Elza Soares|”Deus é Mulher”

Elza Soares|”Deus é Mulher”

A eterna cantora brasileira que se destacou no samba nos anos 60, passou por tudo o que havia para passar, admirem-se os mais incrédulos de como ainda esse ser humano está vivo e tão vivo, parece que cada dia mais enérgica até. No meio da pobreza extrema da favela, casada antes ainda de ser adolescente, foi mãe enquanto ainda criança e aos 12 anos brincava na favela com os próprios filhos, estava na verdadeira altura de ser criança e já todas aquelas responsabilidades e sofrimentos reclamavam a sua atenção. No meio dessas dificuldades, sempre teve o desejo imenso de prosseguir a carreira de cantora, que acabou por surgir por acaso depois da morte do primeiro companheiro e mais como um meio de subsistência do que um caminho consciente para uma carreira na música.

Hoje a cantora desvaloriza tudo aquilo por que passou dizendo que não quer alimentar-se do passado, interessa-lhe apenas o momento presente e essa afirmação não advém do medo de morrer ou como modo de assustar expectativas próprias nem dos outros que a rodeiam. Elza Soares deixou no passado aquilo que pertence ao passado, até mesmo a sua verdadeira idade porque se diz mulher sem tempo, tanto pode ter 80 como 87 e esse facto, apesar de, na realidade não ser relevante, representa uma vontade incrível de estar no mundo viva na verdadeira acepção do conceito. Elza chutou a vida toda para a frente, mesmo quando teve de abandonar o seu país, ela que diz que nunca foi política ou não faz questão de falar no estado do actual Brasil mas admite que nunca se calava e algumas das suas companhias eram vistas como suspeitas. É que ser artista que fala em tempos de falta de expressão é ser-se político e aquilo que a cantora hoje faz é precisamente a afirmação plena de tudo o que teve e tem para dizer sobre ser mulher, sobre ser negra, sobre ser brasileira, sobre ter desejos, sobre viver a sexualidade em qualquer altura da vida, praticamente tudo soa a política, tudo soa a intervenção.

Depois do lançamento do seu primeiro trabalho de inéditos em 2015, “A Mulher do Fim do Mundo”, Elza ganhou outra carreira, não que não tivesse tido uma e já não fosse considerada uma lenda no seu país e fora dele – pudera, com 60 anos de carreira – mas porque simplesmente mudou o rumo de tudo para começar do zero. Os sambas foram substituídos pelo rock e pelo funk, vieram outros instrumentos, o discurso mudou e Elza tinha a sua boca bem aberta para dizer tudo o que lhe apetecia. Aquele trabalho abriu-lhe ainda mais as portas do mundo, ganhou inúmeros prémios, actuou um pouco por todo o lado e, apesar de alguns problemas de mobilidade física, o facto de tanta gente e sobretudo gente nova, novos fãs, se ter juntado agora para ouvir a rainha Elza deu mais alento à cantora para fazer mais e melhor. Não dizemos que precisasse de alento ou dessa juventude mas é desse ar novo que Elza gosta, é nele que gosta de se banhar e viver.

Com uma energia sem fim, Elza juntou-se à mesma equipa que produziu o álbum anterior mas teve maior intervenção já que escolheu as faixas que queria que fizessem parte do novo disco quando antes apenas lhe tinham apresentado o produto final. Achou também estranho que estivessem ausente as mulheres e, por isso, a equipa foi reforçada com, por exemplo, a clarinetista Maria Beraldo, a percussionista Mariá Portugal e o grupo feminino de percussionistas Ilú Oba de Min. De resto, a premissa para o sucessor de “A Mulher do Fim do Mundo” era fazer tudo diferente, por muito bizarro que isso possa parecer, já que a fórmula do sucesso já havia sido descoberta naquele anterior conjunto de 11 canções.

Quando surge “Deus é Mulher”, passados 3 anos, tudo está diferente, o país mudou, a própria cantora não é a mesma e é preciso mais do que o que foi feito antes. Por muito inacreditável que possa parecer, este novo trabalho de Elza Soares é um senhor álbum, mais definido, mais directo, mais claro, mais interventivo, mais feminista, mais Elza, mais tudo. É uma mistura explosiva de frontalidade e honestidade com a vulnerabilidade que é necessária para se admitir e cantar, numa altura em que Elza poderia estar descansada a viver só da paisagem da sua casa no Rio, a pujança do desejo da mulher em faixas como «Banho» ou «Eu Quero Comer Você». A cantora veio decididamente para ficar, não mais quer exilar-se forçadamente do seu país e di-lo logo na faixa de entrada do álbum, a partir dali muito dificilmente alguém vai calar Elza Soares, a mulher que quer cantar até ao fim da vida. Se a voz já não é claramente a mesma do passado glorioso, isso não impede que, dona de uma fonte inesgotável de força, cante com a mesma entrega ou talvez mais ainda do que antes. Elza não ronrona, tirou as garras para fora e ruge em muitas das faixas de “Deus é Mulher”, está furiosa mas é uma fúria construtiva, com vontade de empurrar para a frente, de libertar, de limpar feridas, de falar – minha voz uso pra dizer o que se cala, afirma em «O Que Se Cala», a faixa que abre o álbum.

