Marvel Lima – De Beja, com amor

Marvel Lima | “Marvel Lima”

De Beja, com amor.

Em entrevista à Rua de Baixo, os Marvel Lima contaram que o seu nome se deve à “parte mais psicadélica e espacial da banda, e é uma associação ao que é maravilhoso, marvelous” e também à parede da sala de ensaios em Beja, que era “de um verde lima muito intenso”. Se a primeira parte encaixa na perfeição, a segunda, na prática vai muito mais além, tal a palete de cores que o disco homónimo nos oferece.

«Mariposa» é o ponto de partida. “Spring time is back and I’m still here with you”. Confronta aquele sentimento de efemeridade que surge associado a estes insectos. Uma forma de dizer que temos tempo. E que devemos saber aproveitá-lo. E bem.

«Mi Vida» é sobre os altos e baixos que vida tem, se bem que os baixos sejam os protagonistas. É uma tendência um pouco estranha que nós, como seres humanos temos, de realçar ou evidenciar o mau ou o negativo com muito mais facilidade que o bom e o positivo. Se houve alguém que o colocou de forma simples numa entrevista, foi Francisco Silva (a.k.a. Old Jerusalem) quando disse algo do género (atenção, que estou a parafrasear aqui!): “é-me muito mais difícil escrever uma canção sobre um assunto alegre do que algo triste”. A canção funcionou também como um tubo de ensaio para a banda e é fácil perceber porquê. É aquela que encerra em si um pouco de tudo o que os Marvel Lima nos têm para oferecer. O groove, a percussão, os sintetizadores, o psicadelismo e as palavras em várias línguas. Um indicador claro que em 2014 as ideias já estavam bastante claras.

Em “Marvel Lima” é possível escutar canções cantadas em espanhol, inglês e português. Há canções em que é possível escutar mais de uma língua, inclusive. Foi cada canção que, em função da direcção que tomou, guiou essa escolha. E a verdade é que depois de escutarmos cada canção não a concebemos de outra forma. Isto para dizer que há um encaixe e que esse encaixe não surge por acaso ou caído do céu. Houve trabalho por detrás. Faz sentido.

«Primavera». Altura em que o calor começa a regressar. Umas vezes mais timidamente do que outras mas neste caso a timidez ficou esquecida noutro sítio qualquer. A canção é um groove latino psicadélico, repleta de variações nos seus ritmos que a tornam imprevisível e muito mais interessante. Sabem aquelas canções que independentemente da duração, não nos cansamos de ouvir? Esta é uma dessas!

A demência é algo em que não gostamos de pensar. Nem de lidar. Parece que a palavra trás colada a si alguma angústia. Com «Demência»,  canção, há um sentimento estranho no ar também. Como uma inevitabilidade com a qual mais cedo ou mais tarde (fica a clara preferência pela última opção) vamos ter de nos confrontar. É um “Despegar la realidad”; deixamo-nos flutuar e sentimo-nos um pouco letárgicos enquanto escutamos “Demência, me seduces”.

«Niebla» pode ser traduzido para nevoeiro ou névoa e quando começa e pensamos: “Olha, esta é mais pop”. Até é. Mas é mais do que isso; há medida que o nevoeiro se vai dissipando e nos mostra uma canção repleta de pequenos arranjos e pormenores deliciosos. É a quinta canção do álbum. A do meio, uma das mais longas e uma das canções onde a voz menos presença tem. Aliás o papel da voz nesta canção surge como um delimitador, um separador entre a primeira e a segunda metade da canção. A riqueza sonora que integra as canções dos Marvel Lima é uma das suas maiores mais-valias e é fácil darmos por nós próprios a descobrir pormenores novos audição após audição.

A primeira coisa que salta ao ouvido em «Amarrado»  é aquele sintetizador deliberadamente desafinado e desafiador. Nem de propósito ouvimos uma voz a cantar “Amarrado, amarrado, distorcido”. Depois a guitarra marca o ritmo, a par da bateria e da percussão. Somos desafiados a contrariar o sentimento de nos sentirmos agarrados a um lugar ou a algo e o som vai traçando paisagens que evocam subtilmente um post rock, mesmo que apenas por breves instantes.

«Fever» está repleta de groove, do princípio ao fim. A meio da canção não sabemos se havemos de bater apenas o pé ou se devemos irromper numa dança, mas o ideal é deixarmo-nos levar. Sempre de mãos dadas com o groove contagiante que a guitarra solta, o sintetizador e as percussões abrilhantam a conjugação de sons que desfilam. Com estas canções o sons ganham cor, muita cor.

«Strange Perceptions» começa contemplativa mas é sol de pouca dura; um minuto passado da canção e mergulhamos numa sonoridade latina, sempre em crescendo, e com as palavras “eres transparente, como el agua / te leo con una baraja de cartas” a serpentear.

O final não tem de ser nenhum drama e «Finale» é tudo menos isso. É mais um convite para voltar ao princípio, a «Mariposa», porque o que é bom deve ser ouvido muitas e muitas vezes mas antes, ainda se escuta o ruído característico de quando uma canção no vinil termina.



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