yesterday», esta última do álbum mais recente, mas com ADN de fases anteriores. O concerto respira, mas é uma pausa enganadora, como se estivesse a preparar terreno.
E é precisamente aí que muda de direção.
Com «Breathe Deeper», mergulhamos. A guinada para o techno torna-se evidente e irreversível. «Gossip» surge como pequenas gotas de ácido sensorial. «Elephant» entra triunfante, com uma energia quase «Barracuda» do Heart (1977), mais crua, mais física. «Dracula», a faixa mais pop do novo álbum, fecha este bloco, “run from the sunlight, Dracula”.
Entretanto, o sol, ainda que artificial, põe-se. E quase sem nos apercebermos, o foco desloca-se. Acendem-se os candeeiros do Palco B.
Nada aqui é estático, nem palco, nem luz, nem perspetiva. Uma câmara acompanha Parker em todos os momentos, até na pausa para ir à casa de banho, construindo um videoclipe em tempo real. Ainda assim, nunca há distanciamento. Pelo contrário, dissolve-se a fronteira entre artista e plateia. E, no centro de tudo, permanece o maior dom do Tame Impala: a melodia.
O Palco B surge então como contraponto.
Um espaço íntimo, quase um quarto, com almofadas espalhadas e um DJ booth ao centro, onde tudo abranda, mas não perde intensidade.
Aqui, Parker explora o novo álbum: «No Reply», ao piano, reduz tudo ao essencial. Logo depois, «Ethereal Connection» explode como club banger, uma pulsação de psychedelic house que desorienta a plateia no melhor sentido. «Not My World» leva-nos, como o próprio Parker descreve, a “a kind of future primitive rave act”.
Gradualmente, o concerto volta a expandir-se.
Regressamos ao palco principal, e com isso a uma energia mais coletiva. É o momento de Currents brilhar. «List of People (To Try and Forget About)» surge como um lado B que nunca o foi realmente. E «New Person, Same Old Mistakes» encerra esta secção, com um sing along coletivo, o “mellow” elevado à enésima potência.
O encore não quebra essa ligação, aprofunda-a.
«My Old Ways», com Parker dividido entre culpa e desejo, traz de volta a introspeção, “temptation feels like it never ends”. A reflexão desemboca inevitavelmente em «The Less I Know the Better», recebida como catarse coletiva.
E então, sem pressa, o concerto aproxima-se do fim.
«End of Summer» encerra tudo. Como todo bom verão, fica a sensação de querer mais. A faixa que abriu caminho para esta nova fase serve aqui como fecho, um reset emocional.
Este concerto marca a primeira vez que Tame Impala assume o papel de cabeça de cartaz em Lisboa. E fica evidente que já vinha tarde.
Kevin Parker mantém a sua natureza introspectiva, mas em palco revela-se ousado, seguro, quase magnético. Há um controlo claro da experiência, tanto sonora como visual, sem nunca parecer excessivamente calculado.
O que distingue este espetáculo não é apenas o alinhamento ou os visuais, mas a forma como tudo se articula numa experiência imersiva. A utilização dos dois palcos, a mobilidade, a presença constante da câmara, as luzes e os lasers que fazem brilhar a plateia tanto quanto o palco, tudo contribui para uma sensação de proximidade rara em arenas desta dimensão.
Sonoramente, o concerto mantém-se fiel às versões de estúdio, mas com mais corpo e densidade. As linhas de baixo são mais físicas, as camadas sonoras mais envolventes. A componente eletrónica, sobretudo nas faixas novas, ganha uma dimensão de clube, elevando à máxima potência a alma dos trabalhos mais recentes do grupo.
A reação do público acompanha essa dualidade. Há momentos de introspeção silenciosa e outros de entrega total, dança, coro, libertação. O concerto não impõe uma única forma de estar, permite várias.
No fim, a sensação é clara. Não foi apenas um concerto, foi uma experiência cuidadosamente construída e emocionalmente eficaz. Kevin Parker constrói um concerto que não se limita a ser ouvido, é vivido.
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