Tamanha frontalidade começa até antes de abrirmos o LP e ouvirmos tanta declaração de força feminina, Elza surge na capa tão simples quanto desafiadora, cabelo enorme, aparentemente despida, está como está, com plásticas, bem consigo mesma, feliz como nunca, tão apaixonada por si que não precisa de estar apaixonada por mais ninguém, não precisa de pedir desculpa por nada. É logo ali na capa que é feita a primeira declaração de que não há nada a esconder, Elza dá a cara tal como é e mesmo a maquilhagem e as plásticas que poderiam parecer excessivas não conseguem colocar em segundo plano a veracidade e a coerência do seu discurso. Os temas são sobretudo os da proeminência da mulher mas também da busca das raízes que o Brasil teima em querer disfarçar e, por isso, uma faixa como «Exú nas Escolas» que pode parecer inocente é uma poderosa, directa e lúcida referência à substituição das raízes africanas presentes na cultura brasileira pela religião branqueada, bem como um discurso de empoderamento da educação para a criação de gerações cientes dessas raízes e afastadas da corrupção do poder. Ao mesmo tempo, parece remeter para a própria vivência de Elza na favela, na infância, como aliás  já mencionou em entrevistas, quando não existia assistência médica e tudo o que se conhecia eram as mezinhas e os chás dos curandeiros. No fundo, quase parece que foi essa crença ancestral que lhe salvou a vida e que os seus inimigos, afinal, estavam logo ali bem ao lado, sobretudo na figura do pai que a obrigou a casar-se tão nova. A fé, essa, é pagã, é a fé da libertação de quem não tem nada a perder e tudo a ganhar, a crença na capacidade de seguir a própria vontade, como canta Elza em «Credo», afirmando Minha fé quem faz sou eu/Não preciso que ninguém me guie/Não preciso que ninguém me diga o que posso, o que não. Esta é também a faixa hard rock do álbum, a exultação da self made woman em forma de espanto, num brilhante jogo entre o credo da crença e o credo enquanto interjeição de espanto que rejeita qualquer pré-determinação no seu caminho.

Bem mais ecléctico em termos musicais, “Deus é Mulher” explode em funk da lata misturado com raízes africanas e vai buscar ainda mais força interventiva a colaborações como a do músico Edgar na faixa acima mencionada ou as percussionistas de Ilú Obá de Min que dão corpo ao manifesto feminista e feminino de «Banho», por exemplo, onde também fazem os coros. E que mestria na composição e na letra, este tema é uma serpente que voluteia em referências metafóricas ao corpo da mulher e sua relação com o desejo, ao mesmo tempo que uma limpeza espiritual de toda a sobrecarga negativa de conflitos e ódios, personificada nesta intensa mulher negra que não quer nem vai calar-se. É por isso que sabe tão bem ouvir a espécie de chorinho feliz introduzido pelo berimbau em «Hienas na TV», o reflexo de uma cultura antiga de música, natureza, religiões, santos, orixás, tudo misturado com a letra do contra em que Elza diz Sim, digo sim para quem diz não/E pra quem quiser ouvir eu digo não – é possível que esteja a escorraçar as hienas do seu coração, vamos tocar a vida para a frente que o passado já deu o que tinha a dar.

“Deus é Mulher” é um trabalho portentoso, ecléctico, inventivo, honesto, sem papas na língua, um tratado sobre as mulheres e aquele que deve ser o seu papel na sociedade e, sobretudo, numa sociedade que Elza critica como sendo racista e machista, ainda que não utilize necessariamente estas palavras. Este novo LP é uma declaração de presença e força de uma mulher que quer viver e pegar essa doença boa a toda a gente. Existem várias mulheres dentro de “Deus é Mulher” e dentro de toda a gente, falando por todos os que são oprimidos na sociedade brasileira. É por isso que «Dentro de Cada Um», apesar da cama de quase baile funk carioca mesclado com percussões selvagens em que se deita, é um dos temas mais poderosos e interventivos do álbum, remetendo não só para a libertação da mulher cansada da opressão e da porrada como para todos os que procuram essa libertação, sendo ou não mulheres: A mulher de dentro de cada um não quer mais silêncio, psiu. E claro que Deus tem de ser mulher, é o Deus do calor, do perdão, o Deus voltado para fora, para a apoteose de luz e de sol, para o êxtase que é estar vivo e poder falar, não querer calar. A última faixa de “Deus É Mulher” foi a fonte de inspiração para o título do álbum e dá o toque final de êxtase musical num álbum maior que a vida, um portento de afirmação, de diversidade, magistralmente produzido e composto em todas as vertentes, cheio de pormenores, uma Elza Soares mais Elza que nunca, mulher, verdade, encarando-nos a todos nos olhos e desafiando toda a gente para que não cale aquilo que deve ser falado. Negando a mordaça do silêncio e renegando quase sem querer palavras como ditadura, política ou feminismo, Elza traz-nos tudo isso em actos e êxtase num álbum absolutamente obrigatório e fascinante.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This